quinta-feira, 1 de julho de 2010

Os óculos garrafão

   Um dia qualquer, férias de julho, interior, quem saiba uma sexta-feira. Eram quase onze horas da matina e Natasha ainda não levantara.
   Menina mimada, menina incontentável do nariz empinado. Desde pequenina, quando aprendera a falar os verbos “querer, precisar e ter”, nunca mais se contentara com os bens materiais de seu pertence, sempre queria mais e mais. Anúncios de TV sempre foram sinuosos para aqueles inocentes olhinhos que tanto brilhavam diante da tela, da falsa felicidade oferecida pelas propagandas. E por estes fazia de tudo: berrava, fazia birra, chorava, insistia. E os pais, bom, os pais sempre acabavam por ceder a sua vontade.
  Então ganhava seu tão precioso desejo de consumo... Meia hora depois, aquilo que por um momento tanto a encantava, perdia logo seu brilho. Por dentro aquilo corroia a garotinha de sete anos e pouco. Ora, por que algo que ela tanto queria a um segundo atrás e que agora estava em seu domínio, perdera assim, tão de repente, toda a graça e encanto? Ela não entendia, apenas sabia que queria possuir e nada mais. No fundo tudo aquilo não fazia o menor sentido.
   Natasha, às onze e meia iniciou seu dia, saíra do seu quarto rosado, feito a montanhas de bichos de pelúcia, puff, videogame de ultima geração, lençol de babado, travesseiro de penas de ganso, almofada de coração e todas as superfluidades que uma menina comum desejaria. Ela vai até a cozinha, passo a passo de suas pernas magricelas. Panela na pressão, cheirinho de comida fresca, salada a mesa assim como os copos e a jarra de suco postos, percebera então que acordara tarde e confirmou ao olhar para trás e ver o pequeno relógio de parede. Dormira mais que a cama.
  - Bom dia dorminhoca! – Falou a empregada, Gil, como era chamada de costume por todos da casa.
  - Bom dia... Cadê a mãe? – Perguntou sem hesitar.
  - O de sempre: ela esta trabalhando. – Falou costumeira. – Agora espere um pouco que o almoço já esta para sair.
  Os pais da menina eram ausentes por demais. Quase nunca por perto, Natasha sentia imensa falta deles. Afinal, qual criança não quer um abraço, um beijo de bom dia, alguém para mostrar o desenho colorido que fizera ,alguém para pegar um livro do alto da prateleira, alguém para ler esse livro quando batesse aquela preguiça, alguém que em um tombo seu, diria que nada foi e que iria passar. Sentia a falta disso e muito mais. Quem saiba dar-lhe tudo que pedisse fosse à válvula de escape que os pais encontravam para preencher aquilo que nela tanta falta fazia: a presença deles.
   A ansiedade consumia agora a menina, serelepe andava a todos os cantos da modesta casa. Andava do quintal a sacada da suíte de seus pais mirada para rua, cá e acolá, sem ter o que fazer, sendo que seus tantos brinquedos já não eram tão novos e divertidos como desejava.
   Jogou-se na cama de casal, que antes arrumada, agora com a menina já voltara desordem: feito seu trampolim particular, a menina se punha a voar com os estalos do estrado. Dava voltas, em espiral ela pulava, tonta vendo o mundo girar, mesmo assim, ela não havia de parar. Entre macios travesseiros caia , os cobertores com o pé afastava, tudo fora de ordem, tudo como havia de ser, divertido ao seu gosto. Mas eis que em um de seus saltos, atenta a olhar o alto guarda roupa, ela visa uma caixa branca. Abismada, simultaneamente, de pé, seguida de joelhos, cai sobre a cama, por segundos fica paralisada. Mas, afinal, que caixa seria aquela, que nunca vira antes?Ela tinha de saber, sua curiosidade perspicaz não a deixaria em seu sossego caso não desse nem se quer uma espionada em tal objeto.
   Mas... Como? Era alto demais para suas curtas pernas, e a escada, que ficava na área de serviço da cozinha, era proibido a ela; Teve uma idéia: Pegou todos os travesseiros, todos os cobertores que logo dobrou, fez então uma macia escada de algodão. Por esta subiu, teve que bem nas pontas dos pés ficar; esforçava-se, esticou todo corpo e sem nada enxergar, apalpava a parte de cima do guarda roupa. Sentiu em algo tocar, parecia de papelão, revestido por papel de embrulho. Segurou uma ponta deste, puxou: eis a cobiçada caixa em suas pequenas mãos. Desceu, tropeçando, caiu sobre a cama com a caixa rente a seu corpo. Voltada de barriga para o teto, sentou-se. Abriu então a caixa. Como era de se esperar, vindo da concepção dos olhos fantasiosos de uma criança, esperava encontrar algo especial dentro da caixa, que provavelmente dela fora escondido, já que estava em um lugar fora de seu alcance.
   Lentamente, abriu com um sorriso ruidoso, na espera de uma novidade, quem saiba até mesmo magnífico, intocável. Tirou lentamente a tampa...Na hora seu sorriso se desfizera. Coisa mais sem graça, sem sentido: um óculos! Mais especificamente, aqueles do tipo garrafão, de armação grande e grossa. Esse no caso era de madeira, uma madeira escura maciça. Bom, ao menos uma peculiaridade esse óculos tinha: não é todo dia que você encontra uma armação dessas de madeira, se é que existam outras.
   Mesmo decepcionada, levou o óculos para seu quarto e o deixou sobre sua cômoda salmão. Após o almoço voltou e resolveu testar tal óculos: ao colocar, sua visão nem piorara nem melhorara, tudo visava igual. Não bastasse ser sem graça, era também inútil! Natasha dirigiu-se a janela de seu quarto, levantou as persianas amarelas, abriu o vidro e ficou observando as coisas lá fora com os braços apoiados nas bordas. Nada, o óculos não surtia efeito algum. “Droga!” Falou em bom tom. “Esse óculos é uma droga, mas que coisa mais boba! Não o quero mais!” Assim que colocou as mão sobre estes para tirar de seu rosto ela escuta uma voz: “ Depende com que olhos você o vê!” Ela espantou-se, ainda com os óculos, indagava que voz estranha seria aquela. Olhou para todos os lados e nada. “Quem esta ai?” Perguntou. Procurou, procurou. Apesar disso, ela não temia, ela não tinha medo do que fazia barulho em plena claridade, medo mesmo, ela tinha daquilo que fazia silêncio em suma escuridão.“Alguém falou comigo, eu sei que sim! Apareça logo!” Falou ela as paredes. “ Cá estou eu!”A voz desta vez vinha da janela. Natasha foi a esta e nada encontrou.
   Claramente suas feições demonstravam o quão curiosa estava, com aqueles pequeninos olhos, pretinhos feitos de jabuticaba, serrando-se junto a testa franzida. “Ora! Mire aqui! Estou a sua esquerda mocinha!” Assim que escuta, ela vê: espanta-se, os olhos antes cerrados agora arregalavam-se. Era um Grilo! Pequenininho,frágil , tão verdinho ,de olhos vermelhos alucinantes. Aquilo era demais até para uma criança crer. Ela aproximou o rosto cautelosamente, olhando convergente ao inseto. Este por sua vez, bruscamente pula em seu nariz. No impulso a menina deu dois passos rápidos para trás, gritou e esfregou a mão em sua face. O grilo caiu, mas nem se quer machucou. Assim que se ergueu, lá debaixo, feito um pontinho verde em meio à brancura do piso, ele olhou bem a menina e disse bem humorado: “então é assim que tratam as visitas nos dias de hoje?” Natasha então agachou-se, mesmo um pouco ressabiada, encarou o grilo e perguntou com sua meiga voz contida: “ Quem é você?”
   Ele por sua vez, muito bem articulado, com suas antenas em atrito respondeu: “ Prazer, meu nome é Creepie. Desculpe-me assustá-la, tenho que parar com essa mania de cumprimentar as pessoas desse modo”
   Ela, por dádiva da inocência, adaptava já ao fato de, repentinamente, estar falando com o grilo. Continuou:
  “ Tudo bem Creepie, não foi nada não. Mas de onde você veio?” Então como resposta: “ Não importa de onde eu vim, o que importa é para que eu vim”
   Confusa, nada entendia. Apenas convidou seu novo e estranho amigo a ser carregado em suas mãos. Foram para o quintal. Este era todo recoberto por um piso cor de areia, sem um mísero gramado, apenas concreto a todo lado. Ela sentou em um banco de dois lugares, e sob o frescor daquela tarde de inverno, de céu em seu pleno azul com o sol inválido, deixou Creepie em seus finos joelhos. Para um ser tão minúsculo, tudo parecia imenso diante dele; o final dos joelhos de Natasha soavam feito o final de uma montanha para um ser humano, como estar diante do termino grande barranco e logo a frente uma enorme e interminável barreira: as paredes da casa.
  “Então minha jovem? O que você faz aqui?” Perguntou.” Nada, prefiro ficar no quarto com meus brinquedos, mas as vezes eu levo eles para fora.” Respondeu de modo espontâneo. “ Pois percebi que esses você tem vários. Mas não parece brincar tanto com eles. Eles não são tão legais como parecem na TV, não é verdade?”
   Ela pensou, beliscou o queixo, olhou pelos movimentos da íris para ambos os lados. Respondeu: “ Não...” Incerta do que dizia.
   “Pois acho que eles não têm graça alguma. Veja bem minha menina, a magia deles se desgastam com o tempo. Não que você não precise deles, afinal, brinquedos são legais. Quer dizer, antes que eu me contradiga, digo-lhe que quantidade não é a chave da felicidade. Prefira aos seus cativos, quem saiba aqueles que ganhara de alguém especial, ou aqueles que simplesmente simpatiza, que você dorme abraçada.” Falava enquanto articulava, levantando as perninhas aciculiformes. “ Tem mais: por que limitar sua vida a aquele quarto? Acho que todas as telas têm hipnotizado você , as do computador e da TV”
   Ela olhava o Creepie reflexiva, pensando em cada palavra que lhe soltava a boca. Começava a ter consciência do que a sua volta a cercava, mediante toda sua realidade supérflua. “O que eu posso fazer Sr. Grilo?” Indagou.Ele colocou suas garras no tórax, assim como alguém coloca as mãos na cintura e falou:“ Sabe qual a maior vantagem de um humano morar em uma cidade do interior? São muitas, mas a melhor é a liberdade.Você, mesmo tão novinha e indefesa, pode sair para muitas ruas e lugares até o pôr-do-sol. A segunda é a que eu quero lhe mostrar”
   Mandou então que a menina o levasse a um lugar alto da cidade. Ela abriu o portão de lata da casa, saiu esquecendo-se de fechar. Ela o levará as colinas campestres, e sob uma arvore de sombra generosa sentou-se sobre a grama. Creepie, em cima de seu ombro, apontando para as longínquas serras que envolviam a cidade falou:
  “Sabe qual a outra vantagem de se morar onde tantos urbaninhos cismam em chamar de fim de mundo? Isso: as montanhas. Eu gosto das montanhas porque elas são verdes no nascer do dia, vermelhas no morrer da tarde e azul marinho pelas noites. Já reparou nisso?Ah, outra coisa: as árvores. Elas me lembram as pessoas: Em meio uma multidão você não repara em nenhuma especificamente, parecem todas iguais. Mas... Se você reparar bem em uma, vai ver que é diferente de todas de certo modo. As árvores são assim: cada uma mais peculiar que a outra, com formas diferentes de tronco e galho, retorcidas, tonalidades únicas, folhas em diversas quantias, alguma floridas outras com frutos e algumas desnudas. Uma árvore é sempre única...E por ai vai. Toda a natureza em si é uma coisa que dificilmente perde seu brilho, ela é tão grandiosa, mutante, de varias cores e formas. Você deveria sair mais para lugares como esses sabia?”
   Admirada, via que mal conhecia o belo mundo que a cercava. De repente ela enxergava a coisas de outra forma, talvez mais lúcida, talvez mais clara, que saiba até um pouco mais lúdica. E ficou lá, sentada naquele confortante mato, olhando o horizonte, aquilo até então tapado pelas paredes de sua casa e por sua própria visão.
   Depois um bom tempo a contemplar, o grilo quis desta vez, mostrar uma coisa não muito agradável: saltando por si só, guiou a menina um bairro pobre, muito pobre. Paredes cinzas, lodo, casas apenas no tijolo, ruas sem calçamentos. Talvez por lá alguns passassem fome. E ela viu: um grupo de crianças aos trapos tentavam jogar bola, com uma bola murcha, esfacelada. Decepcionou-se diante do que seus olhos observavam. Que injustiça! “ Veja só, quantas crianças, malmente tem o que comer, quanto mais brinquedos! É lamentável como a vida sabe ser contraditória, tão bela e tão cruel...”
   Natasha nada comentou, apanhou o grilo e correu para a casa. Creepie decepcionou-se com sua atitude de fechar os olhos para aquilo que não queria enxergar.
   O Portão ainda estava aberto, ela entrou correndo, quase se debatendo dentre os móveis. Colocou Creepie em seu ombro, no seu quarto abriu o baú de brinquedos, colocou estes dentro de duas sacolas. Antes que se esquecesse, botou os óculos sobre a beira da cômoda que até então estava em sua face. E mais uma vez, correndo em destino foi até o bairro junto do Grilo em seus delicados ombros e sacolas nas mãos. Chegando por lá, dirigiu-se aquelas crianças que viu anteriormente e disse: “ Toma, é um presente para vocês, não são muitos, mas são especiais, são de coração” As crianças ,que tinham mais ou menos a mesma idade que ela, aproximaram-se curiosas a observar as sacolas. Ela estendeu as mãos sem nada a dizer, uma criança, a um pouco mais velha, pegou as sacolas e abriu os braços desta para ver o que tinham dentro destas. Todos em volta ao ver do que se tratava, ansioso começaram a escolher seus brinquedos, todos eufóricos, gratos a atitude da menina. Sem saber como demonstrar o quão agradecidos estavam, disseram apenas: “ Ei! Você quer brincar com a gente?” Feliz pela Campânia, sem rodeios aceitou. Há tempos a menina não brincava junto de outras crianças. E o tempo passava rápido enquanto se divertia, então eis que as montanhas tornavam-se vermelhas e sol se punha. Deu adeus a todos e voltou para a casa.
   Em seu quarto se jogara na cama, sentindo uma sensação estranha, a sensação de empatia, de ajudar ao próximo , uma sensação incrível... Porem, começou a sentir falta de algo: onde estava Creepie? Bruscamente levantou-se da cama, não o vira desde que saiu de casa com as sacolas! Começou a chamar pelo sem nome, rondou todos os cantos da casa, nada. Onde estaria? Procurou pelo quarto de seus pais, nada achara. Porem percebeu: a caixa branca donde encontrou os óculos estava ainda sobre a cama de casal. Abriu na esperança de seu amiginho estar se escondendo por lá. Nada além dos papéis que já estavam dentro dela ao encontrar... Por curiosidade olhou o que neles estava escrito.
   Nele, uma impecável caligrafia dizia: “Guardo aqui minha relíquia, meu amor. Guardo aqui a visão de um mundo melhor, um mundo com Creepie, meu verdinho favorito. Ass.: Melina”
   Melina, sua falecida avó. Então era ela a dona dos óculos. Não Fora necessário pensar muito, era óbvio: somente aqueles que usassem os óculos veriam Creepie! Voltou para o quarto, olhou para cômoda, olhou para o chão. Natasha perdera seu chão ao ver os cacos espalhados do óculos espatifado. Não, ela não acreditava que por seu descuido agora não veria mais o pequenino, apertava agora forte seu coração, aos prantos chamava por ele.Nada. E agora era tarde, de nada adiantaria sem os óculos. Sentia-se leve feito uma pena, aquela leveza causada pela ausência, uma leveza dolorida, pesada.
   Ela varreu os cacos, os colocou na caixinha e em seu baú de brinquedos, agora com mais espaço, guardara a caixa com cautela.
   No final das contas, após tanto lamentar, a menina sabia: apesar de não vê-lo, sentia a presença, daquele pequeno ser, tão verdinho e frágil, que lhe ensinara tantas coisas grandes em um dia qualquer, nas férias de julho, em sua cidade do interior e quem saiba em uma sexta-feira.

domingo, 27 de junho de 2010

Acordes de um violão

Antes de mais nada, gostaria de dedicar esse texto a minha metaleira favorita: Renata, esse texto é para você!


  Uma manhã de outono, céu fechado, daquelas que o sol surge frio dentre as nuvens pesadas, reluzindo feixes de luz a cada fresta encontrada. Dias nublados, melancólicos, dias em que o galo não canta e as gaivotas não voam.
  Sem pressa ela levanta da cama. O quarto estava um pouco escuro, com penumbras da cortina branca de seda que sem muito êxito tentava impedir a total entrada da claridade. O quarto estava cheio de tons tristes, tons da monotonia, morbidez. Ela abriu as portas de vidro da sacada, passou dentre as cortinas.
  Olhou para sua rua adormecida, ninguém por lá. Ela voltou para o quarto, pegou seus amigos, os mesmos então dentro de um maço de cigarros que roubara de seu pai, e uma caixa de fósforos.Voltou para a sacada.
  Encostou-se a grade, acendeu e tragou. Bufava com vontade a fumaça que pelo ar se desfazia, pareciam as nuvens daquele dia, só que mais finas, leves e frágeis. Ela espera pelo nada, como uma morta viva, procurando a graça de existir num dia tão estúpido, que talvez nem devesse ter saído da cama. Ela ficou durante quase meia hora, inválida, na Campânia de seus vícios e visão deserta.
  Após tanto refletir sob o céu cinza, teve uma idéia, talvez não uma das melhores e talvez a mais insana ao longo de seus quatorze anos. Olhou para cima, olhou para a árvore seca no final da rua. Decidiu-se. O mais rápido que pode, pegou sua mochila, alguns trocados, entulhou dentro dela um caderno e uma caneta preta, pacotes de bolacha, um casaco, uma coberta. Correndo por entre os cômodos, passando corredores, descendo a escada, ela saíra de casa as pressas. Sorte ou não, naquela casa ninguém havia despertado .
  Ela foi correndo até a estação de trem. Pessoas por lá, bagagens na mão. Ela comprou a passagem, sobrando pouco dinheiro. Sentou-se no banco de madeira a espera da viagem para não sei aonde. Chegado o trem, ela se levanta, espera por aqueles desesperados que tumultuados entravam nos vagões.
  Logo após, ela entra, encontra um acento solitário. Sentada agora rente a janela, encosta a ponta dos dedos no vidro embaçado pela friagem, e com a manga de sua blusa vermelha o deixa nítido, para que sua visão clínica possa captar cada detalhe de sua travessia. Dado a partida, o trem sai da estação. Afora, ela observa pessoas acenando, pessoas chorando, pessoas sorrindo, pessoas que vem e vão.
  Agora sem rumo, apenas com a coragem, perspicácia e alguma mera bagagem, ela vai rumo ao desconhecido. Ela espera que sua intuição trace alguma rota, um destino,lhe mostre algum caminho .
  Ela olha para seu vagão, pessoas dormindo, pessoas cansadas, cansadas do mundo, cansadas da vida, do infortúnio da rotina. A apatia morava por lá . Ela concentra-se na janela.
  O trem vai aos confins da cidade, entrando em meio às áreas verdes, aos galhos em ambos os lados, troncos retorcidos, folhas secas esvoaçando a beira do trilho. O orvalho deixava a mata mais triste, o dia parecia chorar o que nos últimos dias Havia sorrido junto ao sol.
  Distanciando-se da partida, sente o início de uma leve adrenalina, aquela sensação de liberdade, de cortar o cordão umbilical, estar por conta própria, sentir-se um nobre inconseqüente de seus atos. Era só ela e suas tralhas.
  Tirou o casaco da mochila, o tempo atenuava-se, escutavam-se espirros; Tirou o caderno e caneta da mochila, olhara no relógio e fizera anotações. O Tempo passava enquanto tudo parecia congelado para todos, menos a ela que ansiosa esperava pelo trem parar na próxima estação. Ela recusava fechar os olhos por mais longo que fosse o caminho, não queria perder os detalhes contemplados janela afora. Cada arvore vista era única, assim como morro e montanha, pedra e rochedo. Foram mais de duas horas de viagem.
  Eis que o trem para, agora podia se escutar bocejos, ver braços estendidos, faces sonolentas.As portas de abrem o clarão adentra o local. Ela é a primeira sair enquanto os outros ainda despertam.
  Sai, pisa firme no concreto, se mantém admirada diante da cidade que nunca visitara antes. Sem se mover, parecia uma estátua que tudo olha. As outras pessoas por traz dela passavam abrindo em leque, passando por ela, expandindo a todos os cantos.
  “O que fazer então?”Pensou.“ tenho pernas, toda liberdade e irresponsabilidade do mundo. O que fazer?”
   Vagando pela cidade se foi. A cidade não lhe parecia tão grande, mas tinha um agito diferente. Era mais intensa, tinha movimento que a sua. Olhando para o relógio, eram dez e pouco da matina. Explorando as ruas, respirando vários ares,subindo um morro de asfalto ela encontra uma roda de violão. Três jovens entediados. Mas como podiam estar se em mãos tinham um violão? Ela nunca fora uma típica guria extrovertida, mas como era uma desconhecida aos olhos de todos, lá foi ela, deu a cara a tapa, saudou a todos:
   - Opa! – acenou- Então, o que fazem de bom?
   As pessoas acharam tanto quanto estranho, do nada alguém assim, chegar. Simulando normalidade, um deles diz:
   - Nada, como pode ver. - arqueou os ombros.
   - Mas e esse violão na mão? – perguntou
   - Não sabemos tocar.
   Ela não compreendeu bem ao certo o porquê de ter em mãos um instrumento do qual ninguém sabia tocar. Pois bem, ela sabia tocar. Tirou das mãos do garoto o violão sem sua permissão. Ele ficara um pouco abismado com a atitude. Ela colocou uma das penas sobre o meio fio e apoiou o instrumento de cordas e o dedilhou. Pegando o tom, sintonizando-se, ela abre um sorriso e diz:
   - A minha manhã seria um erro sem música, assim como minha vida. - estava serena, calma - Bom, Devem conhecer essa canção.
   Olhou bem para as cordas. Começou, notas iniciais, notas certas, não errou uma. E logo soltou sua voz : “I read the news today, oh boy!” Sim, era Beatles, a day in the life. Sua voz podia não ser tão melodiosa, mas seus dedos eram exímios no que faziam. Ela tocava, o máximo que podia, não ficava parada, ela se remexia, expressava a música em suas feições. Arrancou aplausos dos jovens.
  - Como você consegue? – Perguntou a única garota da trupe.
  - Faço aulas há algum tempo, mas nada como uma audição sagaz, sempre gostei de desvendar melodias.
  Elogios rondavam a garota, graças à canção, conseguira aproximar-se. A música era sua ponte inicial.
Curiosos perguntavam da onde vinha e aonde iria. Ela apenas dizia que vinha de uma cidade qualquer, e que iria aonde sua intuição lhe levasse. Não sabia se chegaria em casa e que no momento isso pouco importava-lhe. A principio ficaram um pouco pasmos, mas como é de natureza de todo jovem, a loucura é mera parte da estrada.
   Conversaram, mostraram a cidade ela, rondaram pelos cantos, visitaram praças. Malmente chegara e já tinha seus cativos.
   Hora do almoço todos se despedem, ela é convidada pela menina alfa do grupo para almoçar em sua casa. A Garota morava em uma daquelas casas em que ficam sobre um comércio, daquelas que você entra em uma discreta porta e sobe as escadas. Ela é apresentada a mãe como uma amiga qualquer. Almoçaram na sala, sentadas no chão frente a TV. A casa era aconchegante, mas ambas tinham mais o que fazer. Rapidamente desceram as escadas. Deram uma volta, devagar iam trocando idéias.Passaram por ruas e ruas, chamaram os outros dois garotos e o violão.
   Foram para a maior praça da cidade. Pelo caminho ela observava, o céu da manhã mudara um pouco. Em meio aquelas nuvens tenebrosas, um buraco se abria, o sol incandescia em meio a abertura. Pressentia que aquele azul se expandiria em meio as nuvens, e as cinzas do dia seriam ofuscados pelo avermelhado do céu...
   Chegando ao destino, um lugarzinho simpático, arborizado, uma bela fonte central com cupidos exaltados em meio deste, bancos de mármore, e poucas pessoas caminhando por lá.
   Já passava das quatro horas, nada demais fizeram. Até que avistaram um mendigo com seu chapéu no chão, em frente a fonte, implorando por uns poucos trocados. Ela então, sem hesitar, pegou o violão, sentou-se na mureta da fonte. Seus companheiros ficaram apenas longe a observar, pensando o que ela faria. O óbvio: Começou a tocar. Tocava músicas aleatórias, musicas que vinham ao coração. Um ou outro alguém passava e jogavam algumas moedas no velho chapéu. Não parecia muito agradar embora tocasse com garra.
    Seus amigos resolvem unir-se e ajudar, junto a ela, cantavam as canções sentados ao seu lado. As pessoas agora começavam a se interessar. Começaram a ficar em volta, curiosos a olhar, minuciosos a escutar cada acorde. Foram juntando, juntando... Como se não bastasse agora todos cantavam em um só coro, iniciado por um chapéu, por uma única garota, por um único violão. Agora a melodia invadia a cidade e sobre tudo o céu se abria no final de tarde, as cores em fusão, o azul, o laranja, o vermelho, o amarelo. Pareciam por demais a fusão de músicas e pessoas. No final da canção, o chapéu cheio até as bordas, ela se ergue sobre a mureta, agradece a todos, acena, deixa o violão no chão, em fuga abandona a todos em meio à multidão que mirava a garota. Não se esqueceriam daquela jovem que fez o céu se abrir e o povo a se reunir.
   Chegou correndo o mais rápido que pode, o trem estava saindo, ela entrou sem ao menos permissão, mas conseguiu. O trem levava agora, ela de volta para casa.O sol que se punha, ainda um pouco ela pode ver as cores do dia, já que as nuvens não a afrontavam mais o insípido céu. Agora podia de fato apreciar o verde vivo da mata, as cores das flores silvestres, o marrom dos troncos, o amarelado das folhas de outono. Mais uma vez pegara seu caderninho e fizera anotações alheias, inspirando mais leve o ar. Aqueles que estavam no trem, aparentavam mais disposição e alegria.
   Ela estava no lugar certo, na hora certa, no momento certo. O que era para ser um dia não vivido, fora um dia onde seu coração pulsava, e ela sabia, entre as suas artérias corria não só seu sangue,como a vontade de continuar. Continuar tudo, o seu próprio mundo, mesmo que cinza, mesmo com cores.Bastasse vontade e um violão na mão, tudo daria certo.
   Era noite, uma noite de pontos reluzentes, estrelas... Ela chegou em casa, sabia o que lhe esperava: sua mãe. Mentiu, disse que fora à casa de fulana, mas de qualquer modo era castigo na certa. Levará um dos maiores sermões de sua vida, fora logo para o quarto. Mas pouco lhe importava, tudo valeu mais que a pena. No seu armário ela guardava seu violão. Ela fora agora para sacada, sob um céu estrelado, onde na escuridão podia se ver mais cores que nas manhãs acinzentadas.