sexta-feira, 30 de julho de 2010

Margô

   Ele abriu o portão da garagem, ela tirou o carro. Ele trancou o portão, entre as grades me deu as chaves. Entrou no veiculo e lá se foram. Fiquei a só em casa, enquanto meus pais foram ao supermercado para fazer a compra mensal. Ainda em frente ao portão, eu olhava para a casa fronte a minha. Quer dizer, não olhava a observar, estava apenas pensando com meus botões olhando rente a ela. É essa coisa, essa de quando mergulhamos em nossos pensamentos e excluímos tudo em nossa volta. Nem reparava meu dedo indicador rodando a argola da chave, ou o velhinho que passava vagaroso pelo passeio. Estava parada, eu parecia uma sentinela, que não vigiava a casa, mas o que se passava em minha mente. Não sei por quanto tempo fiquei nesse estado, talvez mais de uma Hora. Mas sempre que me perco em minha mente, viajo por horas, sendo que na realidade não se passara nem se quer cinco minutos.
   Acordei então, e me deparei com o mundo. Droga! Odeio acordar de sonhos acesos. É terrível uma hora estar onde eu bem queria e no outro, estar onde estou. E como estou. Olhar em volta, ver a vida imutável aqui dentro. Olhar para fora das grades do portão e assistir a vida correndo, e eu aqui, pateta, parada.
  E lá no final da esquina notava um grupo de adolescentes babacas, com suas roupinhas da moda, cheios de não me toque, e aquele jeitinho “I’wanna be cool”. Lá estão eles, com suas músicas insuportáveis que ouviram ontem nas rádios, com os óculos do momento e suas conversas vazias, seus assuntos cordiais. Lá estão eles, eles e suas gírias, seu português deturpado. Fazendo gestos que aprenderam na TV, aprendendo a ser clones  mesmo quando enchem a boca a dizer “sou diferente”. Lá estão eles, no final da rua, sendo uns idiotas,Sendo... Felizes. Fiquei grudada a grade, olhando seus comportamentos, cada movimento, a expressão, o que diziam, como falavam. Tão entusiasmados, tanta energia, quantos sorrisos e risadas. Tantas amizades. Bom, se tudo aquilo é sincero, não sei. Parece que sim. E me parece que sou eu que tenho algum problema. Talvez eles não estejam errados em serem... Serem apenas adolescentes.
  E não me entendo, devo ter algum defeito, algo que afaste as pessoas. Quem saiba possa ser minha personalidade forte, que nem é tão forte assim, afinal, eu sei sim, ser maleável, me dêem um assunto, eu sei conversar. Talvez seja minha timidez , mas... Eu já vi pessoa muito, muito retraídas, que mesmo assim, tem amizades e são felizes. Bom, não pode ser o fato de eu ser, ou ao menos, me achar feia, assim, decadente, que malmente penteia o cabelo ou trata das espinhas e briga com a balança, não acho que as pessoas excluiriam alguém perante futilidades, quer dizer, não todas.Eu realmente não entendo, o que há de errado comigo? Será que não concordam com meu estilo de vida? Do que penso a respeito dela ?É, acho que meu problema, é ser um problema. Unir tantos defeitos em uma única pessoa.
  Ficar ali, olhando o mundo rodando em seu eixo normal, na direção certa, enquanto eu pegava a contramão, estava me matando. Resolvi então ir para os fundos da casa. Fechei os olhos para aquilo que me corroia, na espera de que sumisse, feito uma criança que pensa que ao fechar os olhos com as mãos a fará  desaparecer do alcance de quem a procura em um jogo de pique - esconde.
  No fundo da minha casa, um quintal quadrado, de cimento e gramado. Não muito grande, nem muito pequeno, um bom tamanho. E lá, lá na casinhola esta meu amiginho de quatro patas. Não, não é um cachorro, não é um gato, também não é um coelho. É uma ratazana. Isso mesmo, com todas as letras, e silabas, com todas suas quatro patas e bigode. Não, não é um porquinho da índia, nem um hamster. É uma ratazana. Ele se chama Margô. O Margô. Fazia um bom tempo em que ele fazia parte da família, pelo menos da minha. Meus pais nunca gostaram da idéia, mas quando vi aquela, aquela coisinha tão, tão pequenina passando por baixo do portão! Menor que a palma da minha mão. Uma bolinha preta do rabinho franzino, com olhinhos pretos que mais pareciam uma prefeita micro miniatura de uma jabuticaba... E aquele focinho rosado? Não tinha como, ele tinha que ser meu. Fora difícil convencer minha mãe, foram horas e horas de uma incessante discussão cheia de excelentes argumentos. O mais convincente e original: “Por favor, por favor, por favor! eu limpo a sujeira que ele fizer!” Por fim, consegui o que queria através de uma chata sucessão de repetições. Margô hoje é um bichano, um ratão. Mas ainda o acho tão fofinho quanto aquela coisinha que chegara a minha casa no primeiro dia.
  Fui até sua casinhola, abri a porteira e o peguei em meu colo. Sentei na cadeira de dois lugares de madeira do quintal. Nisso comecei a acariciar seu pescoço, atrás de sua orelha fina. Olhava o sol batendo no alto muro de casa. Visando o silêncio, ninguém por perto, resolvi então começar minha conversa com Margô.
  “Sabe Margô, estive pensando. Aliás, o que mais faço é pensar... Estou pensando a respeito da minha vida. Margô,olha para mim. Você gosta de mim? Eu gosto muito de você. Será que estou errada em gostar mais de uma ratazana de que alguma pessoa? Não sei não Margô. Acho que sou estranha, estranha de mais. Mas o que eu posso fazer? Sou eu. A menina esquisita que se senta no quintal enquanto seus pais estão ausentes, para conversar com um roedor. Talvez eu não devesse estar aqui, eu deveria estar saindo, indo para, sei lá, para o clube nadar e aproveitar esse dia lindo. Mas que droga! Eu não gosto de nadar. E nem acho que dias de sol são dias bonitos. Eu gosto de dias nublado. Qual o problema nisso? Ah Margô! Você sabe que eu prefiro me trancar no quarto e escutar Judas Priest. Mas se eu ficar trancafiada no quarto, eu perco tudo que há lá fora. Dizem que eu perco muitas coisas da vida. Será que estou perdendo alguma coisa importante? Talvez não esteja perdendo coisas, talvez eu esteja perdendo a própria vida...” Por um instante paro, olho ao redor,olho para casinhola e olho bem para Margô. Continuo.
  “Às vezes acho que deixo você trancafiado tempo de mais na casinhola. Isso não é nada bom. Isso é péssimo. Hey Margô, me diga, é muito ruim ficar lá? Você mora lá desde que apareceu por aqui. E eu me lembro, seus dentes eram muito, muito pequenos. Você tinha que comer a ração tão triturada, que parecia até que você comia areia. Acho que você se perdeu da sua família, quando ainda deveria estar tomando leite. Pois então, desde que você veio, você mora naquela casinhola. Faz-me lembrar do que dizem a respeito dos pássaros. Dizem que um passarinho, quando trancafiado em um gaiola no ápice de sua vida, ele morre de tristeza, morre porque perdeu sua liberdade. E dizem que quando o passarinho nasce na gaiola e é solto, em liberdade ele morre, porque se adaptou tanto a prisão que não sabe mais viver sem ela. Eu tenho medo, tenho muito medo de ser um passarinho de gaiola. Não, não quero dizer que meu quarto seja uma gaiola e eu o passarinho que não sabe viver fora dela. Quero dizer que minhas limitações me impedem de ser livre, e que estou acostumada demais com elas, e com isso vou me conformando.E será que seu eu te libertasse, você morreria Margô? Eu prefiro nem arriscar. Até porque eu gosto muito de você, e não sei ficar longe de você. Mas... Você se sentiria mais feliz em liberdade? Vagando por ai, passeando pelos esgotos, andando sobre telhados, explorando os sótãos, correndo riscos, fugindo de gatos. Você prefere ficar aqui comigo, não é? Não diga que não. Eu sei que não... Meu deus! Que diabos estou fazendo? Estou contando meus problemas a uma ratazana!” Coloquei Margô no chão indelicadamente, apoiei meus cotovelos sobre os joelhos e apoiei minha cabeça sobre as mãos. Como tudo aquilo era patético, como sou uma pateta! Era tudo tão ilógico! Conversar com um rato? Não, eu devo mesmo é ter esquizofrenia. Ratos são só bichos, bichos não pensam, bichos não falam, não perguntam ou respondem. Bichos não se comovem com o que você sente, não é culpa deles. É que bichos não raciocinam, bichos são bichos.
  Margô começou então a irritar-me ,tentando e arranhando-me, a subir pela minha perna. Dei-lhe um pontapé. Não, não. Não foi um pontapé forte, mas o suficiente para perceber que estava com raiva, raiva de mim, uma raiva que descontei nele. Ele deslizou um pouco com meu pontapé.
  Fui então para meu quarto, pelos cômodos fui deixando as portas abertas. Estava sem paciência para as maçanetas; Coloquei Motorhead para tocar. Deitei em minha cama, sem vontade de nada. Evitei falar sozinha, concentrava-me no som. Mas não consegui desconcentrar-me dos meus pensamentos. Nessas horas só lembrava os meus defeitos, eu me via em um espelho, eu olhava então refletido, uma inimiga. Sou eu minha maior inimiga. Nessas horas só queria um amigo.
  Deitada de lado ,olhando para porta, vejo então Margô. Margô nunca entrara em casa por regras impostas pelos meus pais. E quando eu vim para meu quarto, ele não me seguira, provavelmente chegou até aqui pela música. Sentei então, fiquei olhando para ele, que de pé sentia o cheiro ambiente com seu focinho incessante. Margô fora até meu encontro e novamente começou a arranhar minha perna na tentativa frustrada de subir por estas.
  “ Margô! Realmente não consigo acreditar, mesmo após um pontapé você voltou para mim!” Peguei ele em meu colo “ porquê mesmo depois de um pontapé você volta a mim? Eu não mereço.Desculpe minha grosseria, eu sempre espanto os outros com ela. Só que os outro não são irracionais como você, por isso que os racionais se afastam de mim. As pessoas tem rancor porque pensam, você não pensa. Por isso você não liga pelo mal que lhe fiz. Se você pensasse você se vingaria ou então desprezar-me-ia...Rancor. Vingança. Desprezo. É Margô, pelo visto o mal é mais racional que o bem. Mas que droga de realidade é essa? Eu não posso crer nessa conclusão, não! Até porque o mal não existe, é só a ausência do bem, já dizia Einstein. Rancor, vingança e desprezo, tem tanta falta do bem quanto o agressor que fez por merecer. Você Margô, você tem o bem dentro de você. Esqueça minha estúpida conclusão, não só a de que o bem é irracional, esqueça quando eu disse que ratos são só bichos, que bichos não pensam. De fato bichos não falam, não perguntam ou respondem. Mas o bichos se comovem sim com o que você sente. Esta ai, você, a prova disso. As vezes, ou quase sempre, as pessoas são estúpidas. Elas lhe ignoram, te julgam, jogam-te fora, descartam feito coisa em desuso. Você não. Você entendeu, te chutei e não foi por mal, foi porque não me sentia bem.”
  Mesmo sabendo que Ratazanas não são lá apreciadoras de abraços, dei-lhe um, pois não suportava a falta destes, os que nunca recebo das pessoas. Senti-me melhor, pois em seu abraço de rato tinha o bem. Na ausência de palavras, aquele animalzinho me disse muito, sem uma fala, ele me consolava. Era tudo que precisava.
   Mais tarde, quando ouço meus pais entrarem, corro para o quintal e coloco Margô em sua casinhola. De todas as coisas que me tiram a liberdade, a que mais me afetava era meu afeto, o meu apego por Margô. Resolvi deixá-lo solto, para que encontrasse alguma fresta ou buraco pelo quintal, eu não podia mais ficar dependendo dele, isso me limitava, enfraquecia. E acima de tudo, era desconfortável vê-lo em um quadrado de ferro, um cubículo, sua casinhola. Havia infinitas possibilidades de fuga.
   Dia seguinte, acordo, vou para o quintal. Ele se foi. É, acho que ele não sentia-se bem quando preso. Tudo bem, se era o que queria, que fosse assim então. Eu sentia um vazio, confesso, fiquei desconsolada, mas devia aceitar o fato que ratazanas têm um instinto selvagem, ao contrario dos hamsters. Sentei no banco de dois lugares do quintal, fiquei olhando para o muro, quer dizer, não olhava a observar, estava apenas pensando com meus botões olhando rente a ele. Mergulhei tanto em meus pensamentos, que cansada de tanto pensar, acomodei me a cadeira de tal modo que dormi. Passaram-se uma hora e pouco. Sinto algo arranhar o braço que ficara pendurado para fora da cadeira. Sim! É ele! No fundo eu sabia, Margô está tão preso a mim, quanto eu a ele. Margô não tem instinto, ele pensa. Ele sente. Um Rato que é mais humano que muita gente.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A prisão Domiciliar

Chame como quiser. Conto, desabafo, crônica, tanto faz. Em fim, é um texto diferente do que eu costumo postar.E toda vez que eu sentir a necessidade de postar algo do mesmo gênero, vou chama-lo de " A prisão domidciliar". É sobre... Bom, leia você mesmo.

   E essa sensação... Não sei bem como defini-la, não sei. Sabe aqueles dias que parecem um filme em preto e branco e você é o coadjuvante da própria vida? Pois então. Hoje nada condizia com nada, pouco importava por onde eu passasse, quais ruas e avenidas eu botasse meu pés. Não importava o que as pessoas diziam, suas falas embaralhadas em meio a multidão. E não importava o que demonstravam ou faziam . Podiam sorrir ou chorar,com as mãos esconder o choro ou exibir o sorriso. As crianças poderiam brincar, gritar, farrear, as crianças podiam ser crianças. Nada, nada condizia para mim. O choro não me comovia, a piada não me trazia gargalhadas. O bucolismo, o que me encanta, o vício dos meus escritos... Não conseguira encantar minha visão, já que hoje o verde era uma variação de cinza claro. Nem o ipê amarelo, cheio de personalidade entre as arvores iguais me dizia algo. É, hoje é um daqueles dias em que você tem a estranha sensação de não sentir. Você no máximo sente uma espécie de inveja daqueles que sentem. Você esquece de tudo, de todos, daqueles, dos outros. Você esquece de odiar o traidor, de amar aquilo que lhe move o pulso, você esquece chorar por uma mágoa, de alegrar-se por um mero prazer. Tudo porque você simplesmente não sente.
  É uma espécie de ceticismo , como se não acreditasse em nada mais que seus olhos contemplassem, ou na melodia que seus ouvidos escutassem, ou até mesmo nas palavras que sua boca pronuncia.
  A vontade é de entrar no quarto, deitar-se e não dormir. A vontade de deitar-se, olhar para o teto e esperar que algo lhe sacuda, que o faça despertar, que lhe diga: “ Não sei se você sabe, mas você esta viva!” E não, não precisa ser alguém, pois eu disse algo. Algo me faça enxergar, mas enxergar aquilo que ninguém vê. Aquilo que só eu vejo... Falta-me aquela essência, aquela que faz da simplicidade o exuberante. Que faz de uma margarida um perfume, as nuvens um quadro abstrato, que faz de um momento alheio, uma historia. Talvez essa essência chame-se inspiração. Talvez seja a inspiração a base do meu mundo. Talvez até a de todo mundo. Você não precisa ser escritor, não precisa ser poeta, músico ou pintor para compreender. Você não precisa escrever, empoetar, compor ou pintar.
  Inspiração nada mais é que sentir. Quando não a tenho, nada sinto. Não importa a música que tocar, a poesia que eu ler, meu mundo continuara apático. Diria que essa é uma das piores sensações, e ao mesmo tempo não é. Comparo-a melancolia com o não sentir, às vezes é pior. Não sentir parece um ópio da tristeza, que para não se por para baixo, fica em uma instabilidade terrível, onde nada diz a que veio. É um vazio.
  O que mais me corrói, é que nesses dias eu me perco. Eu não sei nem mais do que não gosto. Nesses dias tento desesperadamente me encontrar, tento de tudo, relembro o passado. Só encontro como resposta que não tenho um futuro. E não adianta olhar no espelho, o reflexo é invertido, portanto nunca será a imagem refletida, um fato. Você não sente mais pertencer a própria pele, você é um estranho dentro dela. E os pensamentos que rondam a sua mente quase vazia, você se pergunta onde foram parar. Não estão mais ali, se perderam.
  E o que mais incomoda: não tenho mais o que escrever. Estou vazia, as palavras escondidas. Se foram com a inspiração, com as sensações. E o que mais temo, é quando amanhecer nada disso passar, nenhuma das sensações voltarem. Mas se uma lagrima cair do meu rosto, terei uma alegria. Estou sentindo de novo. A vida ,ainda que devagar, corre pelas minha veias.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Coração de um inverno

   Fora em uma primavera que ele nascera. O clima era ameno, as arvores de exuberantes pétalas contrastavam com suas tantas folhas ao chão, que outrora caíra meses e meses atrás, durante outono, e que congelaram e se quebraram durante o inverno intenso do hemisfério norte. Os pássaros em vôo galante, formando um “V” no céu nítido, azul como o calmo lago da planície, voltavam do sul. Ele nasceu em nobre montanha, de um verde gramado, pedras cinzas e maciças. Montanha donde havia grutas, pequenas cavernas, trocos ocos e todo tipo de abrigos de pequenos animais. Mais que isso, assim que nascera ,ali na montanha, ele visou o mundo que estaria por vir, o mundo que o acolheria , os passos de suas patas que deixariam marcas pelo chão.
   Nasceu então, ele e mais uma prole, seus irmãos. Eram cinco ao total. Pequeninos, frágeis, tão vulneráveis, indefesos, assim como quaisquer outros filhotes de lobo. Pelagem felpuda, tão graciosos, de olhinhos amendoados, olhos curiosos, focinhos incessantes que queriam descobrir a essência de tudo, os perfumes das cores. Porem um destes destoava por demais dos outros. Não bastasse seus pelos em tom avermelhado, um tom de sangue, como se aquele sangue do ventre de sua mãe nunca houvesse absorvido, tinha também um comportamento estranho. Não era um lobo normal, definitivamente não. Passou-se então, Um ano e quatro meses, o suficiente para os filhotes tornarem-se jovens lobos.
   Em noites de lua cheia ele sempre, por motivos desconhecidos, uivava mais do que qualquer outro lobo da matilha. Era o uivar mais profundo que se ouvia, um uivar que tomava conta dos ventos das noites, e pela floresta das imensas sequóias percorria o som. E Ele não sabia bem como caçar. Por isso era um estorvo a matilha, quando não conseguia ajudar, atrapalhava. Não conseguia seu prumo, era um lobo sem rumo. Decidiu então o líder da matilha, expulsar aquele lobo. Todos tiveram o seu consentimento, sendo que há tempos ele era de certa forma, excluído por eles. E sua expulsão fora no final de outono, época em que as arvores despem de suas folhas e ficam seus galhos nus, apenas com suas extremidades pontiagudas, que mais pareciam arranhar céu, furar as nuvens escuras.
  Aquele dia, marcado ficou no coração do lobo dos pelos de sangue. Agora em seu coração, as artérias petrificou, seu olhar tornou-se mais sério, e de certa maneira, se fez um olhar sedento de um ódio . Desceu a montanha que antes ali visava seu futuro, uma vida inteira, e adentrou a densa floresta das sequóias. A principio sentia-se condenado, descontrolado, a passos inquietantes, rodeava as arvores que com suas copas extremamente altas fechavam o céu. Fatigado de tanto andar sem nenhum caminho para tomar, escutando o estalar do chão recoberto de folhas secas, entregou-se ao cansaço, e sobre uma pedra repousou. Uma pedra de perfeito formato para um descanso.Com sua respiração ofegante, dilatavam as costelas. Ele olhava sua volta, ninguém naquela floresta fechada, exceto as cigarras em seu canto estridente. Fora isso, apenas o barulho da brisa, as mesmas que embalavam seu uivar. Aquele dia sentira uma forte dor em seu dorso. Naquela noite ele uivou sem luar. Seu uivar nunca sofrera tanto, era um som agudo que se alastrava entre os troncos , atravessava a floresta sem que ninguém soubesse o motivo de seu sofrer. Um doer solitário. Solidão.
   Durante horas e horas da noite soturna ele ficava a lamentar, enquanto dois sentimentos dentro dele se debatiam: rancor e tristeza. Se bem que dentro dele também havia uma saudade imediata da matilha. Era difícil aceitar o fato de que os outros lobos ,dentro dele fazia a falta residir, abrindo um buraco, enquanto os mesmos perante a ele eram indiferentes. Ele não sabia fazer falta, ele não fazia falta. Nisso tudo, dele surgiu o ódio que já estava seu olhar, e que se apoderava agora do jovem lobo.
   Precisava então, parar de uivar para a lua que não enxergava, encontrar forças para sozinho, fazer o próprio caminho. No fundo já sabia seu destino. Ele foi à procura da lua, fugir das altas copas das arvores que tapavam sua visão. Ele foi para a planície, foi para o lago que era reflexo do céu assim que encontrou a saída daquela floresta sufocante. Agora sim, ele visava as estrelas e sobre tudo a lua... Era lua cheia. No céu reluzia aquele pequeno circulo, refletiram no olhar úmido do lobo. A lua entrou em seus olhos. E ele pode ver, agora era ele e sua sombra. Tudo dependeria apenas das próprias patas, de seus passos. Era hora de esquecer o passado, daquele lobo frágil. Era hora de tornar-se um lobo forte, nato caçador. Convicto, após encarar aquele circulo no céu, dera o ultimo uivar daquela noite. Dessa vez o som soava a valentia, a reconquista feito um nobre guerreiro. Sabia o que era agora: um lobo solitário. Voltou para Floresta e encontrou a mesma pedra donde dormiria.
   Manhã seguinte, os raios de luz entre os troncos e galhos entravam em vários fios. Acordou então o lobo do pelo sangue. Sentia muita fome. Era seu primeiro e decisivo teste: caçar. Se este ele realizasse com sucesso, o resto seria mero detalhe. Andava, evitava quebrar as folhas secas ao chão. Perto de um córrego avistou um filhote de servo bebendo inocentemente água. Por entre arbustos ele observava aquele ser indefeso, tão puro. Encontrava o que fazia dele um péssimo caçador: sentia dó de filhotes. Ele reconhecia que a seleção natural o fizera um caçador, um carnívoro. Mas filhotes são filhotes. Mas a fome era intensa, não hesitou: no primeiro vacilo do bichano, ele o abocanhou pelas costas e logo em seguida, sufocou-lhe o pescoço. Por perto, a mãe, deparou-se a cena com olhos brilhantes e dilatados. O lobo sentira uma certa culpa, mas não, agora ele era frio, ele deveria ser frio. Então se aproximou da mãe que afastou-se. Ele parou e ela fez o mesmo. Ela olhava para cadáver de seu pequeno e olhava o lobo imóvel a encarando no olhar que mais dizia:“ Saia, não veja tal cena. A menos que queira vê-lá se repetir”. Ela se foi entre os arbusto, sumiu. O lobo voltou a sua refeição, sua primeira, a que caçara por conta própria.
   Com o tempo, fora aprendendo a caçar todo tipo de presa, de lebres ao alces que com ele travavam batalhas, mas sobre tudo, aprendera a ter o sangue mais frio do que a neve prevista a cair em uma semana. Sim, Era inverno. Ele andava pela floresta que agora era seu lar, ele havia crescido, agora era maior, era um lobo mais corpulento pelo fato de esforçar-se mais que os lobos de matilhas, os ditos normais.
   Eis que chega a outra semana, em seu focinho sente algo gelar. Era um floco de neve. Olhou então para cima e viu milhares de pontinhos brancos, finíssimos, precipitando e cobrindo o chão que logo fizera um manto branco. Lembrou de seu ultimo inverno e neve. Esse seria seu primeiro inverno intenso a só. Ele andava deixando marcas pelo tapete branco, até algum dos muitos córregos que pela floresta cortava. Ao aproximar-se para beber daquela água, espantou-se diante da temperatura desta. Mesmo assim, entrou na água tão fria.Queria sentir algo mais gélido em seu corpo, mais gélido que seu sangue. Era água corrente, batia um pouco abaixo do dorso do lobo. Mergulhou e voltou à superfície. Revigorado, saiu de lá e fora vistoriar a outra parte da floresta. Não havia ninguém por perto, viu apenas um esquilo que freneticamente passava por lá. Sem fome, sem ter o que fazer, encontrara uma arvore com as raízes que a erguiam de tal foram que por debaixo dela formara uma perfeita “casinha”. Acomodou-se, fechou os olhos e por lá fez seu repouso.
   Horas após ele acorda. Deparou-se com a escuridão dentro de um local fechado com uma pequena fresta que entrava alguma claridade. Colocou o focinho para fora daquela fresta e as patas na parede. A parede se desfez , descobriu então que era neve, ele não havia saído do local. Com algum esforço saiu de lá. Das poucas horas que dormira, viu uma enorme diferença no cenário. O tempo estava fechado, cenário azul marinho, a tarde aparentava final de madrugada, a neve subira até metade de suas patas. Havia muito, muito branco onde quer que mirasse a visão. Continuou a patrulha, com difícil locomoção. Atento a todos os lados, aquele ser vermelho Então, repentinamente parou. Com um respirar profundo, com suas orelhas retraídas, escutava então um ganir. Tal som não estava muito longe. Foi então vasculhar, com sua audição a lhe guiar, passava por obstáculos típicos da floresta, como os troncos destroçados no chão, as tantas raízes expostas que quando calouro tropeçara muitas vezes . Por fim, chegara ao tal local e avistara um lobo preso a uma raiz pela pata esquerda traseira. Ele rodeava-o assíduo, por vezes o encarava. O lobo gania de frio, seus pelos cinzas estavam brancos pela nevasca que ocorrera enquanto o solitário dormia, estava prezo a um bom tempo. De tanto encarar, analisar o seu semelhante percebeu: era um lobo daquela matilha, era um de seus irmãos. O rancor falava mais alto, ele não comovia-se diante da cena, da hipotermia que seu irmão sofria, não comovia-se com o gelo queimando em seu pelo, não comovia-se com estalar de sua mandíbula ou ganidos. Deu-lhe as costas, e o abandonou lá. O lobo, sem mais forças, calor, ficou em silêncio, esperando que seu corpo sob o manto branco padecesse.
   O Solitário fora aos confins da floresta, lá na planície. Logo após esta havia as montanhas e os picos, fazendo fundo de paisagem. Tudo estava calmo e sereno, em seu devido local... O lobo sentia um vazio bater a porta de seu peito. Uma falta. Talvez fosse a falta de algum sentido para tudo aquilo que acontecia. Estar a só, estar ali. Estar olhando as montanhas, o entardecer daquele dia azul marinho. Mas eis que surge, pela primeira vez diante daqueles olhos já céticos, um dos maiores espetáculos da natureza, um espetáculo que uma vez presenciado, jamais há de se esquecer, um espetáculo que se faz crer no paraíso, que faz a pupila dilatar. Lá, entre as extremidades das imensas montanhas, no céu azul já escurecido, Dançavam as cores, os tons violeta, púrpura e rubro, imensa deslocavam-se, em um vai e vem de cores, fluíam, misturavam-se, mais parecia um imenso cristal que se dissolvia pelos ares. Sim, era ela, a aurora boreal. Alucinava-se o lobo diante de tal sublimidade, algo que achou injusto, egoísta demais para se contemplar a só. Seu coração disparou. As artérias congeladas aqueceram-se com os batimentos.
   Ele não tinha tempo , o mais rápido que pode adentrou a floresta em busca de seu irmão. Pelo caminho colidiu diversas vezes com as arvores, tropeçara, deparava-se ao chão, mas levantava e continuava, saltando troncos, desviando de galho inoportunos. Lá estava seu irmão. Calado, afundado na neve, apenas cabeça amostra. Começou o solitário a cavar pelas laterais, descobriu aquela camada espessa de neve sobre ele. Mas seu irmão não demonstrava movimentos. Encostou então o ouvido sobre o dorso. Ainda tinha pulso, e pelas narinas exalava vapor, não estava morto. O cutucou , lambeu sua cara. Ele abriu os olhos , então o solitário com sua mandíbula puxou a raiz, e seu irmão retirou a pata traseira de lá, porem continuava imóvel apesar de estar liberto. Começou a empurrá-lo levemente. Nada. Restou-lhe apenas uma opção: carregá-lo em suas costas. Com certa dificuldade, seu irmão foi posto sobre elas.
  Carregou-lhe cansado, com esforço, mancava, desandava, mas não desistia. Conseguiu. Lá estavam os dois, a contemplar a aurora-boreal . O lobo vermelho dera um uivar igual ao dos velhos tempos, o uivar profundo. Seu irmão dera um uivar com mistura de encantamento e agonia diante da cena... O seu ultimo. Espatifou-se seco ao chão.
  Dizem que animais não choram. Enganou-se todos aqueles que isso afirmaram. O lobo cor de sangue repousou sua cabeça sobre o pescoço de seu igual. Uma lágrima escorreu de seus olhos, terminou no pelo de seu irmão. A lagrima tornou-se gelo em meio ao pelo. Passou assim, a noite em luto, encostado naquele que por negligencia não salvara a vida.
  Amanheceu, o céu anil surgiu junto ao sol. Os corvos rodeavam o local. O lobo rosnava, encaravam os corvos. Ficou por lá, por horas acordado. Mas não adiantava, definitivamente, aquele coração não pulsava mais. Com muito custo, abandonou o corpo de seu irmão entregue as aves de rapina.
  Voltara a sua rotina, a rotina de um lobo solitário. Passou-se um mês e ele morrera. Não, não foi um urso que o matara, nem perdera batalha para um alce. Também não fora neve, o frio do inverno. O lobo solitário morrera de solidão.