domingo, 1 de agosto de 2010

Em quanto isso na prisão domiciliar (2)

Hoje estava certa de que escreveria um conto, eu já tinha até a idéia na cabeça. Mas durante minha caminhada ocorreu um desvio de rota, o qual eu não posso deixar de escrever a respeito. Afinal de contas, minha vida tambem é um conto
  Fora quase como uma epifania. Mas acho que não chegara tanto, epifanias ocorrem do céu, despencando para o fundo do poço, por vezes, conhecido por mim. Mas eu tenho certeza: fora nostalgia. Hoje Descobri o que é nostalgia, quando decidi mudar a rota convencional da caminhada, ao entrar pelo portão de saída da minha antiga escola, o portão dos fundos. Ele mantém sua cor original, vermelho ferrugem, a tintura descascada.

  Fui então ao gramado. Estava tão verde quanto antigamente, quando nele feito corcel corria, acreditava eu, de fato ser um, selvagem e solitário. Descubro então, parte da nostalgia é ver o que se acreditava quando criança, ser. Ando por aquele mato, devagar troco os passos, não me preocupo mais em correr. Observo então, como tudo era tão, tão grande. Mesmo sem ajoelhar, de repente posso enxergar tudo da altura que eu via. As coisas eram tão distantes das minhas mãos, tornando-as emocionantes e especiais. Minha pequenez, as pernas curtas, fazia do meu mundo, maior. O gramado era extenso, eu poderia perder-me por lá. Olho para cima ,o mesmo céu , o mesmo sol de fim de tarde com nuvens ralas, um branco quase absorvido pelo azul. As árvores, as velhas árvores... Tantas.
   Mas recordo-me de uma especial. Não pense que era especial pela beleza ou pelos frutos,não. Ela não tinha flores, o que ela tinha eram poucas, ralas folhas. O que a tornava especial era sua forma,o tronco turvo, pouco acima do chão, mas o suficiente para ser alta a uma criança do primário. Nela, todo dia eu subia, ficava lá, sentada. Era minha maior diversão, ficar a sós, só eu e ela. Por perto, tantas outras árvores, mas só nela podia se subir com pouca técnica. Recordo de um dia, na verdade uma noite, que por lá fiquei a esperar alguém me buscar. De costume era minha mãe, mas fora meu irmão. Ele não sabia que eu ficava por lá, então custou a me encontrar. Até lá, o sereno caiu, a luz do sol fora trocada pela dos postes. Mas na arvore onde eu ficava não havia poste algum. Estava escuro, mas não tinha medo, eu tinha uma arvore sob mim. Por fim, encontrou-me e para casa voltamos. Pode-se dizer que nostalgia é uma árvore, uma árvore que é apenas mais uma,mas que para você é ‘a árvore’. A que você fica sobre, a que você fica sob a sombra, a que você sobe e às vezes cai. Acho que por isso tenho uma grande fixação por elas.
  Mas essa fora apenas uma pequena parte do meu retorno ao longínquo passado. Esse se passara pelo primário, quando dar importância, não era importante. Quando tudo era o que era, e não era, já que nos olhos de criança tudo ganha um “há” a mais. Foram bons anos, quando ligar para problemas era besteira, e estar sozinho não era sinônimo de fracasso social, era estar satisfeito a própria companhia e imaginação.
  Quem disse que nostalgia é, necessariamente, coisas que se passaram anos e anos atrás? Pois quando se há grandes mudanças, o ontem pode tornar-se uma nostalgia. Voltando ao presente, lá estava eu e minhas  pernas compridas, trocando os passos sobre o gramado. Olhei para a construção da escola. Não tem nada do passado, mas isso não impede que eu veja o que até meses atrás, nas provas finais antes das férias de verão, tinha outras cores. O azul anil das paredes eram beges, mas o passeio e escadas continuam vermelhos, com o mesmo tipo de piso. Ando sobre este observo bem, o mesmo lugar onde toda minha vida eu pisei. Vou então até o portãozinho de entrada, uma espécie de grande corredor antes de chegar, de fato, dentro do colégio. As paredes deste eram azul escuro, e agora são verde escuro. E vejo a porta aberta, a porta para a entrada do pátio. Pensei em entrar, mas como nunca dou a cara a tapa, fiquei por lá, com medo de ser vista por alguém que me reconhecesse. Dessa porta, eu visei além do pátio, as redes de vôlei, as linhas azul-marinho que demarcavam os limites destas e, sobretudo, o corredores altos onde ficam as salas. Por dentro, pelo pouco que vi, nada mudou.
   Observei, aquilo tudo, tudo me fazia pensar. Tudo aquilo durante anos e anos, para ser mais exata, oito anos da minha vida eu passei por lá. Eu poderia dizer que nada, absolutamente nada daquilo me valeu. Eu. Por lá, eu era um ninguém. Eu sempre fora só mais uma, eu era a estranha, esquisita, excluída. A ridícula, impopular. Tive tantas farpas, algumas que hoje não consegui tirar, elas entraram em meus dedos e ficaram em meu corpo, atingiram, fincarm minha alma. Sai de lá, após tanta insistência. Sai de lá, sem amigos, sem deixar marca. Na certa, não faço a mínima falta. Mas por incrível que pareça, sinto uma certa falta daquele lugar, uma saudade. Sim, isso pode parecer estranho, tenho saudade sim, mas não significa que eu queira voltar para lá, de modo algum.
  Mas foram todas as farpas e estacas cravadas que fazem de mim quem eu sou. A nostalgia mostra quem você foi e agora o porquê você é. Tudo, tudo que é vivido é válido, principalmente os infortúnios e tristezas. Às vezes estes valem mais que uma alegria, afinal, você aprende mais e se torna mais. Em excesso, podem fazer você tornar-se um vilão, ou quem não souber lidar com isso, um reprimido, e ainda quem souber se abstrair disso, um pensador.
  Voltei para casa, sempre olhando aquele que um dia fora bege, que um dia, lá pertenci, mas que nunca me encontrei, e que meus desencontros e infelicidades, com outrora, algumas pontas de alegria, tornei-me quem hoje sou. Mas sei, amanhã fará do hoje, nostalgia.

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