quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Lembre-se

 Que a medida das coisas não são os outros, é você que precisa contentar-se com a sua própria unidade de medida. E daí que seu palmo é menor? Seu polegar não vale o mesmo tanto do que o do outro? São seus, e pouco importa o resto do mundo. E daí que você não cresceu mais que seus amigos de infância e agora sente-se um baixote? E danem-se se você é alto demais e sente-se um desengonçado! Fique feliz pelo seu tamanho em altura, e cresça sempre como pessoa.
   Não se incomode com o talento dos outros, você tem os seus também; e Porque não validar os outros ? Elogiar é o ato mais humilde que se faz. E Lembre-se que o talento do outro não diminui o seu. Você só se torna menor quando desiste do seu potencial por causa da capacidade dos outros. Se esse é seu caso meu velho, considere-se uma feto que não há de se desenvolver. Mas quando você levantar a cabeça e compreender o que digo, vai voltar a crescer e desenvolver-se.
  E daí que você vê pessoas perambulando por ai cheio de amigos, e você , sente-se pateta trancado em casa,sozinho sem fazer nada ... Não! Você não é pateta só porque não tem tantos amigos a sua volta. Você não tem números como os outros, mas aposto como tem ao menos um amigo: seja um único do peito, seja o virtual que mesmo tão distante esta próximo de você, seja um amigo de sangue, o chamado irmão, seja seu cachorro, seja quem for, até um imaginário vale. Seus poucos amigos não perdem o valor só porque as outras pessoa se cercam de gente, gente que às vezes nem são tão amigos delas. Seus amigos, pode ter certeza, são os melhores por mais que as vezes pareçam não combinar com você. Alías, eles não tem nada ver com você ou você com eles. Por isso são os melhores, acredite.
  E Dane-se o mundo, a cor da blusa do outro, o dinheiro na carteira, se ele casou-se com fulana, se o outro mora na mansão, se seu colega consegui uma promoção e você não. Danem-se as quantidades, qualidades, adjetivos dos outros. Esqueça as medidas dos outros, lembre-se que você tem a sua própria, você tem seu tamanho em alma. E medir tamanho de almas é tolice. A alma que você veste tem seu numero perfeito; Não se esqueça de ser feliz por você mesmo.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Um trecho (2)

"(..)-Não sei, na minha vida esse tipo de coisa não é muito comum. – sentei com uma das pernas dobradas para dentro da cama.- É que eu esqueço as vezes que não sou exatamente normal. Enquanto as pessoas se espantam com que eu digo, eu me espanto com a normalidade delas.
  - Ninguém é normal. – Disse Daniel
  -Relativo, e eu não acredito nisso. Alías acho todo mundo tão normal a ponto de serem monótonos. E até se dizer diferente já é normal, e nunca ouvi alguém dizendo-se igual.
  - Mas encare os fatos Janifer, as pessoas, todas são diferentes! – Argumentou novamente Daniel
  - Não parece. Sabe o que as coisas me parecem? Que um pintor resolveu fazer vários quadros. Ele pintou varias rosas, ele tentou fazê-las iguais. Mas nenhum quadro fica totalmente igual, mas mesmo assim, todos são vermelhos, todos são rosas. E justamente quando ele foi me pintar, ele resolveu pintar uma...- pensei em algo desanexado a rosas- Uma bota! "

Não sou "tipo assim" - Página 48.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um Trecho.

As vezes minha imaginação pede mais que uma folha, pede mais que algumas linhas. As vezes ela pede que eu escreva textos extensos, sonho de um livro talvez. Pois é o que eu tenho feito ultimamente. Vou postar de vez enquando, trechos de uma historia que se fez em minha telha quando tinha por volta dos treze anos, e que agora aos dezesseis, a crio em palavras.

"-É que julgo as pessoas rápido de mais. Eu acho que todo mundo esta torto, e depois acho que quem esta torta sou eu. Mas acabei de crer, as vezes tentar achar o bom nas pessoas é uma perda de tempo. Posso até estar errada mas é isso que eu acho."
Não sou "tipo assim"- página 31

domingo, 7 de novembro de 2010

A vida vista sobre rosas

Ela se sentou sob a parreira, arrancou do chão uma margarida. E começou a fazer a antiga mandinga do bem e mal me quer. Mas o que instiga é que ela fazia isso com o coração vazio. Não pensava em um alguém, apenas fazia por fazer, arrancava por arrancar as pétalas brancas. Sob a parreira,o chão onde a mulher sentava-se era branco, era um vestido de noiva em margaridas que tapavam o marrom e verde da terra.
 Terminando a primeira margarida, dera um mal-me-quer. Foi tentar outra flor. De novo , o mesmo resultado. E seguiram-se mais e mais margaridas arrancadas, tiradas a finco, debulhadas a rancor, até a mulher perceber que não havia mais flor para continuar. Levantou-se e abandonou o chão que antes vestido de noiva, agora mais parecia um cemitério de margaridas.
  Pelo gramado ela um pouco passeou, até encontrar um jardim de petúnias roxas. Sobre este ela ajoelhou-se e uma flor arrancou para inspirar de doce cheiro. A principio inala-se aquele odor tão bom de não sei o que, talvez de mel, talvez de chá, talvez de manhã, talvez de dia-pós-dia. Mas logo a petúnia perdeu o cheiro e ela arranca outra. E como era de se esperar, mais outra até o jardim roxo terminar como o jardim de margarida. E aqui jaz mais um jardim.
  Ela continuou a andar sob o sol inócuo, até se deparar com os dentes de leão. Ela assoprou cada um, e se foram as plumas ao vento como alegrias de dias passados. Sobraram apenas os caules ao chão. Na vez, dos girassóis, tombou um por um, e como se cada miolo fosse um rosto ela pisoteou. Na vez dos Jasmins ela arrancou cada chumaço como quem arranca a própria dor.
  Destrutiva sem motivos, ela só queria acabar com os jardins. Não se sabe o que a moça guardava para sobre as inocentes pétalas atacar, sabia-se apenas que ela não esta plena de seus sentidos. Talvez tivesse raiva, ou tivesse amargurada. Ou talvez só não gostasse de flores. Mas que ser humano não gosta de flores?
  Ela olhou para trás, viu o que fizera. E quando sentiu-se plena, parou de sem motivos estragar a paisagem por onde seus pés tocavam.Ela procurou o motivo de transformar jardins em cemitérios. Ela não descobriu, estava sem sentimentos superficiais, apática demais para descobrir. Coração oco, artérias lentas, pulmão murcho feito às orquídeas que arrancou. Feito os lírios murchos que não nutriam mais do solo.
  Mais um sentimento começou a tomar conta ao ver todo estrago que fizera, um sentimento de culpa. “Por que, por que justo eu que amo as flores destrui a suas cores?”
  Apenas uma porção delas não fora destruída, o canteiro de rosas. Então, sem dó de si, deitou-se sobre as rosas que perfuravam sua pele branca polar, escorrendo sangue tão ou até mais vermelho que as próprias rosas. Ela afundava cada vez mais no canteiro, e a mediada que afundava, mais árduo e profundos eram os furos pela pele. Mas tudo aquilo aliviava o que sentia por dentro, não valia mais a pena ver o que tanto amava morto por suas próprias mãos. As rosas faziam o que ela fez com suas similares. Ela fechou os olhos, e de lá não saíra mais.
  As rosa sempre lhe representaram a vida, e fora sobre elas que aquela moça faleceu.
  A rosa é a vida, os espinhos são os dissabores, as pétalas é os que nos encanta e faz continuar, o perfume é o atrativo como o amor. Mas se você cai sobre o canteiro, os espinhos lhe consumirão, e de nada mais adiantaram seu cheiro e pétalas encantadoras.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Um conto conciso

  Pássaros que nascem em gaiolas não sabem viver em liberdade. Mas soube que o passarinho que eu ganhara a um mês atrás já fora um dia livre. Então provavelmente morreria logo se eu o deixasse lá, preso na casinhola. Mas ele é tão gracioso! Toda vez que acordo de manhã ele feliz cantarola para mim. Acho que ele é um pássaro especial, ele é um pássaro que ama gente mesmo quando fora a gente quem matou sua liberdade.
  Eu encosto meu dedo nas grades, ele com sua nuca acaricia meu dedo indicador, dá um passo para trás e pia. Eu morro de paixão pelo bichinho, ele é tão meigo comigo.
  Mas será quanto tempo ele aguentará atrás das grades? Será que o amor recíproco que lhe dou é mais forte do que as ligas de aço que formam sua prisão?
  Fui testar então. Abri a porta para ver o que era mais forte: amor ou liberdade. É, ele alçou voo e se foi, ele precisa demais da liberdade, ele precisa mais que alguém, ele precisa de ninguém. Eu precisava do amor que ele me dava, mas a  lágrima que me caiu gotejou felicidade. O meu amor esta bem.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Livro Lacrado

  Algumas pessoas me conhecem, mas são poucas aquelas que sabem quem de fato sou. Pois sou um livro onde escondo muito bem minha biografia, deixo apenas que os outros leiam algumas paginas. E algumas páginas nem são minhas, são apenas versos inventados para cobrir os capítulos que não permito a olhares alheios. Algumas de minhas mentiras servem para distrair a quem não queira desembaralhar minhas frases e fases mais complicadas. Mas ainda existem as raríssimas exceções onde abro meu livro por inteiro. São pessoas escolhidas a dedo, pessoas que vejo constantemente fugindo do comum para que compreendam o anormal. Sinceramente, eu gosto mesmo do incomum, de pessoas não-convencionais.
  No meu livro não encontrara relatos de festas marcantes, meninos, amigos irrelevantes, idas ao shopping ou qualquer outro clichê. Tenha certeza, você há de ler momentos de medo, amores platônicos, solidão, passeios a um mundo dentro de outro, epfanias. Detalhes a parte, eu estou lacrada a cadeado. Sim, sou um tanto complicada, difícil de abrir e ler; Mas todas essas tantas dificuldades são minhas garantias de ter um leitor que não me trate como mais um livro, onde se solicitou a ler, mas na verdade me deixou empoeirando na prateleira. Poderão achar que sou livro mal escrito; talvez eu até seja, mas minha certeza é de que você não sabe ler entrelinhas, justamente aquelas que só se vêem quem crê que as palavras estão além de sua morfologia.
  Eu sou um livro implícito

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Garças do nascer do sol

  Agora, nesses dias em que não vejo você, eu acordo mais cedo, lá pelas cinco da manhã, antes do sol dar seu aparecer.Eu sei, no inverno custamos a levantar, faz frio, meus lábios se racham porque falta os seus nos meus, os pelos da minha pele se arrepiam, de modo sensível ao frio, contrario daquele arrepiar em que a causa era seu calor. Eu pego meu violão e a escada, ainda com minha camiseta velha de malha e short fino de dormir, boto apenas um casaco, subo no telhado. Eu vejo o que ainda restou das estrelas, o céu ainda esta como seus olhos amendoados. Eu toco alguma besteira, eu sei, ainda não toco tão bem meu violão.
  Tento tirar uns acordezinhos com minha mão gelada, sinto a brisa do norte bater. Paro um pouco então, me deito sobre as telhas vermelhas que pela pouca luz, ainda são azul escuro. Eu vejo a cidade em luz alaranjada, eu moro no lugar mais alto daqui, eu moro naquela casa da montanha, que precisa subir e descer pelo caminho de pedras. Eu sei que você gostava muito daqui, que você gostava de subir aqui comigo e ver as garças voltando paras suas casas arbóreas de copas altas no pôr-do-sol. Um dia você me disse que queria ser uma garça, queria voar para chegar mais rápido aqui. Você reclamava para subir a estradinha daqui, dizia estar sempre sem fôlego. Ai nós parávamos no meio do caminho para você respirar, você se sentava em alguma pedra, eu procurava enquanto isso algum bichinho da terra, você sempre amou muito esses serzinhos. Você se encantava quando encontrava uma joaninha e a colocava em seu braço e você a observava de modo tão perspicaz e delicado girando o braço.
  E quando não tínhamos o que fazer, íamos para a sala assistir TV. E acabávamos nem assistindo, ficávamos jogando conversa fora, rindo. E quando meus pais não estavam, trocávamos caricias, deixando mudo o barulho da tela, apagando suas cores, o que importava estava em nós, no nosso abraço. E eu também descia a montanha para lhe visitar, mas você não gostava de deixar-me entrar em sua casa, seus pais não queriam saber de namorados. E quando você vinha dormir aqui, sempre planejávamos ligando a alguma amiga sua para dizer que você estava lá na casa delas. E em uma noite de verão deitamos aqui onde estou agora com meu violão, para ficar olhando o céu. Quase dormimos aqui, até que acordei com uma danada de uma dor nas costas.
  Eu não me esqueço do dia em que você disse que não queria mais me ver. Eu fui até as sua casa, bati na porta e você pediu para que seus pais me enxotassem. Voltei amargurado para casa e liguei para você, gritei e me arrependo demais por isso. Você aos prantos do outro lado, disse que estava muito mal e feia. Eu insisti em revê-la para tirar essa historia a limpo. Você com muito custo subiu a estrada de pedra com seu casaco listado encapuzada. Eu abri a porta, nem me deu tempo para dizer olá, você em lagrimas me abraçou forte. Logo se pós novamente em minha frente, olhando para baixo enquanto às gotas se precipitavam. Sem nada a dizer apenas tirou o capuz, e pude compreender o que estava acontecendo. Seus cabelos negros se foram, e a maldita voltou a lhe atormentar. Então lhe pedi perdão pela grosseria ao telefone, eu não sabia que o câncer havia voltado a atacar seu pulmão. Além do perdão, pedi para que não se fosse, que ficasse comigo. Disse que seu rosto estava lindo, com seus olhos amendoados que brilhavam a face inteira. Falei que nenhum mal lhe aconteceria, que eu estaria sempre aqui. Você havia superado uma vez essa dor, estava certo que mais uma vez a venceria como a garota delicada e ao mesmo tempo, tão forte que você era. Mas ela se dizia estar muito mal, e queria se distanciar para que eu não sofresse. Respondi-lhe então que meu sofrimento seria não lutar ao lado seu lado.
   E hoje estou aqui, tocando no telhado, esperando o sol sair. É nessa hora que vejo as garças saindo de suas casas aqui perto. Elas cantam junto aos outros pássaros, para avisar que hoje é um novo dia, um outro agora. E todo dia vejo a mesma pequena garça pousar por aqui perto, no telhado sem se espantar quando me aproximo devagar. Gosto de pensar, me enganar e dizer: você mora agora dentro dessa garça.

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O mundo de Lola

 Como todos sabem, outubro é o mês das crianças, e do meu aniversário. Então, em homenagem, escrevi um conto abordando o tema.Feliz dia das crianças! (:

 Quem vê até pensa que ela perde seu precioso tempo. Eles tolos, a observam instigando porque ela perde assim seu tempo, deitada em majestoso jardim de petúnias roxas, olhando para o azul anil do céu recheado de plumas brancas, as espumas do dente de leão e as nuvens de algodão doce. “Para que céus, essa menina perde seu tempo? Por que não faz algo produtivo como arrumar seu quarto, por que não faz tricô junto de sua avó?” Perguntava-se a mãe que da janela da cozinha a observava enquanto lavava as louças impecavelmente, até que se tornasse tão ilustre a ponto de ver seu reflexo.
   E seus irmãozinhos gêmeos, que andavam com os macacões jeans sempre combinando, apenas mudando a cor da blusa, sairam até o verde quintal, olhavam a irmã de meias arco-íris três quartos, espatifada ao chão, com corpo formando uma estrela, se banhando do sol e olhando o céu.
  - Ora, essa nossa irmão ein? O que ela tanto fica parada olhando? – perguntou o de camisa verde
  - Não sei, -respondeu o de camisa vermelha - deve estar vendo se vai chover.
  - Ah, mas assim ela vai ficar velha de tanto esperar! Olha só como ta o tempo hoje!
  - Er, vamos perguntar para ela!
  E lá foram os gêmeos , verde e vermelho, aproximaram-se e ainda de pé um deles pergunta:
  - Lola, o que você esta fazendo?
  - Não então vendo? Estou vendo o mundo rodando. Você já aprenderão na escola que o planeta terra gira entorno de si não é?
  - Já aprendemos isso sim, movimento de rolação.
  - Seu burro – falou o outro gêmeo – é movimento de rotação! Isso o que dá não prestar atenção na aula.
  - Não comecem vocês dois! Eu estava quase sentindo a terra girar sob e sobre mim! Agora preciso me concentrar de novo... – Lola então, parou e um pouco pensou. Resolveu- Você dois, por que não me acompanham a girar com o mundo?
  A princípio, os dois pequeninos acharam a idéia de Lola um tanto estranha, seria mesmo possível sentir a terra girar sob os pés e o céu contornar feito um plano sobre suas cabeças? Bom, como criança não liga para o tempo que perde ou ganha, os dois deitaram sobre o jardim de petúnias, cada qual em um lado de Lola. Em silêncio ficaram, olhavam convictos para o céu. Passou um bom tempo e nada, até que o gêmeo de vermelho resmunga:
  - Estamos aqui a um tempão e nada!
  - Pô! - Disseram os outros dois em coro
  - Eu tava quase conseguindo! – Disse Lola
  - Eu também – Concordou o gêmeo de camisa verde.
  Voltaram ao silêncio, mas em menos de dois minutos o mesmo foi quebrado quando a mãe das crianças abriu a porta para que um amigo vizinho viesse. Esse mesmo tinha idade dos gêmeos, sete anos. Lola era três anos mais velha que seus irmãozinhos, quer dizer, na verdade dois anos e sete meses. Detalhes a parte, a mãe falou ao pequeno menino “Vá lá Miguel, os três estão lá, fazendo nada.” O menino então fora correndo até os três e de cara perguntou:
  - O que estão fazendo ai? Vamos na rua jogar bola!
  - Ah não- Disse o de vermelho
  - Estamos ocupados.- Prosseguiu o de verde
  - Estamos tentando sentir o mundo girar, é bem legal. Você só tem que deitar com os braços esticados e as pernas em “v”, assim, formando uma estrela. Quer tentar?
  Ele ficou a principio um pouco emburricado, já que sua intenção era mesmo jogar bola, mas fazer o que? Sozinho é que ele não queria ficar. Ele se deitou na diagonal do gêmeo de vermelho. Agora da cozinha a mãe observava quatro crianças fazendo absolutamente nada e perdendo o tempo.
  Olhavam, olhavam e nada. Lola levantou, pensaram os outros que ela, justamente a que iniciou tudo, deixaria o seu legado. Que nada, a menina fora apenas subir em um caixote e chamar a sua melhor amiga que mora do outro lado do muro.
  - Flora! Flora! Vem cá, preciso de você!
  - O que é? O que é? – respondeu ela, com seu vestido rosa-bebê esvoaçando enquanto corria até o encontro da amiga.
  - Flora, pula o muro. Vamos sentir a terra girar, precisamos de você para fechar o circulo!
  - Sua desmiolada! Você não tira mesmo da cabeça essa sua idéia, né? Deixa disso, vamos brincar de boneca logo!
  -É pegar ou largar Flora. Eu não vou brincar de boneca, não agora.
  - Lola, sua chata! Tá bom, eu vou. Deixa eu pegar o banquinho e já pulo ai. Deixa o seu caixote ai, ta?
  Lola voltou ao seu lugar entre os gêmeos e esperaram todos por Flora. Ela por sua vez, com uma mão segurando o vestido para não esvoaçar , e o outro para se apoiar ao muro, ela saltou sobre o caixote e logo em seguida ao gramado. Lola pediu para que fechasse o circulo. Ela ficou entre o gêmeo Miguel e o gêmeo de verde. Pronto, feito o quinteto! Agora, bastavam se concentrar. As cinco crianças então, flertando o céus e seus pássaros, passarinhos, espalmando o chão macio de flores, ao mesmo tempo, sentiram algo se mover, e era a Terra. Viram algo indo contra as suas direções e era o céu. A terra girava para esquerda, o céu a direita. “ Uau”! Exclamaram em coro os cinco. Brilharam os olhinhos, sorriram as faces, alegraram as suas vidas de “para sempre”.
  Para conseguir tal feito, demoraram mais de uma hora, mas conseguiram. Para quem diz que isso é ilusão e uma grande perda de tempo, se enganam, assim como a mãe que desdenhava o comportamento das crianças. O tempo que quietas ficaram, fortaleciam a imaginação, fluía os pensamentos de criança grande, maior do que de qualquer adulto. Tamanha era a força que fizeram a terra girar sob seu corpo, o mundo dar voltas enquanto a vizinhança parava. Idade é só um detalhe, grandeza mesmo é aquele sabe mesmo sem saber, que tem poderes mágicos quando não os tem.
  Grandeza é não deixar a pequena criança dentro de si crescer, guardá-la, e deixá-la aparecer quando o mundo fica mudo e um tanto sério. Não deixe sua criança crescer, a infância se ir vão, guarde-a com carinho, dentro da imaginação.

domingo, 12 de setembro de 2010

A Precipitação

   Ela sentia o corpo inóspito balançar devagar com vento, no vai e vem da maciça cadeira de balanço. Fronte a casa belíssima de tempos coloniais, herança de família, observa cética a fazenda de muitos hectares. Um quintal imenso, que não se enxerga em único campo de visão. Um quintal com tudo quanto é bicho, tudo quanto é tipo e cor de flor. Mas é tanto arame farpado, tanto ferro encruzilhado nas estacas de madeira. Remetendo a cobiça, lembra pocessão . Por mais que os pastos sejam brandos, nada por aqui é livre.
  A cor do metal lembra o céu desse dia nublado. Pela manhã ela ainda enxergava através das nuvens, a luz que resplandecia, a luz que queria ser. Mas não fora. O tempo umedeceu de repente, tornaram-se as nuvens densas e carregadas. Será que enquanto os lagos evaporavam, a alma daquela moça também evaporava?
  Uma coisa era certa, pensava menos do que antes, sofria menos também. Mas parecia sem essência alguma, olhar de tédio, lábios sérios. Parecia até o xadrez de seu vestido desbotado. Nada mentalizava, nada como antes. Os sentidos, apenas cinco, o mais importante ela deixou se perder. O sentido que dá sentido ao ato de respirar, é quase o propriamente dito ato. Porque um ser humano não é feito só do tocar, saborear, ver, ouvir e inalar. O ser humano é feito de pensamento, o ser humano é a criação da própria essência. O ser humano se faz, se constrói, não limita que as coisas ao redor o impeçam de voar mesmo sem asas.
  Como recuperar esse sentido? Perguntou-se ela. Na certa, não encontraria em uma cadeira de balanço, nem no vento frio que vinha do sul, a sacudir o solo verde. Levantou, foi procurar sua alma que a deixou a só. Pegou a finita estrada de terra, que no horizonte se perde e se torna infinita, junto ao milharal quase sem cor pela pouca luz do dia. Caminhava ignorando o que pelos lados a envolvia e se via. Como se fosse cega, no mínimo daltônica, nada apreciava, andava como um cavalo com as viseiras impedindo que se contemple o que se vê pelos lados, com uma rédea, escrava da própria guia.
  Ultrapassando o alto milharal ela avista o estábulo, Lá esta, Anarco. Ela apoiou as mãos no arame da cerca, chamou então por seu cavalo, nenhum alazão, era mais para pangaré, mas era o seu pangaré, aquele que ela cativa e ama, que monta mesmo com tantos ossos, trança a crina apesar de não ser uma seda, cavalga com orgulho, como se fosse um puro sangue. Veio então, trotando em descompasso, ela lhe acariciou o rosto de seu animal. Perguntou: “ Minha alma, você viu?” Ele apenas ergueu seu pescoço, colocou seu rosto junto ao seu e fungou por suas enormes narinas. Ela deu-lhe um abraço em seu dorso mesmo separados pela cerca. Foi até a porteira, abriu-a para que pudesse andar pela trilha junto de Anarco.
  Pela poeira andavam, A terra seca não se molhava a mais de um mês. O seco da terra a cada passo e casco que marcavam o chão, esvoaçava poeira pelo impacto e vento. A terra levou a moça e seu pangaré até o lago da fazenda rondado pelo verde-água do gramado .
  Ela sentou-se no balanço de pneu da arvore rente ao lago, Anarco bebia água e olhava sua imagem refletida no estável espelho d’água. Ela voltou ao vai e vem do balanço, sem alegria ou tristeza, sem sorriso ou seu inverso. Tudo sem sentido,ela parecia despir-se dos seus sentimentos.
  Eis que uma gota precipita do céu, cai em seu ombro. “ Lá vem chuva e é uma das fortes”. Relampeja, com medo procura abrigo, não encontra. Seu pangaré adentra a floresta atrás do lago, e com medo de perdê-lo, correu atrás.”Anarco, volte! Volte!”. E a chuva caia, tornava-se cada vez mais branda, mudou seu nome, tornou-se tempestade. As copas que fechavam o céu não eram o suficiente para impedir que se molhasse. A terra não era mais terra, agora era lamacenta e se chamava barro.
  Seu pé afundava, em compensação o cavalo diminuía o ritmo. Quase alcançado Anarco, ela tropeçou em uma raiz exposta, torceu seu pé. Imunda, encharcada, com chumaços de cabelo engruvinhado ao rosto, sentou sobre a raiz, tirou sua sandália que deixou marca vermelha e profunda no fecho da canela. Massageava o pé esperando que passasse a dor. Ressurgiu em sua visão Anarco, ele voltava donde tinha sumido. Abaixou o pescoço, ela lhe deu carinho em rosto. Ele roçou seu focinho em seu cabelo ensopado e embaraçado. Logo em seguida ela apoiou em seu dorso, subiu no ponto mais alto da raiz e montou em seu pangaré.
  Juntos, pelos troncos e galhos úmidos , venciam o solo escorregadio até encontrarem uma caverna rasa. Anarco podia não ser de raça, mas sua compaixão e carinho por sua amiga, não dona, era a peculiaridade que nenhum alazão tinha. Ele então, vagarosamente sob o teto de pedra da caverna, dobrou as patas e sentou-se. Ela desceu e encostou-se na barriga fina e cheias de costelas de seu amigo. Deitou, já não tinha a preocupação do estado de seu vestido, já estava mesmo imundo pelo barro.
  E lá fora caiam as gotas, a luz eram os relâmpagos, as arvores frágeis dançavam com vendaval, inclinavam e declinavam. Um não tão frágil caiu em frente a caverna hospedada pro ela e Anarco. Dentro dela escureceu, apena uma fresta a se enxergar. Ela levantou-se olhou a fresta e ainda era dia de tempestade. A chuva na floresta sempre tem uma sonoridade diferente. Quando a água toca as folhas, o verde torna-se mais verde.
  O pangaré ergueu-se de costas ao tronco que fazia barragem, em cinco coices o empurrou. Ela mancando fora sentir a chuva que já não era mais tempestade porem a terra era tão barro quanto antes. Com ajuda de Anarco saíram da Floresta e foram ao lago, antes estável, agora cheio de formas circulares graças a precipitação provinda do céu.
  Demorou mais de uma hora, mas todos sabem: Não há tempestade que não se acabe, nem sol que irradie o tempo eterno. A moça mergulhada no temporal, em fim encontrou a alma, que fora furtada do vapor d’água e devolvida ao seu corpo. Agora sim, podia rir e chorar, animar ou lastimar, sentir em fim. Almas escapam, mas alguma hora voltam. E voltam sempre após um temporal.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Alma nublada

  Dias como esses deveriam ser proibidos. Dias cinzas-azul, nessa ordem, nunca o contrario. Dias que começam assim: você sai na varanda, sente a brisa, a luz reflete na pele sem que se sinta, olha para o céu e diz: “droga, hoje tem sol. Tem sol e nenhuma nuvem.” Não que não me agrade o calor, os raios solares aquecendo a derme, não. Até gosto, mas... O humor, esse tempo não combina com meu humor. Me dói ver um dia que da janela descortina a serra azul, que emoldura o céu de tom ciano , sendo que aqui, bem adentro, onde corre sangue vermelho, esta cinza, quase negro, como se por toda vida tragasse cigarros. Nunca fumei, e talvez tornar-me-ia uma viciada caso experimentasse, aquela nicotina provocaria um fugaz prazer, um dos poucos da minha vidinha estúpida.
   Entrei, fugi da visão do lado oposto das paredes de casa, queria saber apenas em afundar mais e mais no poço que havia construído. Joguei meu próprio cadáver sobre o sofá daquela sala fechada que me escondia do mundo inteiro. Tudo calmo e sereno, as batidas do coração fraquejavam de acordo com o ponteiro do relógio que corria devagar. No silencio, ouço o tocar do telefone, deixo tocar. Sem vozes, hoje não as quero, quero apenas a companhia da solidão... Ela se manifesta, no barulho do ventilador de teto, na tela desligada da TV, que mesmo no semi breu, reflete umas poucas luzes.
  Suspiro então... Acho que ando suspirando demasiadamente, ao longo do dia, na calada da noite. Venho observando isso desde que me peguei no ato, quando via um casal passando em minha frente. Pensei que tal suspiro soasse como “Que belo é o amor, oh!As mãos dadas!” Mas não. Pesquisei a fundo e percebi, soava mais como“ Amor... falta a minha mão a uma outra.” Invejo os casais que pela minha frente passam. Às vezes me culpo, pareço em meu inconsciente, desejar a eles o infortúnio.
   Eu não queria que fosse o dissabor do outro, o meu conforto. Penso que, talvez, se pessoa melhor eu fosse, não seria necessário minha incessante procura pela desgraça alheia. Vicio-me em vilões, gosto da derrota do mocinho, da solidão da princesa condenada à torre, e quando vejo os heróis morrendo me delicio de seu destino infeliz. Mas a verdade é que não sou uma vilã. Eu sou mocinha, sou oposto do que dizem. As pessoas se dizem anjinhos que na verdade são diabos,pois eu sou o sete peles, que em sua pele ultima esconde uma aureola. Se acaso eu maldizer alguém, sei que nada mais é do que um descontentamento com meu ser, o que não posso,não tenho, não hei de conseguir. Se maldigo, logo o defeito se volta contra mim, como se minhas palavras refletissem em um espelho. E quando, na tentativa de consertar meus pensamentos, ressaltando no outro o seu bom, o meu espelho nada reflete.
   Olho aquela tela nua de T.V., vejo então a minha silhueta, deitada de barriga para baixo, com o braço direito esparramado ao chão dobrando o punho, encostando as costas da mão a superfície de madeira. Não gosto daquilo que vejo. Vagamente, posso ver minhas expressões refletidas. Coloco então, minha mão direita sob o queixo. Para erguer meu braço, o tão fino, pesou como se uma bola de chumbo estivesse acorrentada a ele. Todos os membros pareciam estar.
   Novamente, incessante o telefone toca. Oh céus! Porque ele veio me atormentar justo hoje? Será ele do outro lado? Não, preciso parar com essas esperanças que surgem assim, pequeninas com vontade de crescer. Não vou deixá-la se expandir, pois sei que logo embora irá, como em um sopro no dente-de-leão. Mas... Só para que esse barulho e minha curiosidade cessem, vou atender o maldito:
  - Alo. - Apática ao extremo, saúdo.
  -Má? É você?- uma voz masculina
  - O que e quem quer? – Impaciente
  -Não reconhece minha voz? É o Rodrigo, Má! Já deu uma olhada no dia que faz lá fora?
  - Odiosamente azul.
   Decepcionada estava, mesmo que por muito pouco, pensei que fosse ele no outro lado. Não, não era ele. Era meu primo.
   - Já vi tudo, esta naqueles dias. Mas vamos lá, estou a fim de pegar a caminhonete e irmos à cachoeira. Eu, você, mais a nossa trupe. – Estava ele, em sua voz contagiante, despertando minha raiva, mas que não se manifestava em meio minha dissimulação.
  - Vou desligar.
  - Calma! Não! Não desliga agora. Podemos fazer outra coisa mais light, se preferir. Só não vamos desperdiçar o tempo!
  - Dane-se o tempo. Aqui dentro faz chuva, e é de vento. Chuvas de vento, guarda-chuvas não impedem que me molhe.
  Silencio, em ambos os lados da linha. Pensei em botar o telefone no gancho. Achei melhor não, achei melhor apertá-lo em meu ombro , e no armarinho donde fica a base do telefone, da gaveta tirei uns papeis, insensatos escritos, bobagens, um amontoado de mentiras, que quem saiba, um dia fora sinceras. Leio-os enquanto espero algum sinal de vida do outro lado. Ouço um fungar.
   - Quando você fala assim, é porque tem coisa. Você não gosta de chuva, desde pequena, morre de medo de temporal. O que aconteceu?
   -Nossa... – Falei com os escritos em mãos,em uma solene exclamação.
   - O que?
  - Palavras. Umas linhas que eu escrevi, dois anos atrás. Linhas onde escrevi coisas do tipo “para sempre”. Tolice. Nem essa folha de papel será para sempre. Um dia ela irá se degradar, ou então, mandada a uma fabrica para reciclar e perdera seu conteúdo nela escrita.
   - Porque diz isso?Bobagem. Dizem que escrever é uma atividade ótima, tanto para esfriar a cabeça quanto para ocupar o tempo; O que diz? Curioso ler uma coisa assim, dois anos atrás.
   - Então ta.- Ofeguei – “ Ah! Você nem imagina o que me faz! É engraçado as cócegas que me faz sem saber, faz cócegas o corpo todo, não consigo tirar esse sorriso do rosto e coração. É que as pontas dos seus dedos estão o tempo todo roçando as partes sensíveis da minha alma, como aquelas partes da minha pele, que rio a toa quando tocadas, tipo a nuca, axilas. Mas é diferente da carne.Dessa na alma, não me canso, nem me sufoco de tanto rir. Pelo contrario, só desejo mais, que meu rosto continue bobo. Em pensar que isso, penso quando você me dá um apenas um oi.”
  -Que graça, escreveu isso aos...- Parou um instante, provavelmente para cálculos.- Dezessete?
  - Dezesseis. Foi à primeira coisa que escrevi pensando nele. Ah, como eu me lembro! Isso foi quando descobri que tinha algo de errado com os meus batimentos cardíacos assim que ele chegava perto. Às vezes nem tão perto. Podia ele estar no final de uma rua, eu na outra ponta. Miragem de quem ama.
   - Então é sobre ele que escrevia? Olha, não. Esquece, deixa para lá esse papeis, vai ser pior se você ler. Desculpe por pedir para que lesse! Não imaginava!
  - Tudo bem,você não tem culpa.
  Não conseguia tirar das minhas mãos daquelas folhas... E eram tantas. Continuava com os olhos, lendo as letras tão bordadas .
  - Então? Espero que tenha os colocado no lugar donde deixou, ou então, em fim, tirou do alcance da sua vista, isso basta. – Parecia nervoso, cambaleava no que dizia. - Agora anda, vamos para o botequim aqui perto, eu chamo o pessoal.
  - Olha essa: “Obrigada, eu fico grata por tudo, tudo mesmo. Até pelos seus defeitos, e por sua virtude de aceitar os meus. A um ano atrás, eu não sabia como era agradecer alguém só por estar ali. Ou agradecer alguém que me preocupa tanto, e que mesmo assim, faz do seu ser, um alivio para meus problemas. Eu pensava que antes de você, que não tinha mais jeito nem alguém. Mas você mostrou, tem jeito, tenho você. Ah! Você nem imagina o quanto estou feliz! Um ano com você, é da data do aniversario em que voltei a respirar, voltei a viver.Te amo !”
  - Olha... Pare de ler. Não faz bem ficar vendo esse tipo de lembrança.
  Desliguei. Insuportável era aquele tom de dó. Qualquer voz era. Queria me ver só, queria estar apenas com as lembranças. Era uma espécie de masoquismo ler aquilo tudo, é como escutar as musicas do Radiohead , ou qualquer outra triste em momento de aperto. Você deveria estar botando no radio, uma canção alegre para despistar o aperto. Mais não, você coloca alguma musica que só aperte mais aquele nó. É tão esquisita essa vontade de realçar um sentimento ruim.Em minha teoria, isso seria fruto do medo de ficar oca. Ser oca, às vezes é pior que essa melancolia, apesar de sufocar menos. Bem menos. Bom, ao menos sei que meus sentimentos não morreram,e isso é o que me alivia.
    Vou então, folha a folha, cheias de bordas rasgadas do caderno, algumas do meu de dez matérias, outras do meu pequeno, e ainda, os menores que eram arrancados de um bloquinho. Eram tantos... Nunca lidos por ele.Sempre escrevi por mim, não tinha interesse que alguém lesse , mesmo que esse alguém fosse o mesmo em questão. Não sei qual seria sua reação se lhe mostrasse os papeis. Talvez sentisse lisonjeado, reconhecesse que era, e muito bem amado. Talvez salvasse o que ainda tínhamos, se ele lesse minhas palavras... Será? Não. Acho que um bando frases bonitinhas não salvaria nossa relação.
  Mais tarde, no mesmo dia cinza-azul, Estava no quintal dos fundos. Sentada naquele piso, queimava a papelada toda, vendo a brasa nos sentimentos inseridos naqueles papeis, sentido a mesma na alma. Ficavam cinzas, logo pretejavam as folhas, já estava cinza a alma, cada vez mais escura. Olhava a fumaça, subia até o céu ainda tão limpo, sem nuvem alguma. E aquele circulo ofuscante que não posso encarar, toca minha pele torturando. Amo tempos assim, odeio dias assim. Queria meus sentimentos recíprocos com o tempo de hoje. Mas como não podia, desejava apenas que fosse de vez nublado. Seria mais fácil aceitar aquilo que me invadia por dentro.
   A campainha toca. De novo, maldita pequena esperança com vontade de crescer. Atendo, ele de novo, meu primo.
   - Estou queimando-os lá no fundo do quintal. Ainda faltam alguns- Respondi assim que perguntou por eles.
   E nós dois nos fundos, sentados naquele chão, olhávamos aquela fogueira. Ainda conseguia ver alguma coisa nos centros ainda não invadidos pela chama. E em minhas mãos li o ultimo a se juntar ao outros.
   “Estão esses dias, se tornando cada vez mais azuis, à medida que vou descobrindo o quanto te amo. E quando eu olho o que se passou desses tantos dias, tenho cada vez mais a certeza. É para sempre. Eu pensei que o mal vivido antes estar junto de você nunca passaria. Errei, em dizer nunca. Eu sinto, sinceramente sinto que estou certa do meu sempre. Estou certa de nós.”
   Esse foi o ultimo que escrevi, mas exatamente semana passada antes do ocorrido. Antes de eu perder o tal encanto que fixa uma pessoa a outra. Não havia terceiros, era eu e ele. Ou seja, a culpa fora toda minha de se tornar tão sem graça de repente. Ao menos acho que seja isso.
   - Então vai ou não queimar esse ultimo?
   Estendia a mão sobre a fogueira mas não abri os dedos. Desisti de queimar aquele papel.
   Pelo resto do dia, passei naquela sala, no sofá recebendo lenços, apoio moral e cafuné do meu primo. E de noite, sozinha, queimei com isqueiro o vestígio de amor no papel. Pena o amor não ser tão fino e frágil como papel .

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Em quanto isso na prisão domiciliar...(3)

Preciso parar de colocar coisas pessoais por aqui. Mas realmente preciso desabafar. É.
    O que você me faz não é saudade. Saudade é uma despedida, é um adeus, é um não poder mais junto estar. Saudade é desproposital, como aquela da infância, do impossível. É a distancia temporal e física que impede, mas mesmo assim, pede a sua volta. O que você me faz é falta. Eu não me despedi de você. Você esta tão perto, e ao mesmo tempo, tão longe de mim. Poderíamos estar juntas, mas não estamos. Mas que isso, a falta é uma ausência , uma parte sua que se vai sem seu consentimento. Sua ausência me chama nos momentos de solidão, então claramente lembro daquilo que junto a ti, pude viver. Com você eu estava viva, não apenas existindo nesse mundinho vazio.
  Faz-me falta suas esquisitices, o seu desleixo como garota. E daí? Você não se importa com a opinião alheia. Você era incrível, enquanto todas falavam sobre malhação e colírios, você falava sobre o último documentário do Discovery Channel. Faltam as suas ironias, você falando das palhaçadas do seu irmão. Nunca soube que musicas você gosta, você sempre foi tão indefinida quanto a isso. Suas notas tão invejáveis, recordo que, mesmo após uma briga, você foi até minha casa ensinar química e os malditos s1, s2, p1,p2, p6....
  Nossa amizade... Com tantos deslizes, como é de esperar de qualquer boa amizade. Afinal, são para os amigos de verdade que partilhamos as nossas incessantes tristezas e aquelas asneiras que nos separam. Os amigos de mentira, aqueles de improviso, só para ficar não na total, apenas em meia solidão, não se contam tantas da vida. Por isso as mantém firmes, mesmo sendo laços frágeis entre nossa conexão. Talvez quando a conexão seja forte de mais, debatemos em um impacto que nos repele, tornando a diáspora mais potente.
  Aquele meio ano sem nos falarmos, fora fatal. E adivinha a culpada desse resultado? Culpo-me por minha omissão, nem lembro a respeito e sobre o que debatemos. Em minhas memórias tenho apenas os bons momentos. E tem um que nem é tão bom, mas é também. Lembra quando você ficou nervosa com minha tagarelice e gritou comigo? E fui aos prantos correndo ao banheiro, você ante mim, em frente ao espelho você me deu abraço, um dos únicos. Eu não esqueço a cena, nós duas chorando refletidas inteiras naquele retângulo do banheiro branco de  mais.
  Fora isso, nunca fomos convencionais, nada de abraços o tempo todo, nada de coraçõezinhos com a mão (bler!) e eu te amo não é necessário ser pronunciado, até por que somos sinceras, sabemos que amor não é coisa qualquer. Mas sabíamos que tínhamos uma à outra para contar, sem nada ser dito.
   E por favor, me desculpe todas as vezes que fui negligente contigo, você nunca fora comigo. Eu sei que deixei você magoada muitas vezes, porque não perguntei um simples: “Você esta bem?“ Eu sei, nunca soube confortar,nem a você, nem a ninguém. É meu defeito ser fria por vezes. Você sabe, Posso parecer doce por fora, mas sou amarga por dentro. E são nas minhas amizades que a amargues transcende. Pode reparar, muitas vezes agradamos os que não nos prezam, e esquecemos de nos doar aos que prezam.
   Nisso tudo, o que mais me dói, é você fazer tanta falta,e eu não lhe fazer a mínima. E de todas amizades que abandono, eu não deixo saudade, quanto mais a falta. Dentro de mim, sua ausência esta presente.
Sempre.

sábado, 14 de agosto de 2010

Filme de terror

   Já tinha sete, fizera a pouco mais de um mês. Talvez fosse mocinha o suficiente para ficar a só no apartamento, enquanto seus pais fossem a um evento noturno, um concerto na cidade vizinha. Seria a primeira vez o apartamento em seu domínio. Mas seus pais ao saírem, antes de trancar a porta por fora, deixaram bem claro “Fique longe do fogão, nada de sentar-se na mureta da sacada, ou melhor, nada da sair na sacada. E lembre-se, na cama, as dez horas, mais tarde que isso, os monstros te pegam.”
  Aos sete não se acredita mais em monstros, e mais que isso, aos sete se quebram regras. Aos sete a menina inicia a malicia da desobediência, começando por pequenas mentiras, afirmando que faria tudo dentro dos conformes. Se bem que... Existem pequenas mentiras? Bom, ou você mente, ou diz a verdade. Ou então, simplesmente, omite. E omissão seria a sua escolha. Afinal, quem contaria que ela fizera um brigadeiro? Esticara as pernas na sacada e dormira assim que de fato, o sono tomasse conta? Tinha tudo em mente: a vasilha ela lavaria assim que se deliciasse de seu doce, na sacada, nenhum morcego contaria a seus pais que por lá esteve, e nenhum bicho papão a denunciaria sobre sua noite prolongada.
   E lá foi ela, nove meia, para o fogão. Lata de leite condensado na mão, colher na outra, a panela no fogo, o pote de achocolatado aposto sobre a pia. Não demorara muito, aquele marrom condensado, o cheiro de sacarose quente rondando a cozinha fechada. Impaciente para que esfriasse, colocou a panela dentro do congelador. Fora fazer qualquer outra coisa, de preferência, algo que não pudesse fazer na presença de seus pais.
   Era tanta coisa, inúmeras estripulias que pensava em fazer. Pegou o vinil de seu pai, no velho toca disco colocou Janis Joplin para tocar. Fora até a gaveta de tranqueiras de sua mãe sua mãe, pegou uma escova e um óculos,daqueles redondos, um que sua mãe comprara na década de setenta. Correndo do quarto a sala, Fez então uma entrada pelo corredor, quase caindo ao deslizar sobre o tapete. Recuperando o equilíbrio, acertando o passo, sendo a escova o microfone, subiu sobre a mesa próxima ao som. Dublou então, brincando de Woodstock . E percorria a mesa, colocava a mão no estreitíssimo quadril, inclinava as costas para trás com o seu cabelo ondulado e despenteado encostando sobre a superfície , com o microfone sempre rente a sua boca.
   Assim que cansou de cantar, pulou da mesa ao chão, fora pular então, na cama de casal, afinal, é um clássico de toda criança, desemaranhar o lençol, estalar os estrados enquanto os responsáveis estivessem ausentes. Isso fora até cansar, até pouco mais que a hora estipulada para estar em sua cama sob o cobertor.
   Pegou o brigadeiro, Sentou-se então no chão da sala, ligou a TV de trinta e tantas polegadas. Poderia ver o que escondem os adultos lá pelas dez e pouco, dentro daquela tela. Tinha uns talk shows, programas tediosos que deveriam ser de comédia, no outro canal, um filme policial. Nada que preste ou a interesse, mas eis que em um clicar para baixo, na troca de canal, um grito alto e tenebroso, um rosto insano de olhos dilatados e brancos. Sim, um filme de terror, e dos bravos. Fora tão repentino, que seu coração perecia se debater no peito, tentando encontrar alguma saída, talvez pela boca. Soltou as mãos do controle, tremula colocou as mãos sobre os olhos. E o filme continuava, tirou as mãos dos olhos cerrados, espremidos, tapou seus ouvidos. Ela não desligava ou mudava o canal, pois além de recusar abrir os olhos ,seu raciocínio, por mais simples que fosse, fora invadido por aquela imagem e grito. Encolhida, escondendo-se em sua perna dobrada, esperou aquele calafrio que adentrava seu corpo abandoná-la, e assim tomar de volta o controle de suas articulações e desligar aquela imagem que tanto a atordoava. Demorou um pouco mais de um minuto,e ainda sem nada enxergar, apenas pelo tato , ela apertou o botão para desligar. Não deveria ser uma tarefa difícil, afinal, tal botão era o maior. Mas em momentos de descontrole, até a mais fácil tarefa, como um simples encontrar, pode perder-se em meio os batimentos acelerados. Pronto. Tela negra, sem nada a ameaçar.
   Mas aquele grito continuou, como um gravador, uma velha fita de vídeo cassete rodando em sua memória. Tinha medo de se levantar, medo de desdobrar as pernas, medo de fazer qualquer movimento. Estava pálida, feito as plumas de um dente-de-leão. Assustada como um filhote de leão abandonado.
   Bom, ela não podia ficar ali para sempre. Levantou-se vagarosa, sem movimentos bruscos, deixou a panela no chão, não tinha coragem de ir para aquela cozinha de piso frio. Ela sabia que aquilo seria um vestígio de uma das regras quebradas. Não bastasse, ela vê a porta dupla de correr da sacada aberta esvoaçando a cortina fina, tão branca... Para aquela menina, tal pano soava um fantasma ou um espírito, gritando então, deixou o segundo vestígio exposto. Ela corre até seu quarto, e lembra que deixara uma bagunça o quaro de seus pais. “Dane-se!” Ela pensou.
   Quatro regras quebradas, três vestígios deixados. Bom, amanhã ao menos ela não seria castigada por dormir tarde, mas teria outros três motivos. Porém, pelo maior castigo ela passava, uma noite de pesadelo que tudo visava ser real. Debaixo do cobertor, em sua cama tão aconchegante e quente, ela fica a espera da única coisa que poderia tirá-la dessa situação: o sono. Fechar os olhos, calar o mundo, não encontrava melhor solução.
   As horas se passam, já não sabia a pequenina, se estava dormindo ou se estava acordada. Era uma sensação fora do comum, o tempo pesava, os milésimos tornaram-se segundos, os segundos minutos, a hora, um dia. Era impossível distinguir o real do irreal, o que é fruto da imaginação do concreto. Sabia apenas que estava sob o cobertor e mais nada. Deveria ser mais de meia noite. Bate um, três, seis, nove, doze. Doze badaladas do sino da igreja, sim, agora sim, meia noite.
   Ela toma coragem e coloca seus olhinhos para fora da coberta que funcionava como uma espécie de proteção psicológica. Nada de incomum. Fixa-se o olhar na porta aberta, na luz acesa do corredor. Ela respira aliviada. Mas não move um músculo se quer, um nervo.Repousou no Travesseiro macio, fechou os olhos, apenas os fechou.
   A luz do quarto se apaga, mas continua a luz do corredor acesa. Pela película que recobre o olho ela percebeu a mudança de claridade, abre os olhos esbugalhados como os daquele ser do filme. Tensa, volta a baixo de sua proteção. Ela escuta da sacada, um fustigar das envergaduras flexíveis de uma asa. Escuta então, os passos pela casa, o arrastar de uma das cadeiras na sala. Alguma coisa se aproxima, passa pelo corredor, entra no quarto.Sua respiração era Arquejante , assim como começara a ficar a respiração da menina. Ruidosamente ela coloca seus olhos para fora. Que horror. Que coisa era aquela?
   Forma humana, verde musgo,arcado , asas de penachos preto, olhos profundos fora de orbita, remendos e rachaduras, cicatrizes pela pele. Unhas longas, apodrecidas e disformes, conforme seus quebrados. Não sabia se fugia, ou permaneceria imóvel, esperando pelo pior. Em fração de segundos decidiu: Soltara um berro, um berro maior do que a do filme. O monstro macabro, em reação inesperada, dera um urro abafado, saíra do quarto, tropeçando, topando em vários moveis, chegou a debater-se a parede e assim caiu um retrato pendurado. A menina sentia-se leve, mais não uma leveza como aquela que sentimos ao fazer uma boa ação ou reparar erros; era uma leveza que tomava o corpo, e pesava na mente, o peso de seus ossos sumiram e seus movimentos tornavam-se incertos, pois não sentia mais as extremidades.
   Ele poderia ter abandonado seu quarto, mas sabia, ele ainda estava por lá. Envolveu-se no cobertor, assim como fazia quando brincava de moça árabe, imitando as vestes. Fora com passos arrastados e medrosos atrás daquele monstro, junto de um bastão, aqueles de jogar bete, que guardava em um cantinho de seu quarto.
    Escutando sua respiração, fora até o banheiro. Lá estava a besta. Horrível, era a visão propriamente dita do inferno, lugar donde provavelmente surgira. Fechou os olhos, deixou de lado o cobertor, ergueu o bastão, em sua direção, fora pronta para rebatê-lo. Ele estava encurralado , assim que viu o objeto de madeira, em sua direção, pronto para atacá-lo disse como uma voz sinistra:
   - Ei! Porque quer me bater humana? O que lhe fiz? Diga-me!
   Abismada. O mostro falava língua de gente. Cessou o bastão, o colou sobre o ombro. Mas estava aposto, qualquer que fosse uma reação de ameaça. Abriu um pouco os olhos, o suficiente para ver vultos, ela não queria olhar diretamente a sua feiúra.
  - Você... Você sabe falar!
  - Poupe-me pequena humana. Não me machuque, porque eu não vou te machucar.
   Aquele monstro, esquisito demais... Era difícil levar a serio o que falava com aquela voz tenebrosa, prestava-se mais atenção no tom gravíssimo de da sua fala, no que falava propriamente dito. Ela gaguejava:
  - Aonde você veio seu monstro? Sai daqui!
  - Era de se esperar. Não, eu não te culpo, eu sei, sou de uma tamanha feiúra, que chego a ser algo invisível. Não, porque não tenho uma forma, e sim porque sou tão disforme que as visões me negam. Vou me embora, não se preocupe, não encostarei nenhuma de minhas garras em você.
  Passo pela menina, e quando dado suas costas a ela, ela se virou e disse ainda com os olhos pouco
cerrados:
   - Calma não se vá. Eu vou abrir meus olhos para você
  Parou, atento a ela, miravam os seus olhos. Esperava o abrir por parte dela. Ela então os abriu, piscava por vezes, até acostumar-se.
  - Eu sei, é difícil me olhar. Pare com isso, não quero te dar motivos para pesadelo. Estou indo.
  - Espera. – Falava um tom de incerteza – Você não é feio.
  - Não?
  - Não.- Pausou sua fala, e com convicção disse- Você só é... Diferente.
  - Não tente me enganar – Aproximou-se aos poucos – Você tem medo.
   Começou a dar voltas, muito, muito próximo a ela com seu pescoço arcado em sua altura e direção. Parecia até querer ameaçá-la, rondava ela como um predador. Fungou em sua nuca, diagonal a seu ombro, com forte ar exalado pelos grades orifícios de suas narinas, fazendo seu cabelo esvoaçar. Voltou a ficar frente a frente.
  -Você não tem muitos amigos, não é? – Disse em um tom de inocência, enquanto seus olhos brilhavam.
  Ele omitiu, apenas olhou para baixo , e arqueou-se mais do que o normal. Ela soltou o taco ao chão,o monstro assustou-se com o barulho seco. Em sua direção, deu-lhe um abraço. Incrível, a pele do monstro, ao contrario do que se pensava, não era escamosa e fria; Era tão macia e quente quanto à de um ser humano. Na certa, além da pele, aquele ser deveria ter sentimentos iguais a de um;
  -Você é diferente, mas é igual a mim. E só porque não é tão parecido com que sou por fora, talvez seja parecido como sou por dentro. E às vezes eu fico triste, e você, também. Às vezes fico alegre, e você também deve ficar. Do que você gosta?
   - Não tenho do que gostar. Só tenho que vagar por ai, pela meia noite, e desaparecer pelo amanhecer. Não há nada que eu faça, que consiga alegrar-me. Alías, nem sei mais o que é isso. Da ultima vez que fiquei, foi quando levantei meu primeiro vôo.
   -E você não gosta mais de voar?
   -Que graça tem? Faço a mesma coisa, toda noite, lua cheia, lua minguante.
   - Que graça tem? Eu queria saber voar, você deveria estar feliz por poder voar. Você só diz isso porque a rotina tomou conta. Mas não seria mais rotina se você voasse a vários lugares. Ei! E se eu voasse com você?
  - Confia em mim?
  - Eu abri meus olhos para você, agora quero que abra meus olhos, mostrando como é voar.
  Sem delongas, montou sobre suas costas, e pela sacada levantou vôo. Voava feito uma harpia, voava mais alto do que seu prédio. Indescritível era a sensação de ter sob seu pés a cidade, ver as luzes, pontos iluminados lá em baixo, pontos iluminados pelo céu, as estrelas estavam muito próximas. O vento, o friozinho aconchegante, na pele e na barriga. O ser asqueroso tornava-se belo mediante a sua capacidade de mostrar a ela, o mundo como era, mesmo que pela noite. Ela sentia quase tocar aquela meia lua no céu.
  Voltando ao apartamento, em pouso tão galante quanto a de uma garça sobre um rio, pela sacada, entrou na sala. A menina desce de suas costas maravilhada, agradecendo ao monstro, que nem era monstro, mas também, não era humano, pois era mais que isso; Ele podia ter garras, mas não as usava contra alguém, um humano com armas em mãos, as letais ou verbais, não hesitam em machucar o próximo; ele não. Mais que isso, usava suas asas para o bem, para mostrar a noite à garotinha.
   Contudo, ela arrumou todos os vestígios deixados; Lavou a panela, arrumou o quarto de seus pais, fechou a porta da sacada. Fora dormir então, despedindo-se de seu amigo.
   Manhã seguinte, A menina acorda de um sono pesado. Pensara então, que louco sonho tivera. “Um monstro em minha casa? Só mesmo minha imaginação.” Ficou decepcionada, ela realmente queria que tudo aquilo fosse verdade. Foi então até a cozinha para receber os sermões de sua mãe, já que até os vestígios encobertos faziam parte do sonho.
   -Minha filha, você saiu na sacada ontem? Você deixou a porta dela aberta!
  - É mãe...
  - O que eu disse a respeito de sair na sacada? Assim você me deixa preocupadíssima! E o medo que eu tenho de você se sentar lá e cair? Bom pelo menos você não mexeu no fogão nem bagunçou os quartos. Você dormiu na hora certa.
   - Sim.
   Parou, então raciocinou. Se ela não encontrou a panela, nem seu quarto desarrumado, é porque parte do sonho era real. Então pensou, se a porta da sacada era o único vestígio deixado, provavelmente era o monstro que se esquecera de fechar ao sair.
   Não se sabe se era alucinação, se tudo era coisa da cabeça da menina, se tivera um ataque sonâmbulo, e arrumara as pistas. Mas ela para ela, tudo aquilo era real, e que nenhuma explicação lógica interviesse.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O Ontem

  ...E o que faço aqui?
   E essa cena muda , esse quarto não tão grande, um pouco escuro, essa cama vazia. Somente eu e as lembranças da noite passada. A persiana fechada que não deixa a luz entrar, mas mesmo assim, ela tenta adentrar pelas laterais. As sombras na parede, o cabineiro ao lado que lembra gente, com um chapéu no topo e tralhas penduradas nos três braços. Pego deste o meu hobby negro, amarro apertado à cintura o cordão.De pé, com movimentos quase robóticos, visualizo o cômodo. Aqueles tons cinzas, o cobertor emaranhado, parte esparramada ao chão, parte sobre o colchão, as marcas afundadas, deixadas sobre os dois travesseiros de pena de ganso.
  Suspiro então. Vou até a janela que fica na parede acima da cabeceira da cama. Ajoelho-me sobre esta, Puxo as laminas horizontais da persiana. As cores vertiginosas me cegam, imediatamente fecho os olhos. E quer saber? Não quero saber o que há lá fora. A casa solitária agora, parecia dormir, mesmo com dia, a manhã dispersa. Todas as janelas fechadas em suas partes foscas, e sempre com aquele brilho irritante vazado pelas bordas e frestas. Fui para cozinha. Esta, as janelas são apenas de vidros, não há parte fosca para me esconder. Tendo impedir a entrada do sol, mesmo que ainda frio, com as cortinas vazadas. Por hora, fora um alívio.
   Fui à dispensa, peguei o pacote com pó de café, que estava quase em seu fim, assim como minha outrora alegria de um simples respirar. Se bem que esta já havia se acabado há muito, muito tempo. Fervia a água, arrumei o coador, coloquei aquele pó escuro, castanho escuro. Olhava ele, lembrava-me a terra por onde coloquei meus pés noite passada. Aquela rua barrenta, aquela rua sem sinal de alma alguma em pleno azul marinho do céu soturno. Aquela rua mal calçada, donde meus pés afundavam no barro úmido... “Esqueça! Por favor, tire esse filme da cabeça, troque a fita! Calma. Concentre-se na água fervendo.”
   Acrescentei açúcar, e acho que passava do ponto. Pronto, o café estava servido. Enchi a xícara, o ecoar do liquido parecia estridente. Normalmente eu me encantaria pelo aroma, aquele cheiro quente, o doce amargo do café. Mas nada eu sentia, o café perdera o odor por completo. E o sabor? Nunca tão amargo. E tenho certeza, adocei ele até demais, mas mesmo assim, amargo.
   O Deixei de lado. Apoiei os cotovelos sobre a mesa, minha cabeça sobre as mãos. Olhei para o relógio rústico na parede, herança de família, tinha ponteiros cheios de bordados e rococó, minuciosamente trabalhado.Os algarismos eram em romano e o fundo bege envelhecido. Fiquei hipnotizada, não pelos ponteiros, mas pelo ‘tic-tac’ de intervalos perfeitos. Lembrara então da noite, da terra molhada, da minha bota enlameada. Da rua, então da casa. Lembrei do frio intenso feito agulhas fincando na pele. ”Pare, eu ordeno que pare! Não pense mais, não relembre daquilo que quase se esqueceu, deixe que se esqueça.” Levantei imediatamente, bruscamente arrastei a cadeira que arranhou o piso.
   Fui para sala. A princípio sentei no sofá, cruzei as pernas, descruzei. Deitei. De lado, depois de bruços, logo mais de barriga para o teto. Estava inquieta. Novamente sentei, corcunda, com minha cabeça sobre minha mão em punho. Olho para frente, para aqueles objetos invadidos pelas penumbras. Recordo então da noite, do céu, o barro, a bota encardida, o frio. O portão, talvez de grade verde, não sei. “E por que quer se lembrar tanto daquilo que já se perdeu? Fora ontem, esqueça. Você sabe que isso não lhe acrescentará nada no final, exceto um pouco a mais de tristeza.” Fui à gaveta, peguei os maços e isqueiro. Acendi o cigarro, deixei que a fumaça se acumulasse a minha volta, como se eu quisesse sufocar-me em meio dela. Quem saiba no fundo, minha intenção fosse essa.
   E quando em meios as nuvens cinzas e finas, repente vejo uma face. É imediato, como se a força gravitacional estivesse nas paredes brancas, dou passos rápidos para trás, me debato contra ela, em seguida encontro-me ao chão. Vejo tudo então: A noite, a lama, sinto o frio, enxergo o portão ...Vejo o portão se abrir, vejo ele. O cabelo, aquele cabelo. “Pare,não chegue a conclusão de tudo isso, você sabe qual é”. Levanto, apago o cigarro no acumulado cinzeiro, dirijo-me então para o quarto.
   Querendo me desfazer por inteira, derreter em lágrimas, sufocada, com vontade súbita de gritar, seguro todo e qualquer impulso. Jogo-me na cama. Aperto o travesseiro, como se toda culpa fosse dele. Sinto algo roçar em meu braço. Um longo fio e é de cabelo. Inevitável, impossível impedir as lembranças vindo à tona, por mais que eu remasse contra a maré daquilo que não queria recordar.
    A escuridão, o vazio da rua, a bota, minha pele congelando junto ao vento, o portão verde talvez, o abrir deste, ele. O cabelo, o cabelo dele, o fio em minha mão. Um fio longo, ondulado, quando agarrado aos maços, macio. Eu pude sentir ontem quando agarrava com vontade sua nuca e ela a minha. Mas antes, as formalidades. Ele me disse ola, eu correspondi seu comprimento e logo mais seu convite para entrar. Ele colocou whisky no copo, virei um, três, nem sei quantos copos. Eu disse que não estava bem, e queria voltar para casa. Eu sai, por ai fui perambulando, e atrás de mim, ele e seu carro. Ofereceu-me carona, me deixou na porta de casa. Disse que queria ficar sozinha, mas ele disse que não. Eu Pedi para que me deixa-se a só, mas ele se opôs. Ele disse que nunca mais poderia me encontrar, ele estava de passagem pela cidade, e quando amanhecesse ele iria à rodoviária, para nunca mais voltar. Disse mais, falou que gostara desse meu jeito, até dos meu terríveis defeitos. Do meu desprendimento, desse meu jeito “nem ai”. Gostava das minhas mãos de esmalte descascado, das pontas duplas do meu cabelo , da maquiagem de olhos marcados.Lisonjeada, Sem o que dizer, disse apenas que gostava muito do seu cabelo. Descontrolada, chego então do ponto em que falei que agarrava com força o seu cabelo e ele o meu. É, então começa aquela velha historia, iniciam-se beijos em frente a porta, e a noite termina na cama. Oh céus! Que noite fora aquela...
   Normal seria estar feliz. Mas não, eu não sei ser fácil e me contentar com pouco. E agora, aqui, deitada nessa cama vazia e desarrumada, descubro que não sou tão desprendida como pensasse que fosse, e acho que não sou tão “nem ai”. Acho que me apaixonei, e por isso agora estou triste. Eu não precisava lembrar que uma das minhas melhores noites se foi.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Trêm das onze e meia

  É, não tinha como, aquele trabalho não fora feito para aquele homem. Ainda com um estridente sorriso postiço feito pela tinta assim como as sobrancelhas arqueadas traçadas pelo pincel sobre a base branca que recobria todo rosto, além da esfera vermelha cintilante pregada em seu nariz, aquele homem triste esperava o trem noturno, o trem das onze e meia. Ainda nem trocara seu traje Bonfante e seus sapatos exagerados, tamanho 48. A roupa, tão encantadora em suas cores, em seu tecido brilhoso de cetim, tantos babados, tão bem feita, perfeita. Mas não é a roupa que faz o bom palhaço; É o sorriso. Quando havia dito que era um homem triste, não disse que era uma coisa momentânea. Sua tristeza estava sempre a acompanhá-lo, estampada nos cantos decíduos de sua boca e naquele olhar morteiro. Por mais que a maquiagem tentasse esconder os vestígios de seu descontentamento, os vértices de seus lábios não negavam. E por vezes se via, um risco a baixo de seu olho direito, um borrado da tinta; na certa era uma lágrima que escapara, e com dedo indicador, escondera a gota.
   E naquela noite, na deserta estação, sentado no banco de madeira, ele esperava pela Maria fumaça. Havia sido despedido naquela tarde e voltar para terra natal era seu objetivo. No circo, com muito custo, ele trabalhou por dois meses. Nem sabia como aturaram um palhaço com tamanha incapacidade de sorrir, por tanto tempo. Acredite, ele tentava. Com as pontas dos dedos repuxava as maças do rosto, nada. E ninguém sabia o que havia de errado com o palhaço que não conseguia sorrir. Chegaram a pensar que fosse alguma desfiguração em seu rosto, algum nervo distendido, ou até mesmo conseqüências de algum acidente, de uma operação mal sucedida. Mas o motivo era simples: ele não sabia sorrir. Apenas isso, o não saber. Há pessoas que não sabem andar de bicicleta, outras que não conseguem resolver contas algébricas, há as que não conseguem piscar um olho de cada vez, e ainda os que não sabem rodar estrela. Pois então, aquele homem não sabia sorrir.
   Talvez não achasse motivos. Mas provavelmente era culpa da sua tristeza, às vezes, sem fundamento. Mas o que mais se vê por ai são sorrisos postiços, iguais as dos palhaços, feitos por um arco de tinta preta nos cantos da boca até a bochecha. Aqueles sorrisos que escondem faces deprimidas, que tentam alegrar o dia de ao menos quem o vê. Aqueles sorrisos, daquelas pessoas que acham que com seu problema, os outros não têm nada a ver, por isso, sorriem. Aquele homem queria ter tal dom. Mas não. Ele na certa, era um homem sincero em suas feições.
  Entediado, pegou no bolso de seu macacão, uma gaita. Tocou uma canção, daquelas que se faz do coração um mosaico. Até o canto da cigarra e o coaxar do sapo estremeceram. Tocava, era o que melhor fazia. Tocava a gaita, companheira fiel dos tímidos músicos, aquele homem tinha esse dom. Dominava ela e suas notas, percorria o som, a rua escura com uma lâmpada queimada de um poste. Minutos se passam enquanto se distraia, eis que escuta um choro. Era uma birra, era uma criança. Imediatamente parou de tocar. Ele via a pequenina, que batia pouco acima dos joelhos, se aproximar. Esfregava os olhos com a mão fechada, devagar ela vinha. Quanto mais perto, mais brilhoso tornava-se seu rosto molhado.
   Choro de criança, aquele choro barulhento, de quem ainda não sabe como esconder sua fraqueza. Um choro tão sincero quanto à feição daquele homem. Ela parou em frente a ele, parou de berrar, mas continuava desaguar e puxar o ar pelo nariz entupido. Olhava para ele, para cima, ao seu rosto, ela nada dizia. Aquele homem podia não sorrir, mas seu coração maior que qualquer sorriso. Era um coração de  cubo de gelo; Sim, de gelo. Derretia-se fácil, comovia-se com pouco. Ajoelhou-se, olhou bem a garotinha, com as luvas enxugou as lágrimas. Perguntou:
   - O que aconteceu, pequena garotinha?
  - Mamãe e papai – Falava enrolado , aos soluços – Não sei onde esta.
  - Onde você mora, minha pequenina? Se você me guiar, eu posso te ajudar.
  Ela acenou com a cabeça, respondeu “Rua do Ipê”. Ele pensou, pensou. Logo lembrara, tal rua ficava antes donde fizera seu ultimo show. Era um pouco longe dali, mas nada que não pudessem percorrer.
  Pelas ruas e avenidas, tão desertas, tal cena não parecia existir. Uma criança, uma menina de vestido balone, ao lado de um grande palhaço, todo colorido. Apenas duas boas almas que invadiam, preenchiam as calçadas. Ela saltitante, estava tão feliz, sabia que encontrara um amigo que a levasse para casa. Ele, ainda com as feições congeladas, a acompanhava com seus passos sérios, sempre em frente. Ela cantarolava, ele calado. Formavam uma imperfeita dupla perfeita. Aquilo tudo parecia até coisa de livro infantil.
   Finalmente em casa. Correndo, ela abriu o portão, passou pelo quintal, subiu os dois lances do coreto, tentou abrir a porta. Trancada. Em quanto isso, o palhaço ainda para fora do portão, a observava. Ela bateu na porta. Bateu, bateu. Seu pai abriu, aliviado, a agarrou sob as axilas e a levantou para cima, Sorriu, quase chorou de tamanha preocupação. A mãe soltara ao chão o telefone, espatifou-se, e ficou no vai vem do cordão de mola. Imediatamente, em um abraço fora ao encontro da filha. O três se abraçaram, os três juntos sorriam, lacrimavam.
  - Minha filha, minha amada filinha!Nunca mais deixe eu e mamãe preocupados! Não saberíamos o que faríamos sem você, nós te amamos muito minha filha!
  - O palhaço- disse ela.
   -O que foi?
   - O palhaço – apontou o dedo para trás dos ombros. – O palhaço me trouxe aqui.
  - Que palhaço filhota? Não há ninguém lá fora.
  É, o palhaço havia sumiudo. Pelas ruas se escutava uma gaita, mas ninguém por lá. Do nada, desapareceu.
  Alguns especulam que naquela noite, o homem palhaço pela primeira vez sorriu. Mas outros dizem que não, que por mais que ele estivesse alegre por colocar um sorriso no rosto de uma criança, ele nunca sorriria, pois nem todas as crianças ele podia fazer sorrir. Talvez fosse esse, o fundo de seu descontentamento. Ninguém mais o viu, apenas se escutava, por vezes o som de sua gaita, nas ruas, lá pelas onze meia, quando o trêm passa.

domingo, 1 de agosto de 2010

Em quanto isso na prisão domiciliar (2)

Hoje estava certa de que escreveria um conto, eu já tinha até a idéia na cabeça. Mas durante minha caminhada ocorreu um desvio de rota, o qual eu não posso deixar de escrever a respeito. Afinal de contas, minha vida tambem é um conto
  Fora quase como uma epifania. Mas acho que não chegara tanto, epifanias ocorrem do céu, despencando para o fundo do poço, por vezes, conhecido por mim. Mas eu tenho certeza: fora nostalgia. Hoje Descobri o que é nostalgia, quando decidi mudar a rota convencional da caminhada, ao entrar pelo portão de saída da minha antiga escola, o portão dos fundos. Ele mantém sua cor original, vermelho ferrugem, a tintura descascada.

  Fui então ao gramado. Estava tão verde quanto antigamente, quando nele feito corcel corria, acreditava eu, de fato ser um, selvagem e solitário. Descubro então, parte da nostalgia é ver o que se acreditava quando criança, ser. Ando por aquele mato, devagar troco os passos, não me preocupo mais em correr. Observo então, como tudo era tão, tão grande. Mesmo sem ajoelhar, de repente posso enxergar tudo da altura que eu via. As coisas eram tão distantes das minhas mãos, tornando-as emocionantes e especiais. Minha pequenez, as pernas curtas, fazia do meu mundo, maior. O gramado era extenso, eu poderia perder-me por lá. Olho para cima ,o mesmo céu , o mesmo sol de fim de tarde com nuvens ralas, um branco quase absorvido pelo azul. As árvores, as velhas árvores... Tantas.
   Mas recordo-me de uma especial. Não pense que era especial pela beleza ou pelos frutos,não. Ela não tinha flores, o que ela tinha eram poucas, ralas folhas. O que a tornava especial era sua forma,o tronco turvo, pouco acima do chão, mas o suficiente para ser alta a uma criança do primário. Nela, todo dia eu subia, ficava lá, sentada. Era minha maior diversão, ficar a sós, só eu e ela. Por perto, tantas outras árvores, mas só nela podia se subir com pouca técnica. Recordo de um dia, na verdade uma noite, que por lá fiquei a esperar alguém me buscar. De costume era minha mãe, mas fora meu irmão. Ele não sabia que eu ficava por lá, então custou a me encontrar. Até lá, o sereno caiu, a luz do sol fora trocada pela dos postes. Mas na arvore onde eu ficava não havia poste algum. Estava escuro, mas não tinha medo, eu tinha uma arvore sob mim. Por fim, encontrou-me e para casa voltamos. Pode-se dizer que nostalgia é uma árvore, uma árvore que é apenas mais uma,mas que para você é ‘a árvore’. A que você fica sobre, a que você fica sob a sombra, a que você sobe e às vezes cai. Acho que por isso tenho uma grande fixação por elas.
  Mas essa fora apenas uma pequena parte do meu retorno ao longínquo passado. Esse se passara pelo primário, quando dar importância, não era importante. Quando tudo era o que era, e não era, já que nos olhos de criança tudo ganha um “há” a mais. Foram bons anos, quando ligar para problemas era besteira, e estar sozinho não era sinônimo de fracasso social, era estar satisfeito a própria companhia e imaginação.
  Quem disse que nostalgia é, necessariamente, coisas que se passaram anos e anos atrás? Pois quando se há grandes mudanças, o ontem pode tornar-se uma nostalgia. Voltando ao presente, lá estava eu e minhas  pernas compridas, trocando os passos sobre o gramado. Olhei para a construção da escola. Não tem nada do passado, mas isso não impede que eu veja o que até meses atrás, nas provas finais antes das férias de verão, tinha outras cores. O azul anil das paredes eram beges, mas o passeio e escadas continuam vermelhos, com o mesmo tipo de piso. Ando sobre este observo bem, o mesmo lugar onde toda minha vida eu pisei. Vou então até o portãozinho de entrada, uma espécie de grande corredor antes de chegar, de fato, dentro do colégio. As paredes deste eram azul escuro, e agora são verde escuro. E vejo a porta aberta, a porta para a entrada do pátio. Pensei em entrar, mas como nunca dou a cara a tapa, fiquei por lá, com medo de ser vista por alguém que me reconhecesse. Dessa porta, eu visei além do pátio, as redes de vôlei, as linhas azul-marinho que demarcavam os limites destas e, sobretudo, o corredores altos onde ficam as salas. Por dentro, pelo pouco que vi, nada mudou.
   Observei, aquilo tudo, tudo me fazia pensar. Tudo aquilo durante anos e anos, para ser mais exata, oito anos da minha vida eu passei por lá. Eu poderia dizer que nada, absolutamente nada daquilo me valeu. Eu. Por lá, eu era um ninguém. Eu sempre fora só mais uma, eu era a estranha, esquisita, excluída. A ridícula, impopular. Tive tantas farpas, algumas que hoje não consegui tirar, elas entraram em meus dedos e ficaram em meu corpo, atingiram, fincarm minha alma. Sai de lá, após tanta insistência. Sai de lá, sem amigos, sem deixar marca. Na certa, não faço a mínima falta. Mas por incrível que pareça, sinto uma certa falta daquele lugar, uma saudade. Sim, isso pode parecer estranho, tenho saudade sim, mas não significa que eu queira voltar para lá, de modo algum.
  Mas foram todas as farpas e estacas cravadas que fazem de mim quem eu sou. A nostalgia mostra quem você foi e agora o porquê você é. Tudo, tudo que é vivido é válido, principalmente os infortúnios e tristezas. Às vezes estes valem mais que uma alegria, afinal, você aprende mais e se torna mais. Em excesso, podem fazer você tornar-se um vilão, ou quem não souber lidar com isso, um reprimido, e ainda quem souber se abstrair disso, um pensador.
  Voltei para casa, sempre olhando aquele que um dia fora bege, que um dia, lá pertenci, mas que nunca me encontrei, e que meus desencontros e infelicidades, com outrora, algumas pontas de alegria, tornei-me quem hoje sou. Mas sei, amanhã fará do hoje, nostalgia.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Margô

   Ele abriu o portão da garagem, ela tirou o carro. Ele trancou o portão, entre as grades me deu as chaves. Entrou no veiculo e lá se foram. Fiquei a só em casa, enquanto meus pais foram ao supermercado para fazer a compra mensal. Ainda em frente ao portão, eu olhava para a casa fronte a minha. Quer dizer, não olhava a observar, estava apenas pensando com meus botões olhando rente a ela. É essa coisa, essa de quando mergulhamos em nossos pensamentos e excluímos tudo em nossa volta. Nem reparava meu dedo indicador rodando a argola da chave, ou o velhinho que passava vagaroso pelo passeio. Estava parada, eu parecia uma sentinela, que não vigiava a casa, mas o que se passava em minha mente. Não sei por quanto tempo fiquei nesse estado, talvez mais de uma Hora. Mas sempre que me perco em minha mente, viajo por horas, sendo que na realidade não se passara nem se quer cinco minutos.
   Acordei então, e me deparei com o mundo. Droga! Odeio acordar de sonhos acesos. É terrível uma hora estar onde eu bem queria e no outro, estar onde estou. E como estou. Olhar em volta, ver a vida imutável aqui dentro. Olhar para fora das grades do portão e assistir a vida correndo, e eu aqui, pateta, parada.
  E lá no final da esquina notava um grupo de adolescentes babacas, com suas roupinhas da moda, cheios de não me toque, e aquele jeitinho “I’wanna be cool”. Lá estão eles, com suas músicas insuportáveis que ouviram ontem nas rádios, com os óculos do momento e suas conversas vazias, seus assuntos cordiais. Lá estão eles, eles e suas gírias, seu português deturpado. Fazendo gestos que aprenderam na TV, aprendendo a ser clones  mesmo quando enchem a boca a dizer “sou diferente”. Lá estão eles, no final da rua, sendo uns idiotas,Sendo... Felizes. Fiquei grudada a grade, olhando seus comportamentos, cada movimento, a expressão, o que diziam, como falavam. Tão entusiasmados, tanta energia, quantos sorrisos e risadas. Tantas amizades. Bom, se tudo aquilo é sincero, não sei. Parece que sim. E me parece que sou eu que tenho algum problema. Talvez eles não estejam errados em serem... Serem apenas adolescentes.
  E não me entendo, devo ter algum defeito, algo que afaste as pessoas. Quem saiba possa ser minha personalidade forte, que nem é tão forte assim, afinal, eu sei sim, ser maleável, me dêem um assunto, eu sei conversar. Talvez seja minha timidez , mas... Eu já vi pessoa muito, muito retraídas, que mesmo assim, tem amizades e são felizes. Bom, não pode ser o fato de eu ser, ou ao menos, me achar feia, assim, decadente, que malmente penteia o cabelo ou trata das espinhas e briga com a balança, não acho que as pessoas excluiriam alguém perante futilidades, quer dizer, não todas.Eu realmente não entendo, o que há de errado comigo? Será que não concordam com meu estilo de vida? Do que penso a respeito dela ?É, acho que meu problema, é ser um problema. Unir tantos defeitos em uma única pessoa.
  Ficar ali, olhando o mundo rodando em seu eixo normal, na direção certa, enquanto eu pegava a contramão, estava me matando. Resolvi então ir para os fundos da casa. Fechei os olhos para aquilo que me corroia, na espera de que sumisse, feito uma criança que pensa que ao fechar os olhos com as mãos a fará  desaparecer do alcance de quem a procura em um jogo de pique - esconde.
  No fundo da minha casa, um quintal quadrado, de cimento e gramado. Não muito grande, nem muito pequeno, um bom tamanho. E lá, lá na casinhola esta meu amiginho de quatro patas. Não, não é um cachorro, não é um gato, também não é um coelho. É uma ratazana. Isso mesmo, com todas as letras, e silabas, com todas suas quatro patas e bigode. Não, não é um porquinho da índia, nem um hamster. É uma ratazana. Ele se chama Margô. O Margô. Fazia um bom tempo em que ele fazia parte da família, pelo menos da minha. Meus pais nunca gostaram da idéia, mas quando vi aquela, aquela coisinha tão, tão pequenina passando por baixo do portão! Menor que a palma da minha mão. Uma bolinha preta do rabinho franzino, com olhinhos pretos que mais pareciam uma prefeita micro miniatura de uma jabuticaba... E aquele focinho rosado? Não tinha como, ele tinha que ser meu. Fora difícil convencer minha mãe, foram horas e horas de uma incessante discussão cheia de excelentes argumentos. O mais convincente e original: “Por favor, por favor, por favor! eu limpo a sujeira que ele fizer!” Por fim, consegui o que queria através de uma chata sucessão de repetições. Margô hoje é um bichano, um ratão. Mas ainda o acho tão fofinho quanto aquela coisinha que chegara a minha casa no primeiro dia.
  Fui até sua casinhola, abri a porteira e o peguei em meu colo. Sentei na cadeira de dois lugares de madeira do quintal. Nisso comecei a acariciar seu pescoço, atrás de sua orelha fina. Olhava o sol batendo no alto muro de casa. Visando o silêncio, ninguém por perto, resolvi então começar minha conversa com Margô.
  “Sabe Margô, estive pensando. Aliás, o que mais faço é pensar... Estou pensando a respeito da minha vida. Margô,olha para mim. Você gosta de mim? Eu gosto muito de você. Será que estou errada em gostar mais de uma ratazana de que alguma pessoa? Não sei não Margô. Acho que sou estranha, estranha de mais. Mas o que eu posso fazer? Sou eu. A menina esquisita que se senta no quintal enquanto seus pais estão ausentes, para conversar com um roedor. Talvez eu não devesse estar aqui, eu deveria estar saindo, indo para, sei lá, para o clube nadar e aproveitar esse dia lindo. Mas que droga! Eu não gosto de nadar. E nem acho que dias de sol são dias bonitos. Eu gosto de dias nublado. Qual o problema nisso? Ah Margô! Você sabe que eu prefiro me trancar no quarto e escutar Judas Priest. Mas se eu ficar trancafiada no quarto, eu perco tudo que há lá fora. Dizem que eu perco muitas coisas da vida. Será que estou perdendo alguma coisa importante? Talvez não esteja perdendo coisas, talvez eu esteja perdendo a própria vida...” Por um instante paro, olho ao redor,olho para casinhola e olho bem para Margô. Continuo.
  “Às vezes acho que deixo você trancafiado tempo de mais na casinhola. Isso não é nada bom. Isso é péssimo. Hey Margô, me diga, é muito ruim ficar lá? Você mora lá desde que apareceu por aqui. E eu me lembro, seus dentes eram muito, muito pequenos. Você tinha que comer a ração tão triturada, que parecia até que você comia areia. Acho que você se perdeu da sua família, quando ainda deveria estar tomando leite. Pois então, desde que você veio, você mora naquela casinhola. Faz-me lembrar do que dizem a respeito dos pássaros. Dizem que um passarinho, quando trancafiado em um gaiola no ápice de sua vida, ele morre de tristeza, morre porque perdeu sua liberdade. E dizem que quando o passarinho nasce na gaiola e é solto, em liberdade ele morre, porque se adaptou tanto a prisão que não sabe mais viver sem ela. Eu tenho medo, tenho muito medo de ser um passarinho de gaiola. Não, não quero dizer que meu quarto seja uma gaiola e eu o passarinho que não sabe viver fora dela. Quero dizer que minhas limitações me impedem de ser livre, e que estou acostumada demais com elas, e com isso vou me conformando.E será que seu eu te libertasse, você morreria Margô? Eu prefiro nem arriscar. Até porque eu gosto muito de você, e não sei ficar longe de você. Mas... Você se sentiria mais feliz em liberdade? Vagando por ai, passeando pelos esgotos, andando sobre telhados, explorando os sótãos, correndo riscos, fugindo de gatos. Você prefere ficar aqui comigo, não é? Não diga que não. Eu sei que não... Meu deus! Que diabos estou fazendo? Estou contando meus problemas a uma ratazana!” Coloquei Margô no chão indelicadamente, apoiei meus cotovelos sobre os joelhos e apoiei minha cabeça sobre as mãos. Como tudo aquilo era patético, como sou uma pateta! Era tudo tão ilógico! Conversar com um rato? Não, eu devo mesmo é ter esquizofrenia. Ratos são só bichos, bichos não pensam, bichos não falam, não perguntam ou respondem. Bichos não se comovem com o que você sente, não é culpa deles. É que bichos não raciocinam, bichos são bichos.
  Margô começou então a irritar-me ,tentando e arranhando-me, a subir pela minha perna. Dei-lhe um pontapé. Não, não. Não foi um pontapé forte, mas o suficiente para perceber que estava com raiva, raiva de mim, uma raiva que descontei nele. Ele deslizou um pouco com meu pontapé.
  Fui então para meu quarto, pelos cômodos fui deixando as portas abertas. Estava sem paciência para as maçanetas; Coloquei Motorhead para tocar. Deitei em minha cama, sem vontade de nada. Evitei falar sozinha, concentrava-me no som. Mas não consegui desconcentrar-me dos meus pensamentos. Nessas horas só lembrava os meus defeitos, eu me via em um espelho, eu olhava então refletido, uma inimiga. Sou eu minha maior inimiga. Nessas horas só queria um amigo.
  Deitada de lado ,olhando para porta, vejo então Margô. Margô nunca entrara em casa por regras impostas pelos meus pais. E quando eu vim para meu quarto, ele não me seguira, provavelmente chegou até aqui pela música. Sentei então, fiquei olhando para ele, que de pé sentia o cheiro ambiente com seu focinho incessante. Margô fora até meu encontro e novamente começou a arranhar minha perna na tentativa frustrada de subir por estas.
  “ Margô! Realmente não consigo acreditar, mesmo após um pontapé você voltou para mim!” Peguei ele em meu colo “ porquê mesmo depois de um pontapé você volta a mim? Eu não mereço.Desculpe minha grosseria, eu sempre espanto os outros com ela. Só que os outro não são irracionais como você, por isso que os racionais se afastam de mim. As pessoas tem rancor porque pensam, você não pensa. Por isso você não liga pelo mal que lhe fiz. Se você pensasse você se vingaria ou então desprezar-me-ia...Rancor. Vingança. Desprezo. É Margô, pelo visto o mal é mais racional que o bem. Mas que droga de realidade é essa? Eu não posso crer nessa conclusão, não! Até porque o mal não existe, é só a ausência do bem, já dizia Einstein. Rancor, vingança e desprezo, tem tanta falta do bem quanto o agressor que fez por merecer. Você Margô, você tem o bem dentro de você. Esqueça minha estúpida conclusão, não só a de que o bem é irracional, esqueça quando eu disse que ratos são só bichos, que bichos não pensam. De fato bichos não falam, não perguntam ou respondem. Mas o bichos se comovem sim com o que você sente. Esta ai, você, a prova disso. As vezes, ou quase sempre, as pessoas são estúpidas. Elas lhe ignoram, te julgam, jogam-te fora, descartam feito coisa em desuso. Você não. Você entendeu, te chutei e não foi por mal, foi porque não me sentia bem.”
  Mesmo sabendo que Ratazanas não são lá apreciadoras de abraços, dei-lhe um, pois não suportava a falta destes, os que nunca recebo das pessoas. Senti-me melhor, pois em seu abraço de rato tinha o bem. Na ausência de palavras, aquele animalzinho me disse muito, sem uma fala, ele me consolava. Era tudo que precisava.
   Mais tarde, quando ouço meus pais entrarem, corro para o quintal e coloco Margô em sua casinhola. De todas as coisas que me tiram a liberdade, a que mais me afetava era meu afeto, o meu apego por Margô. Resolvi deixá-lo solto, para que encontrasse alguma fresta ou buraco pelo quintal, eu não podia mais ficar dependendo dele, isso me limitava, enfraquecia. E acima de tudo, era desconfortável vê-lo em um quadrado de ferro, um cubículo, sua casinhola. Havia infinitas possibilidades de fuga.
   Dia seguinte, acordo, vou para o quintal. Ele se foi. É, acho que ele não sentia-se bem quando preso. Tudo bem, se era o que queria, que fosse assim então. Eu sentia um vazio, confesso, fiquei desconsolada, mas devia aceitar o fato que ratazanas têm um instinto selvagem, ao contrario dos hamsters. Sentei no banco de dois lugares do quintal, fiquei olhando para o muro, quer dizer, não olhava a observar, estava apenas pensando com meus botões olhando rente a ele. Mergulhei tanto em meus pensamentos, que cansada de tanto pensar, acomodei me a cadeira de tal modo que dormi. Passaram-se uma hora e pouco. Sinto algo arranhar o braço que ficara pendurado para fora da cadeira. Sim! É ele! No fundo eu sabia, Margô está tão preso a mim, quanto eu a ele. Margô não tem instinto, ele pensa. Ele sente. Um Rato que é mais humano que muita gente.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A prisão Domiciliar

Chame como quiser. Conto, desabafo, crônica, tanto faz. Em fim, é um texto diferente do que eu costumo postar.E toda vez que eu sentir a necessidade de postar algo do mesmo gênero, vou chama-lo de " A prisão domidciliar". É sobre... Bom, leia você mesmo.

   E essa sensação... Não sei bem como defini-la, não sei. Sabe aqueles dias que parecem um filme em preto e branco e você é o coadjuvante da própria vida? Pois então. Hoje nada condizia com nada, pouco importava por onde eu passasse, quais ruas e avenidas eu botasse meu pés. Não importava o que as pessoas diziam, suas falas embaralhadas em meio a multidão. E não importava o que demonstravam ou faziam . Podiam sorrir ou chorar,com as mãos esconder o choro ou exibir o sorriso. As crianças poderiam brincar, gritar, farrear, as crianças podiam ser crianças. Nada, nada condizia para mim. O choro não me comovia, a piada não me trazia gargalhadas. O bucolismo, o que me encanta, o vício dos meus escritos... Não conseguira encantar minha visão, já que hoje o verde era uma variação de cinza claro. Nem o ipê amarelo, cheio de personalidade entre as arvores iguais me dizia algo. É, hoje é um daqueles dias em que você tem a estranha sensação de não sentir. Você no máximo sente uma espécie de inveja daqueles que sentem. Você esquece de tudo, de todos, daqueles, dos outros. Você esquece de odiar o traidor, de amar aquilo que lhe move o pulso, você esquece chorar por uma mágoa, de alegrar-se por um mero prazer. Tudo porque você simplesmente não sente.
  É uma espécie de ceticismo , como se não acreditasse em nada mais que seus olhos contemplassem, ou na melodia que seus ouvidos escutassem, ou até mesmo nas palavras que sua boca pronuncia.
  A vontade é de entrar no quarto, deitar-se e não dormir. A vontade de deitar-se, olhar para o teto e esperar que algo lhe sacuda, que o faça despertar, que lhe diga: “ Não sei se você sabe, mas você esta viva!” E não, não precisa ser alguém, pois eu disse algo. Algo me faça enxergar, mas enxergar aquilo que ninguém vê. Aquilo que só eu vejo... Falta-me aquela essência, aquela que faz da simplicidade o exuberante. Que faz de uma margarida um perfume, as nuvens um quadro abstrato, que faz de um momento alheio, uma historia. Talvez essa essência chame-se inspiração. Talvez seja a inspiração a base do meu mundo. Talvez até a de todo mundo. Você não precisa ser escritor, não precisa ser poeta, músico ou pintor para compreender. Você não precisa escrever, empoetar, compor ou pintar.
  Inspiração nada mais é que sentir. Quando não a tenho, nada sinto. Não importa a música que tocar, a poesia que eu ler, meu mundo continuara apático. Diria que essa é uma das piores sensações, e ao mesmo tempo não é. Comparo-a melancolia com o não sentir, às vezes é pior. Não sentir parece um ópio da tristeza, que para não se por para baixo, fica em uma instabilidade terrível, onde nada diz a que veio. É um vazio.
  O que mais me corrói, é que nesses dias eu me perco. Eu não sei nem mais do que não gosto. Nesses dias tento desesperadamente me encontrar, tento de tudo, relembro o passado. Só encontro como resposta que não tenho um futuro. E não adianta olhar no espelho, o reflexo é invertido, portanto nunca será a imagem refletida, um fato. Você não sente mais pertencer a própria pele, você é um estranho dentro dela. E os pensamentos que rondam a sua mente quase vazia, você se pergunta onde foram parar. Não estão mais ali, se perderam.
  E o que mais incomoda: não tenho mais o que escrever. Estou vazia, as palavras escondidas. Se foram com a inspiração, com as sensações. E o que mais temo, é quando amanhecer nada disso passar, nenhuma das sensações voltarem. Mas se uma lagrima cair do meu rosto, terei uma alegria. Estou sentindo de novo. A vida ,ainda que devagar, corre pelas minha veias.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Coração de um inverno

   Fora em uma primavera que ele nascera. O clima era ameno, as arvores de exuberantes pétalas contrastavam com suas tantas folhas ao chão, que outrora caíra meses e meses atrás, durante outono, e que congelaram e se quebraram durante o inverno intenso do hemisfério norte. Os pássaros em vôo galante, formando um “V” no céu nítido, azul como o calmo lago da planície, voltavam do sul. Ele nasceu em nobre montanha, de um verde gramado, pedras cinzas e maciças. Montanha donde havia grutas, pequenas cavernas, trocos ocos e todo tipo de abrigos de pequenos animais. Mais que isso, assim que nascera ,ali na montanha, ele visou o mundo que estaria por vir, o mundo que o acolheria , os passos de suas patas que deixariam marcas pelo chão.
   Nasceu então, ele e mais uma prole, seus irmãos. Eram cinco ao total. Pequeninos, frágeis, tão vulneráveis, indefesos, assim como quaisquer outros filhotes de lobo. Pelagem felpuda, tão graciosos, de olhinhos amendoados, olhos curiosos, focinhos incessantes que queriam descobrir a essência de tudo, os perfumes das cores. Porem um destes destoava por demais dos outros. Não bastasse seus pelos em tom avermelhado, um tom de sangue, como se aquele sangue do ventre de sua mãe nunca houvesse absorvido, tinha também um comportamento estranho. Não era um lobo normal, definitivamente não. Passou-se então, Um ano e quatro meses, o suficiente para os filhotes tornarem-se jovens lobos.
   Em noites de lua cheia ele sempre, por motivos desconhecidos, uivava mais do que qualquer outro lobo da matilha. Era o uivar mais profundo que se ouvia, um uivar que tomava conta dos ventos das noites, e pela floresta das imensas sequóias percorria o som. E Ele não sabia bem como caçar. Por isso era um estorvo a matilha, quando não conseguia ajudar, atrapalhava. Não conseguia seu prumo, era um lobo sem rumo. Decidiu então o líder da matilha, expulsar aquele lobo. Todos tiveram o seu consentimento, sendo que há tempos ele era de certa forma, excluído por eles. E sua expulsão fora no final de outono, época em que as arvores despem de suas folhas e ficam seus galhos nus, apenas com suas extremidades pontiagudas, que mais pareciam arranhar céu, furar as nuvens escuras.
  Aquele dia, marcado ficou no coração do lobo dos pelos de sangue. Agora em seu coração, as artérias petrificou, seu olhar tornou-se mais sério, e de certa maneira, se fez um olhar sedento de um ódio . Desceu a montanha que antes ali visava seu futuro, uma vida inteira, e adentrou a densa floresta das sequóias. A principio sentia-se condenado, descontrolado, a passos inquietantes, rodeava as arvores que com suas copas extremamente altas fechavam o céu. Fatigado de tanto andar sem nenhum caminho para tomar, escutando o estalar do chão recoberto de folhas secas, entregou-se ao cansaço, e sobre uma pedra repousou. Uma pedra de perfeito formato para um descanso.Com sua respiração ofegante, dilatavam as costelas. Ele olhava sua volta, ninguém naquela floresta fechada, exceto as cigarras em seu canto estridente. Fora isso, apenas o barulho da brisa, as mesmas que embalavam seu uivar. Aquele dia sentira uma forte dor em seu dorso. Naquela noite ele uivou sem luar. Seu uivar nunca sofrera tanto, era um som agudo que se alastrava entre os troncos , atravessava a floresta sem que ninguém soubesse o motivo de seu sofrer. Um doer solitário. Solidão.
   Durante horas e horas da noite soturna ele ficava a lamentar, enquanto dois sentimentos dentro dele se debatiam: rancor e tristeza. Se bem que dentro dele também havia uma saudade imediata da matilha. Era difícil aceitar o fato de que os outros lobos ,dentro dele fazia a falta residir, abrindo um buraco, enquanto os mesmos perante a ele eram indiferentes. Ele não sabia fazer falta, ele não fazia falta. Nisso tudo, dele surgiu o ódio que já estava seu olhar, e que se apoderava agora do jovem lobo.
   Precisava então, parar de uivar para a lua que não enxergava, encontrar forças para sozinho, fazer o próprio caminho. No fundo já sabia seu destino. Ele foi à procura da lua, fugir das altas copas das arvores que tapavam sua visão. Ele foi para a planície, foi para o lago que era reflexo do céu assim que encontrou a saída daquela floresta sufocante. Agora sim, ele visava as estrelas e sobre tudo a lua... Era lua cheia. No céu reluzia aquele pequeno circulo, refletiram no olhar úmido do lobo. A lua entrou em seus olhos. E ele pode ver, agora era ele e sua sombra. Tudo dependeria apenas das próprias patas, de seus passos. Era hora de esquecer o passado, daquele lobo frágil. Era hora de tornar-se um lobo forte, nato caçador. Convicto, após encarar aquele circulo no céu, dera o ultimo uivar daquela noite. Dessa vez o som soava a valentia, a reconquista feito um nobre guerreiro. Sabia o que era agora: um lobo solitário. Voltou para Floresta e encontrou a mesma pedra donde dormiria.
   Manhã seguinte, os raios de luz entre os troncos e galhos entravam em vários fios. Acordou então o lobo do pelo sangue. Sentia muita fome. Era seu primeiro e decisivo teste: caçar. Se este ele realizasse com sucesso, o resto seria mero detalhe. Andava, evitava quebrar as folhas secas ao chão. Perto de um córrego avistou um filhote de servo bebendo inocentemente água. Por entre arbustos ele observava aquele ser indefeso, tão puro. Encontrava o que fazia dele um péssimo caçador: sentia dó de filhotes. Ele reconhecia que a seleção natural o fizera um caçador, um carnívoro. Mas filhotes são filhotes. Mas a fome era intensa, não hesitou: no primeiro vacilo do bichano, ele o abocanhou pelas costas e logo em seguida, sufocou-lhe o pescoço. Por perto, a mãe, deparou-se a cena com olhos brilhantes e dilatados. O lobo sentira uma certa culpa, mas não, agora ele era frio, ele deveria ser frio. Então se aproximou da mãe que afastou-se. Ele parou e ela fez o mesmo. Ela olhava para cadáver de seu pequeno e olhava o lobo imóvel a encarando no olhar que mais dizia:“ Saia, não veja tal cena. A menos que queira vê-lá se repetir”. Ela se foi entre os arbusto, sumiu. O lobo voltou a sua refeição, sua primeira, a que caçara por conta própria.
   Com o tempo, fora aprendendo a caçar todo tipo de presa, de lebres ao alces que com ele travavam batalhas, mas sobre tudo, aprendera a ter o sangue mais frio do que a neve prevista a cair em uma semana. Sim, Era inverno. Ele andava pela floresta que agora era seu lar, ele havia crescido, agora era maior, era um lobo mais corpulento pelo fato de esforçar-se mais que os lobos de matilhas, os ditos normais.
   Eis que chega a outra semana, em seu focinho sente algo gelar. Era um floco de neve. Olhou então para cima e viu milhares de pontinhos brancos, finíssimos, precipitando e cobrindo o chão que logo fizera um manto branco. Lembrou de seu ultimo inverno e neve. Esse seria seu primeiro inverno intenso a só. Ele andava deixando marcas pelo tapete branco, até algum dos muitos córregos que pela floresta cortava. Ao aproximar-se para beber daquela água, espantou-se diante da temperatura desta. Mesmo assim, entrou na água tão fria.Queria sentir algo mais gélido em seu corpo, mais gélido que seu sangue. Era água corrente, batia um pouco abaixo do dorso do lobo. Mergulhou e voltou à superfície. Revigorado, saiu de lá e fora vistoriar a outra parte da floresta. Não havia ninguém por perto, viu apenas um esquilo que freneticamente passava por lá. Sem fome, sem ter o que fazer, encontrara uma arvore com as raízes que a erguiam de tal foram que por debaixo dela formara uma perfeita “casinha”. Acomodou-se, fechou os olhos e por lá fez seu repouso.
   Horas após ele acorda. Deparou-se com a escuridão dentro de um local fechado com uma pequena fresta que entrava alguma claridade. Colocou o focinho para fora daquela fresta e as patas na parede. A parede se desfez , descobriu então que era neve, ele não havia saído do local. Com algum esforço saiu de lá. Das poucas horas que dormira, viu uma enorme diferença no cenário. O tempo estava fechado, cenário azul marinho, a tarde aparentava final de madrugada, a neve subira até metade de suas patas. Havia muito, muito branco onde quer que mirasse a visão. Continuou a patrulha, com difícil locomoção. Atento a todos os lados, aquele ser vermelho Então, repentinamente parou. Com um respirar profundo, com suas orelhas retraídas, escutava então um ganir. Tal som não estava muito longe. Foi então vasculhar, com sua audição a lhe guiar, passava por obstáculos típicos da floresta, como os troncos destroçados no chão, as tantas raízes expostas que quando calouro tropeçara muitas vezes . Por fim, chegara ao tal local e avistara um lobo preso a uma raiz pela pata esquerda traseira. Ele rodeava-o assíduo, por vezes o encarava. O lobo gania de frio, seus pelos cinzas estavam brancos pela nevasca que ocorrera enquanto o solitário dormia, estava prezo a um bom tempo. De tanto encarar, analisar o seu semelhante percebeu: era um lobo daquela matilha, era um de seus irmãos. O rancor falava mais alto, ele não comovia-se diante da cena, da hipotermia que seu irmão sofria, não comovia-se com o gelo queimando em seu pelo, não comovia-se com estalar de sua mandíbula ou ganidos. Deu-lhe as costas, e o abandonou lá. O lobo, sem mais forças, calor, ficou em silêncio, esperando que seu corpo sob o manto branco padecesse.
   O Solitário fora aos confins da floresta, lá na planície. Logo após esta havia as montanhas e os picos, fazendo fundo de paisagem. Tudo estava calmo e sereno, em seu devido local... O lobo sentia um vazio bater a porta de seu peito. Uma falta. Talvez fosse a falta de algum sentido para tudo aquilo que acontecia. Estar a só, estar ali. Estar olhando as montanhas, o entardecer daquele dia azul marinho. Mas eis que surge, pela primeira vez diante daqueles olhos já céticos, um dos maiores espetáculos da natureza, um espetáculo que uma vez presenciado, jamais há de se esquecer, um espetáculo que se faz crer no paraíso, que faz a pupila dilatar. Lá, entre as extremidades das imensas montanhas, no céu azul já escurecido, Dançavam as cores, os tons violeta, púrpura e rubro, imensa deslocavam-se, em um vai e vem de cores, fluíam, misturavam-se, mais parecia um imenso cristal que se dissolvia pelos ares. Sim, era ela, a aurora boreal. Alucinava-se o lobo diante de tal sublimidade, algo que achou injusto, egoísta demais para se contemplar a só. Seu coração disparou. As artérias congeladas aqueceram-se com os batimentos.
   Ele não tinha tempo , o mais rápido que pode adentrou a floresta em busca de seu irmão. Pelo caminho colidiu diversas vezes com as arvores, tropeçara, deparava-se ao chão, mas levantava e continuava, saltando troncos, desviando de galho inoportunos. Lá estava seu irmão. Calado, afundado na neve, apenas cabeça amostra. Começou o solitário a cavar pelas laterais, descobriu aquela camada espessa de neve sobre ele. Mas seu irmão não demonstrava movimentos. Encostou então o ouvido sobre o dorso. Ainda tinha pulso, e pelas narinas exalava vapor, não estava morto. O cutucou , lambeu sua cara. Ele abriu os olhos , então o solitário com sua mandíbula puxou a raiz, e seu irmão retirou a pata traseira de lá, porem continuava imóvel apesar de estar liberto. Começou a empurrá-lo levemente. Nada. Restou-lhe apenas uma opção: carregá-lo em suas costas. Com certa dificuldade, seu irmão foi posto sobre elas.
  Carregou-lhe cansado, com esforço, mancava, desandava, mas não desistia. Conseguiu. Lá estavam os dois, a contemplar a aurora-boreal . O lobo vermelho dera um uivar igual ao dos velhos tempos, o uivar profundo. Seu irmão dera um uivar com mistura de encantamento e agonia diante da cena... O seu ultimo. Espatifou-se seco ao chão.
  Dizem que animais não choram. Enganou-se todos aqueles que isso afirmaram. O lobo cor de sangue repousou sua cabeça sobre o pescoço de seu igual. Uma lágrima escorreu de seus olhos, terminou no pelo de seu irmão. A lagrima tornou-se gelo em meio ao pelo. Passou assim, a noite em luto, encostado naquele que por negligencia não salvara a vida.
  Amanheceu, o céu anil surgiu junto ao sol. Os corvos rodeavam o local. O lobo rosnava, encaravam os corvos. Ficou por lá, por horas acordado. Mas não adiantava, definitivamente, aquele coração não pulsava mais. Com muito custo, abandonou o corpo de seu irmão entregue as aves de rapina.
  Voltara a sua rotina, a rotina de um lobo solitário. Passou-se um mês e ele morrera. Não, não foi um urso que o matara, nem perdera batalha para um alce. Também não fora neve, o frio do inverno. O lobo solitário morrera de solidão.