terça-feira, 3 de agosto de 2010

Trêm das onze e meia

  É, não tinha como, aquele trabalho não fora feito para aquele homem. Ainda com um estridente sorriso postiço feito pela tinta assim como as sobrancelhas arqueadas traçadas pelo pincel sobre a base branca que recobria todo rosto, além da esfera vermelha cintilante pregada em seu nariz, aquele homem triste esperava o trem noturno, o trem das onze e meia. Ainda nem trocara seu traje Bonfante e seus sapatos exagerados, tamanho 48. A roupa, tão encantadora em suas cores, em seu tecido brilhoso de cetim, tantos babados, tão bem feita, perfeita. Mas não é a roupa que faz o bom palhaço; É o sorriso. Quando havia dito que era um homem triste, não disse que era uma coisa momentânea. Sua tristeza estava sempre a acompanhá-lo, estampada nos cantos decíduos de sua boca e naquele olhar morteiro. Por mais que a maquiagem tentasse esconder os vestígios de seu descontentamento, os vértices de seus lábios não negavam. E por vezes se via, um risco a baixo de seu olho direito, um borrado da tinta; na certa era uma lágrima que escapara, e com dedo indicador, escondera a gota.
   E naquela noite, na deserta estação, sentado no banco de madeira, ele esperava pela Maria fumaça. Havia sido despedido naquela tarde e voltar para terra natal era seu objetivo. No circo, com muito custo, ele trabalhou por dois meses. Nem sabia como aturaram um palhaço com tamanha incapacidade de sorrir, por tanto tempo. Acredite, ele tentava. Com as pontas dos dedos repuxava as maças do rosto, nada. E ninguém sabia o que havia de errado com o palhaço que não conseguia sorrir. Chegaram a pensar que fosse alguma desfiguração em seu rosto, algum nervo distendido, ou até mesmo conseqüências de algum acidente, de uma operação mal sucedida. Mas o motivo era simples: ele não sabia sorrir. Apenas isso, o não saber. Há pessoas que não sabem andar de bicicleta, outras que não conseguem resolver contas algébricas, há as que não conseguem piscar um olho de cada vez, e ainda os que não sabem rodar estrela. Pois então, aquele homem não sabia sorrir.
   Talvez não achasse motivos. Mas provavelmente era culpa da sua tristeza, às vezes, sem fundamento. Mas o que mais se vê por ai são sorrisos postiços, iguais as dos palhaços, feitos por um arco de tinta preta nos cantos da boca até a bochecha. Aqueles sorrisos que escondem faces deprimidas, que tentam alegrar o dia de ao menos quem o vê. Aqueles sorrisos, daquelas pessoas que acham que com seu problema, os outros não têm nada a ver, por isso, sorriem. Aquele homem queria ter tal dom. Mas não. Ele na certa, era um homem sincero em suas feições.
  Entediado, pegou no bolso de seu macacão, uma gaita. Tocou uma canção, daquelas que se faz do coração um mosaico. Até o canto da cigarra e o coaxar do sapo estremeceram. Tocava, era o que melhor fazia. Tocava a gaita, companheira fiel dos tímidos músicos, aquele homem tinha esse dom. Dominava ela e suas notas, percorria o som, a rua escura com uma lâmpada queimada de um poste. Minutos se passam enquanto se distraia, eis que escuta um choro. Era uma birra, era uma criança. Imediatamente parou de tocar. Ele via a pequenina, que batia pouco acima dos joelhos, se aproximar. Esfregava os olhos com a mão fechada, devagar ela vinha. Quanto mais perto, mais brilhoso tornava-se seu rosto molhado.
   Choro de criança, aquele choro barulhento, de quem ainda não sabe como esconder sua fraqueza. Um choro tão sincero quanto à feição daquele homem. Ela parou em frente a ele, parou de berrar, mas continuava desaguar e puxar o ar pelo nariz entupido. Olhava para ele, para cima, ao seu rosto, ela nada dizia. Aquele homem podia não sorrir, mas seu coração maior que qualquer sorriso. Era um coração de  cubo de gelo; Sim, de gelo. Derretia-se fácil, comovia-se com pouco. Ajoelhou-se, olhou bem a garotinha, com as luvas enxugou as lágrimas. Perguntou:
   - O que aconteceu, pequena garotinha?
  - Mamãe e papai – Falava enrolado , aos soluços – Não sei onde esta.
  - Onde você mora, minha pequenina? Se você me guiar, eu posso te ajudar.
  Ela acenou com a cabeça, respondeu “Rua do Ipê”. Ele pensou, pensou. Logo lembrara, tal rua ficava antes donde fizera seu ultimo show. Era um pouco longe dali, mas nada que não pudessem percorrer.
  Pelas ruas e avenidas, tão desertas, tal cena não parecia existir. Uma criança, uma menina de vestido balone, ao lado de um grande palhaço, todo colorido. Apenas duas boas almas que invadiam, preenchiam as calçadas. Ela saltitante, estava tão feliz, sabia que encontrara um amigo que a levasse para casa. Ele, ainda com as feições congeladas, a acompanhava com seus passos sérios, sempre em frente. Ela cantarolava, ele calado. Formavam uma imperfeita dupla perfeita. Aquilo tudo parecia até coisa de livro infantil.
   Finalmente em casa. Correndo, ela abriu o portão, passou pelo quintal, subiu os dois lances do coreto, tentou abrir a porta. Trancada. Em quanto isso, o palhaço ainda para fora do portão, a observava. Ela bateu na porta. Bateu, bateu. Seu pai abriu, aliviado, a agarrou sob as axilas e a levantou para cima, Sorriu, quase chorou de tamanha preocupação. A mãe soltara ao chão o telefone, espatifou-se, e ficou no vai vem do cordão de mola. Imediatamente, em um abraço fora ao encontro da filha. O três se abraçaram, os três juntos sorriam, lacrimavam.
  - Minha filha, minha amada filinha!Nunca mais deixe eu e mamãe preocupados! Não saberíamos o que faríamos sem você, nós te amamos muito minha filha!
  - O palhaço- disse ela.
   -O que foi?
   - O palhaço – apontou o dedo para trás dos ombros. – O palhaço me trouxe aqui.
  - Que palhaço filhota? Não há ninguém lá fora.
  É, o palhaço havia sumiudo. Pelas ruas se escutava uma gaita, mas ninguém por lá. Do nada, desapareceu.
  Alguns especulam que naquela noite, o homem palhaço pela primeira vez sorriu. Mas outros dizem que não, que por mais que ele estivesse alegre por colocar um sorriso no rosto de uma criança, ele nunca sorriria, pois nem todas as crianças ele podia fazer sorrir. Talvez fosse esse, o fundo de seu descontentamento. Ninguém mais o viu, apenas se escutava, por vezes o som de sua gaita, nas ruas, lá pelas onze meia, quando o trêm passa.

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