Dias como esses deveriam ser proibidos. Dias cinzas-azul, nessa ordem, nunca o contrario. Dias que começam assim: você sai na varanda, sente a brisa, a luz reflete na pele sem que se sinta, olha para o céu e diz: “droga, hoje tem sol. Tem sol e nenhuma nuvem.” Não que não me agrade o calor, os raios solares aquecendo a derme, não. Até gosto, mas... O humor, esse tempo não combina com meu humor. Me dói ver um dia que da janela descortina a serra azul, que emoldura o céu de tom ciano , sendo que aqui, bem adentro, onde corre sangue vermelho, esta cinza, quase negro, como se por toda vida tragasse cigarros. Nunca fumei, e talvez tornar-me-ia uma viciada caso experimentasse, aquela nicotina provocaria um fugaz prazer, um dos poucos da minha vidinha estúpida.
Entrei, fugi da visão do lado oposto das paredes de casa, queria saber apenas em afundar mais e mais no poço que havia construído. Joguei meu próprio cadáver sobre o sofá daquela sala fechada que me escondia do mundo inteiro. Tudo calmo e sereno, as batidas do coração fraquejavam de acordo com o ponteiro do relógio que corria devagar. No silencio, ouço o tocar do telefone, deixo tocar. Sem vozes, hoje não as quero, quero apenas a companhia da solidão... Ela se manifesta, no barulho do ventilador de teto, na tela desligada da TV, que mesmo no semi breu, reflete umas poucas luzes.
Suspiro então... Acho que ando suspirando demasiadamente, ao longo do dia, na calada da noite. Venho observando isso desde que me peguei no ato, quando via um casal passando em minha frente. Pensei que tal suspiro soasse como “Que belo é o amor, oh!As mãos dadas!” Mas não. Pesquisei a fundo e percebi, soava mais como“ Amor... falta a minha mão a uma outra.” Invejo os casais que pela minha frente passam. Às vezes me culpo, pareço em meu inconsciente, desejar a eles o infortúnio.
Eu não queria que fosse o dissabor do outro, o meu conforto. Penso que, talvez, se pessoa melhor eu fosse, não seria necessário minha incessante procura pela desgraça alheia. Vicio-me em vilões, gosto da derrota do mocinho, da solidão da princesa condenada à torre, e quando vejo os heróis morrendo me delicio de seu destino infeliz. Mas a verdade é que não sou uma vilã. Eu sou mocinha, sou oposto do que dizem. As pessoas se dizem anjinhos que na verdade são diabos,pois eu sou o sete peles, que em sua pele ultima esconde uma aureola. Se acaso eu maldizer alguém, sei que nada mais é do que um descontentamento com meu ser, o que não posso,não tenho, não hei de conseguir. Se maldigo, logo o defeito se volta contra mim, como se minhas palavras refletissem em um espelho. E quando, na tentativa de consertar meus pensamentos, ressaltando no outro o seu bom, o meu espelho nada reflete.
Olho aquela tela nua de T.V., vejo então a minha silhueta, deitada de barriga para baixo, com o braço direito esparramado ao chão dobrando o punho, encostando as costas da mão a superfície de madeira. Não gosto daquilo que vejo. Vagamente, posso ver minhas expressões refletidas. Coloco então, minha mão direita sob o queixo. Para erguer meu braço, o tão fino, pesou como se uma bola de chumbo estivesse acorrentada a ele. Todos os membros pareciam estar.
Novamente, incessante o telefone toca. Oh céus! Porque ele veio me atormentar justo hoje? Será ele do outro lado? Não, preciso parar com essas esperanças que surgem assim, pequeninas com vontade de crescer. Não vou deixá-la se expandir, pois sei que logo embora irá, como em um sopro no dente-de-leão. Mas... Só para que esse barulho e minha curiosidade cessem, vou atender o maldito:
- Alo. - Apática ao extremo, saúdo.
-Má? É você?- uma voz masculina
- O que e quem quer? – Impaciente
-Não reconhece minha voz? É o Rodrigo, Má! Já deu uma olhada no dia que faz lá fora?
- Odiosamente azul.
Decepcionada estava, mesmo que por muito pouco, pensei que fosse ele no outro lado. Não, não era ele. Era meu primo.
- Já vi tudo, esta naqueles dias. Mas vamos lá, estou a fim de pegar a caminhonete e irmos à cachoeira. Eu, você, mais a nossa trupe. – Estava ele, em sua voz contagiante, despertando minha raiva, mas que não se manifestava em meio minha dissimulação.
- Vou desligar.
- Calma! Não! Não desliga agora. Podemos fazer outra coisa mais light, se preferir. Só não vamos desperdiçar o tempo!
- Dane-se o tempo. Aqui dentro faz chuva, e é de vento. Chuvas de vento, guarda-chuvas não impedem que me molhe.
Silencio, em ambos os lados da linha. Pensei em botar o telefone no gancho. Achei melhor não, achei melhor apertá-lo em meu ombro , e no armarinho donde fica a base do telefone, da gaveta tirei uns papeis, insensatos escritos, bobagens, um amontoado de mentiras, que quem saiba, um dia fora sinceras. Leio-os enquanto espero algum sinal de vida do outro lado. Ouço um fungar.
- Quando você fala assim, é porque tem coisa. Você não gosta de chuva, desde pequena, morre de medo de temporal. O que aconteceu?
-Nossa... – Falei com os escritos em mãos,em uma solene exclamação.
- O que?
- Palavras. Umas linhas que eu escrevi, dois anos atrás. Linhas onde escrevi coisas do tipo “para sempre”. Tolice. Nem essa folha de papel será para sempre. Um dia ela irá se degradar, ou então, mandada a uma fabrica para reciclar e perdera seu conteúdo nela escrita.
- Porque diz isso?Bobagem. Dizem que escrever é uma atividade ótima, tanto para esfriar a cabeça quanto para ocupar o tempo; O que diz? Curioso ler uma coisa assim, dois anos atrás.
- Então ta.- Ofeguei – “ Ah! Você nem imagina o que me faz! É engraçado as cócegas que me faz sem saber, faz cócegas o corpo todo, não consigo tirar esse sorriso do rosto e coração. É que as pontas dos seus dedos estão o tempo todo roçando as partes sensíveis da minha alma, como aquelas partes da minha pele, que rio a toa quando tocadas, tipo a nuca, axilas. Mas é diferente da carne.Dessa na alma, não me canso, nem me sufoco de tanto rir. Pelo contrario, só desejo mais, que meu rosto continue bobo. Em pensar que isso, penso quando você me dá um apenas um oi.”
-Que graça, escreveu isso aos...- Parou um instante, provavelmente para cálculos.- Dezessete?
- Dezesseis. Foi à primeira coisa que escrevi pensando nele. Ah, como eu me lembro! Isso foi quando descobri que tinha algo de errado com os meus batimentos cardíacos assim que ele chegava perto. Às vezes nem tão perto. Podia ele estar no final de uma rua, eu na outra ponta. Miragem de quem ama.
- Então é sobre ele que escrevia? Olha, não. Esquece, deixa para lá esse papeis, vai ser pior se você ler. Desculpe por pedir para que lesse! Não imaginava!
- Tudo bem,você não tem culpa.
Não conseguia tirar das minhas mãos daquelas folhas... E eram tantas. Continuava com os olhos, lendo as letras tão bordadas .
- Então? Espero que tenha os colocado no lugar donde deixou, ou então, em fim, tirou do alcance da sua vista, isso basta. – Parecia nervoso, cambaleava no que dizia. - Agora anda, vamos para o botequim aqui perto, eu chamo o pessoal.
- Olha essa: “Obrigada, eu fico grata por tudo, tudo mesmo. Até pelos seus defeitos, e por sua virtude de aceitar os meus. A um ano atrás, eu não sabia como era agradecer alguém só por estar ali. Ou agradecer alguém que me preocupa tanto, e que mesmo assim, faz do seu ser, um alivio para meus problemas. Eu pensava que antes de você, que não tinha mais jeito nem alguém. Mas você mostrou, tem jeito, tenho você. Ah! Você nem imagina o quanto estou feliz! Um ano com você, é da data do aniversario em que voltei a respirar, voltei a viver.Te amo !”
- Olha... Pare de ler. Não faz bem ficar vendo esse tipo de lembrança.
Desliguei. Insuportável era aquele tom de dó. Qualquer voz era. Queria me ver só, queria estar apenas com as lembranças. Era uma espécie de masoquismo ler aquilo tudo, é como escutar as musicas do Radiohead , ou qualquer outra triste em momento de aperto. Você deveria estar botando no radio, uma canção alegre para despistar o aperto. Mais não, você coloca alguma musica que só aperte mais aquele nó. É tão esquisita essa vontade de realçar um sentimento ruim.Em minha teoria, isso seria fruto do medo de ficar oca. Ser oca, às vezes é pior que essa melancolia, apesar de sufocar menos. Bem menos. Bom, ao menos sei que meus sentimentos não morreram,e isso é o que me alivia.
Vou então, folha a folha, cheias de bordas rasgadas do caderno, algumas do meu de dez matérias, outras do meu pequeno, e ainda, os menores que eram arrancados de um bloquinho. Eram tantos... Nunca lidos por ele.Sempre escrevi por mim, não tinha interesse que alguém lesse , mesmo que esse alguém fosse o mesmo em questão. Não sei qual seria sua reação se lhe mostrasse os papeis. Talvez sentisse lisonjeado, reconhecesse que era, e muito bem amado. Talvez salvasse o que ainda tínhamos, se ele lesse minhas palavras... Será? Não. Acho que um bando frases bonitinhas não salvaria nossa relação.
Mais tarde, no mesmo dia cinza-azul, Estava no quintal dos fundos. Sentada naquele piso, queimava a papelada toda, vendo a brasa nos sentimentos inseridos naqueles papeis, sentido a mesma na alma. Ficavam cinzas, logo pretejavam as folhas, já estava cinza a alma, cada vez mais escura. Olhava a fumaça, subia até o céu ainda tão limpo, sem nuvem alguma. E aquele circulo ofuscante que não posso encarar, toca minha pele torturando. Amo tempos assim, odeio dias assim. Queria meus sentimentos recíprocos com o tempo de hoje. Mas como não podia, desejava apenas que fosse de vez nublado. Seria mais fácil aceitar aquilo que me invadia por dentro.
A campainha toca. De novo, maldita pequena esperança com vontade de crescer. Atendo, ele de novo, meu primo.
- Estou queimando-os lá no fundo do quintal. Ainda faltam alguns- Respondi assim que perguntou por eles.
E nós dois nos fundos, sentados naquele chão, olhávamos aquela fogueira. Ainda conseguia ver alguma coisa nos centros ainda não invadidos pela chama. E em minhas mãos li o ultimo a se juntar ao outros.
“Estão esses dias, se tornando cada vez mais azuis, à medida que vou descobrindo o quanto te amo. E quando eu olho o que se passou desses tantos dias, tenho cada vez mais a certeza. É para sempre. Eu pensei que o mal vivido antes estar junto de você nunca passaria. Errei, em dizer nunca. Eu sinto, sinceramente sinto que estou certa do meu sempre. Estou certa de nós.”
Esse foi o ultimo que escrevi, mas exatamente semana passada antes do ocorrido. Antes de eu perder o tal encanto que fixa uma pessoa a outra. Não havia terceiros, era eu e ele. Ou seja, a culpa fora toda minha de se tornar tão sem graça de repente. Ao menos acho que seja isso.
- Então vai ou não queimar esse ultimo?
Estendia a mão sobre a fogueira mas não abri os dedos. Desisti de queimar aquele papel.
Pelo resto do dia, passei naquela sala, no sofá recebendo lenços, apoio moral e cafuné do meu primo. E de noite, sozinha, queimei com isqueiro o vestígio de amor no papel. Pena o amor não ser tão fino e frágil como papel .
Ju! Estou encantado com a beleza do texto, com a colocação das palavras, com a cronologia! Em suma, lindo, muito lindo! Beijos Juju!
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