Ele abriu o portão da garagem, ela tirou o carro. Ele trancou o portão, entre as grades me deu as chaves. Entrou no veiculo e lá se foram. Fiquei a só em casa, enquanto meus pais foram ao supermercado para fazer a compra mensal. Ainda em frente ao portão, eu olhava para a casa fronte a minha. Quer dizer, não olhava a observar, estava apenas pensando com meus botões olhando rente a ela. É essa coisa, essa de quando mergulhamos em nossos pensamentos e excluímos tudo em nossa volta. Nem reparava meu dedo indicador rodando a argola da chave, ou o velhinho que passava vagaroso pelo passeio. Estava parada, eu parecia uma sentinela, que não vigiava a casa, mas o que se passava em minha mente. Não sei por quanto tempo fiquei nesse estado, talvez mais de uma Hora. Mas sempre que me perco em minha mente, viajo por horas, sendo que na realidade não se passara nem se quer cinco minutos.
Acordei então, e me deparei com o mundo. Droga! Odeio acordar de sonhos acesos. É terrível uma hora estar onde eu bem queria e no outro, estar onde estou. E como estou. Olhar em volta, ver a vida imutável aqui dentro. Olhar para fora das grades do portão e assistir a vida correndo, e eu aqui, pateta, parada.
E lá no final da esquina notava um grupo de adolescentes babacas, com suas roupinhas da moda, cheios de não me toque, e aquele jeitinho “I’wanna be cool”. Lá estão eles, com suas músicas insuportáveis que ouviram ontem nas rádios, com os óculos do momento e suas conversas vazias, seus assuntos cordiais. Lá estão eles, eles e suas gírias, seu português deturpado. Fazendo gestos que aprenderam na TV, aprendendo a ser clones mesmo quando enchem a boca a dizer “sou diferente”. Lá estão eles, no final da rua, sendo uns idiotas,Sendo... Felizes. Fiquei grudada a grade, olhando seus comportamentos, cada movimento, a expressão, o que diziam, como falavam. Tão entusiasmados, tanta energia, quantos sorrisos e risadas. Tantas amizades. Bom, se tudo aquilo é sincero, não sei. Parece que sim. E me parece que sou eu que tenho algum problema. Talvez eles não estejam errados em serem... Serem apenas adolescentes.
E não me entendo, devo ter algum defeito, algo que afaste as pessoas. Quem saiba possa ser minha personalidade forte, que nem é tão forte assim, afinal, eu sei sim, ser maleável, me dêem um assunto, eu sei conversar. Talvez seja minha timidez , mas... Eu já vi pessoa muito, muito retraídas, que mesmo assim, tem amizades e são felizes. Bom, não pode ser o fato de eu ser, ou ao menos, me achar feia, assim, decadente, que malmente penteia o cabelo ou trata das espinhas e briga com a balança, não acho que as pessoas excluiriam alguém perante futilidades, quer dizer, não todas.Eu realmente não entendo, o que há de errado comigo? Será que não concordam com meu estilo de vida? Do que penso a respeito dela ?É, acho que meu problema, é ser um problema. Unir tantos defeitos em uma única pessoa.
Ficar ali, olhando o mundo rodando em seu eixo normal, na direção certa, enquanto eu pegava a contramão, estava me matando. Resolvi então ir para os fundos da casa. Fechei os olhos para aquilo que me corroia, na espera de que sumisse, feito uma criança que pensa que ao fechar os olhos com as mãos a fará desaparecer do alcance de quem a procura em um jogo de pique - esconde.
No fundo da minha casa, um quintal quadrado, de cimento e gramado. Não muito grande, nem muito pequeno, um bom tamanho. E lá, lá na casinhola esta meu amiginho de quatro patas. Não, não é um cachorro, não é um gato, também não é um coelho. É uma ratazana. Isso mesmo, com todas as letras, e silabas, com todas suas quatro patas e bigode. Não, não é um porquinho da índia, nem um hamster. É uma ratazana. Ele se chama Margô. O Margô. Fazia um bom tempo em que ele fazia parte da família, pelo menos da minha. Meus pais nunca gostaram da idéia, mas quando vi aquela, aquela coisinha tão, tão pequenina passando por baixo do portão! Menor que a palma da minha mão. Uma bolinha preta do rabinho franzino, com olhinhos pretos que mais pareciam uma prefeita micro miniatura de uma jabuticaba... E aquele focinho rosado? Não tinha como, ele tinha que ser meu. Fora difícil convencer minha mãe, foram horas e horas de uma incessante discussão cheia de excelentes argumentos. O mais convincente e original: “Por favor, por favor, por favor! eu limpo a sujeira que ele fizer!” Por fim, consegui o que queria através de uma chata sucessão de repetições. Margô hoje é um bichano, um ratão. Mas ainda o acho tão fofinho quanto aquela coisinha que chegara a minha casa no primeiro dia.
Fui até sua casinhola, abri a porteira e o peguei em meu colo. Sentei na cadeira de dois lugares de madeira do quintal. Nisso comecei a acariciar seu pescoço, atrás de sua orelha fina. Olhava o sol batendo no alto muro de casa. Visando o silêncio, ninguém por perto, resolvi então começar minha conversa com Margô.
“Sabe Margô, estive pensando. Aliás, o que mais faço é pensar... Estou pensando a respeito da minha vida. Margô,olha para mim. Você gosta de mim? Eu gosto muito de você. Será que estou errada em gostar mais de uma ratazana de que alguma pessoa? Não sei não Margô. Acho que sou estranha, estranha de mais. Mas o que eu posso fazer? Sou eu. A menina esquisita que se senta no quintal enquanto seus pais estão ausentes, para conversar com um roedor. Talvez eu não devesse estar aqui, eu deveria estar saindo, indo para, sei lá, para o clube nadar e aproveitar esse dia lindo. Mas que droga! Eu não gosto de nadar. E nem acho que dias de sol são dias bonitos. Eu gosto de dias nublado. Qual o problema nisso? Ah Margô! Você sabe que eu prefiro me trancar no quarto e escutar Judas Priest. Mas se eu ficar trancafiada no quarto, eu perco tudo que há lá fora. Dizem que eu perco muitas coisas da vida. Será que estou perdendo alguma coisa importante? Talvez não esteja perdendo coisas, talvez eu esteja perdendo a própria vida...” Por um instante paro, olho ao redor,olho para casinhola e olho bem para Margô. Continuo.
“Às vezes acho que deixo você trancafiado tempo de mais na casinhola. Isso não é nada bom. Isso é péssimo. Hey Margô, me diga, é muito ruim ficar lá? Você mora lá desde que apareceu por aqui. E eu me lembro, seus dentes eram muito, muito pequenos. Você tinha que comer a ração tão triturada, que parecia até que você comia areia. Acho que você se perdeu da sua família, quando ainda deveria estar tomando leite. Pois então, desde que você veio, você mora naquela casinhola. Faz-me lembrar do que dizem a respeito dos pássaros. Dizem que um passarinho, quando trancafiado em um gaiola no ápice de sua vida, ele morre de tristeza, morre porque perdeu sua liberdade. E dizem que quando o passarinho nasce na gaiola e é solto, em liberdade ele morre, porque se adaptou tanto a prisão que não sabe mais viver sem ela. Eu tenho medo, tenho muito medo de ser um passarinho de gaiola. Não, não quero dizer que meu quarto seja uma gaiola e eu o passarinho que não sabe viver fora dela. Quero dizer que minhas limitações me impedem de ser livre, e que estou acostumada demais com elas, e com isso vou me conformando.E será que seu eu te libertasse, você morreria Margô? Eu prefiro nem arriscar. Até porque eu gosto muito de você, e não sei ficar longe de você. Mas... Você se sentiria mais feliz em liberdade? Vagando por ai, passeando pelos esgotos, andando sobre telhados, explorando os sótãos, correndo riscos, fugindo de gatos. Você prefere ficar aqui comigo, não é? Não diga que não. Eu sei que não... Meu deus! Que diabos estou fazendo? Estou contando meus problemas a uma ratazana!” Coloquei Margô no chão indelicadamente, apoiei meus cotovelos sobre os joelhos e apoiei minha cabeça sobre as mãos. Como tudo aquilo era patético, como sou uma pateta! Era tudo tão ilógico! Conversar com um rato? Não, eu devo mesmo é ter esquizofrenia. Ratos são só bichos, bichos não pensam, bichos não falam, não perguntam ou respondem. Bichos não se comovem com o que você sente, não é culpa deles. É que bichos não raciocinam, bichos são bichos.
Margô começou então a irritar-me ,tentando e arranhando-me, a subir pela minha perna. Dei-lhe um pontapé. Não, não. Não foi um pontapé forte, mas o suficiente para perceber que estava com raiva, raiva de mim, uma raiva que descontei nele. Ele deslizou um pouco com meu pontapé.
Fui então para meu quarto, pelos cômodos fui deixando as portas abertas. Estava sem paciência para as maçanetas; Coloquei Motorhead para tocar. Deitei em minha cama, sem vontade de nada. Evitei falar sozinha, concentrava-me no som. Mas não consegui desconcentrar-me dos meus pensamentos. Nessas horas só lembrava os meus defeitos, eu me via em um espelho, eu olhava então refletido, uma inimiga. Sou eu minha maior inimiga. Nessas horas só queria um amigo.
Deitada de lado ,olhando para porta, vejo então Margô. Margô nunca entrara em casa por regras impostas pelos meus pais. E quando eu vim para meu quarto, ele não me seguira, provavelmente chegou até aqui pela música. Sentei então, fiquei olhando para ele, que de pé sentia o cheiro ambiente com seu focinho incessante. Margô fora até meu encontro e novamente começou a arranhar minha perna na tentativa frustrada de subir por estas.
“ Margô! Realmente não consigo acreditar, mesmo após um pontapé você voltou para mim!” Peguei ele em meu colo “ porquê mesmo depois de um pontapé você volta a mim? Eu não mereço.Desculpe minha grosseria, eu sempre espanto os outros com ela. Só que os outro não são irracionais como você, por isso que os racionais se afastam de mim. As pessoas tem rancor porque pensam, você não pensa. Por isso você não liga pelo mal que lhe fiz. Se você pensasse você se vingaria ou então desprezar-me-ia...Rancor. Vingança. Desprezo. É Margô, pelo visto o mal é mais racional que o bem. Mas que droga de realidade é essa? Eu não posso crer nessa conclusão, não! Até porque o mal não existe, é só a ausência do bem, já dizia Einstein. Rancor, vingança e desprezo, tem tanta falta do bem quanto o agressor que fez por merecer. Você Margô, você tem o bem dentro de você. Esqueça minha estúpida conclusão, não só a de que o bem é irracional, esqueça quando eu disse que ratos são só bichos, que bichos não pensam. De fato bichos não falam, não perguntam ou respondem. Mas o bichos se comovem sim com o que você sente. Esta ai, você, a prova disso. As vezes, ou quase sempre, as pessoas são estúpidas. Elas lhe ignoram, te julgam, jogam-te fora, descartam feito coisa em desuso. Você não. Você entendeu, te chutei e não foi por mal, foi porque não me sentia bem.”
Mesmo sabendo que Ratazanas não são lá apreciadoras de abraços, dei-lhe um, pois não suportava a falta destes, os que nunca recebo das pessoas. Senti-me melhor, pois em seu abraço de rato tinha o bem. Na ausência de palavras, aquele animalzinho me disse muito, sem uma fala, ele me consolava. Era tudo que precisava.
Mais tarde, quando ouço meus pais entrarem, corro para o quintal e coloco Margô em sua casinhola. De todas as coisas que me tiram a liberdade, a que mais me afetava era meu afeto, o meu apego por Margô. Resolvi deixá-lo solto, para que encontrasse alguma fresta ou buraco pelo quintal, eu não podia mais ficar dependendo dele, isso me limitava, enfraquecia. E acima de tudo, era desconfortável vê-lo em um quadrado de ferro, um cubículo, sua casinhola. Havia infinitas possibilidades de fuga.
Dia seguinte, acordo, vou para o quintal. Ele se foi. É, acho que ele não sentia-se bem quando preso. Tudo bem, se era o que queria, que fosse assim então. Eu sentia um vazio, confesso, fiquei desconsolada, mas devia aceitar o fato que ratazanas têm um instinto selvagem, ao contrario dos hamsters. Sentei no banco de dois lugares do quintal, fiquei olhando para o muro, quer dizer, não olhava a observar, estava apenas pensando com meus botões olhando rente a ele. Mergulhei tanto em meus pensamentos, que cansada de tanto pensar, acomodei me a cadeira de tal modo que dormi. Passaram-se uma hora e pouco. Sinto algo arranhar o braço que ficara pendurado para fora da cadeira. Sim! É ele! No fundo eu sabia, Margô está tão preso a mim, quanto eu a ele. Margô não tem instinto, ele pensa. Ele sente. Um Rato que é mais humano que muita gente.
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