quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O Ontem

  ...E o que faço aqui?
   E essa cena muda , esse quarto não tão grande, um pouco escuro, essa cama vazia. Somente eu e as lembranças da noite passada. A persiana fechada que não deixa a luz entrar, mas mesmo assim, ela tenta adentrar pelas laterais. As sombras na parede, o cabineiro ao lado que lembra gente, com um chapéu no topo e tralhas penduradas nos três braços. Pego deste o meu hobby negro, amarro apertado à cintura o cordão.De pé, com movimentos quase robóticos, visualizo o cômodo. Aqueles tons cinzas, o cobertor emaranhado, parte esparramada ao chão, parte sobre o colchão, as marcas afundadas, deixadas sobre os dois travesseiros de pena de ganso.
  Suspiro então. Vou até a janela que fica na parede acima da cabeceira da cama. Ajoelho-me sobre esta, Puxo as laminas horizontais da persiana. As cores vertiginosas me cegam, imediatamente fecho os olhos. E quer saber? Não quero saber o que há lá fora. A casa solitária agora, parecia dormir, mesmo com dia, a manhã dispersa. Todas as janelas fechadas em suas partes foscas, e sempre com aquele brilho irritante vazado pelas bordas e frestas. Fui para cozinha. Esta, as janelas são apenas de vidros, não há parte fosca para me esconder. Tendo impedir a entrada do sol, mesmo que ainda frio, com as cortinas vazadas. Por hora, fora um alívio.
   Fui à dispensa, peguei o pacote com pó de café, que estava quase em seu fim, assim como minha outrora alegria de um simples respirar. Se bem que esta já havia se acabado há muito, muito tempo. Fervia a água, arrumei o coador, coloquei aquele pó escuro, castanho escuro. Olhava ele, lembrava-me a terra por onde coloquei meus pés noite passada. Aquela rua barrenta, aquela rua sem sinal de alma alguma em pleno azul marinho do céu soturno. Aquela rua mal calçada, donde meus pés afundavam no barro úmido... “Esqueça! Por favor, tire esse filme da cabeça, troque a fita! Calma. Concentre-se na água fervendo.”
   Acrescentei açúcar, e acho que passava do ponto. Pronto, o café estava servido. Enchi a xícara, o ecoar do liquido parecia estridente. Normalmente eu me encantaria pelo aroma, aquele cheiro quente, o doce amargo do café. Mas nada eu sentia, o café perdera o odor por completo. E o sabor? Nunca tão amargo. E tenho certeza, adocei ele até demais, mas mesmo assim, amargo.
   O Deixei de lado. Apoiei os cotovelos sobre a mesa, minha cabeça sobre as mãos. Olhei para o relógio rústico na parede, herança de família, tinha ponteiros cheios de bordados e rococó, minuciosamente trabalhado.Os algarismos eram em romano e o fundo bege envelhecido. Fiquei hipnotizada, não pelos ponteiros, mas pelo ‘tic-tac’ de intervalos perfeitos. Lembrara então da noite, da terra molhada, da minha bota enlameada. Da rua, então da casa. Lembrei do frio intenso feito agulhas fincando na pele. ”Pare, eu ordeno que pare! Não pense mais, não relembre daquilo que quase se esqueceu, deixe que se esqueça.” Levantei imediatamente, bruscamente arrastei a cadeira que arranhou o piso.
   Fui para sala. A princípio sentei no sofá, cruzei as pernas, descruzei. Deitei. De lado, depois de bruços, logo mais de barriga para o teto. Estava inquieta. Novamente sentei, corcunda, com minha cabeça sobre minha mão em punho. Olho para frente, para aqueles objetos invadidos pelas penumbras. Recordo então da noite, do céu, o barro, a bota encardida, o frio. O portão, talvez de grade verde, não sei. “E por que quer se lembrar tanto daquilo que já se perdeu? Fora ontem, esqueça. Você sabe que isso não lhe acrescentará nada no final, exceto um pouco a mais de tristeza.” Fui à gaveta, peguei os maços e isqueiro. Acendi o cigarro, deixei que a fumaça se acumulasse a minha volta, como se eu quisesse sufocar-me em meio dela. Quem saiba no fundo, minha intenção fosse essa.
   E quando em meios as nuvens cinzas e finas, repente vejo uma face. É imediato, como se a força gravitacional estivesse nas paredes brancas, dou passos rápidos para trás, me debato contra ela, em seguida encontro-me ao chão. Vejo tudo então: A noite, a lama, sinto o frio, enxergo o portão ...Vejo o portão se abrir, vejo ele. O cabelo, aquele cabelo. “Pare,não chegue a conclusão de tudo isso, você sabe qual é”. Levanto, apago o cigarro no acumulado cinzeiro, dirijo-me então para o quarto.
   Querendo me desfazer por inteira, derreter em lágrimas, sufocada, com vontade súbita de gritar, seguro todo e qualquer impulso. Jogo-me na cama. Aperto o travesseiro, como se toda culpa fosse dele. Sinto algo roçar em meu braço. Um longo fio e é de cabelo. Inevitável, impossível impedir as lembranças vindo à tona, por mais que eu remasse contra a maré daquilo que não queria recordar.
    A escuridão, o vazio da rua, a bota, minha pele congelando junto ao vento, o portão verde talvez, o abrir deste, ele. O cabelo, o cabelo dele, o fio em minha mão. Um fio longo, ondulado, quando agarrado aos maços, macio. Eu pude sentir ontem quando agarrava com vontade sua nuca e ela a minha. Mas antes, as formalidades. Ele me disse ola, eu correspondi seu comprimento e logo mais seu convite para entrar. Ele colocou whisky no copo, virei um, três, nem sei quantos copos. Eu disse que não estava bem, e queria voltar para casa. Eu sai, por ai fui perambulando, e atrás de mim, ele e seu carro. Ofereceu-me carona, me deixou na porta de casa. Disse que queria ficar sozinha, mas ele disse que não. Eu Pedi para que me deixa-se a só, mas ele se opôs. Ele disse que nunca mais poderia me encontrar, ele estava de passagem pela cidade, e quando amanhecesse ele iria à rodoviária, para nunca mais voltar. Disse mais, falou que gostara desse meu jeito, até dos meu terríveis defeitos. Do meu desprendimento, desse meu jeito “nem ai”. Gostava das minhas mãos de esmalte descascado, das pontas duplas do meu cabelo , da maquiagem de olhos marcados.Lisonjeada, Sem o que dizer, disse apenas que gostava muito do seu cabelo. Descontrolada, chego então do ponto em que falei que agarrava com força o seu cabelo e ele o meu. É, então começa aquela velha historia, iniciam-se beijos em frente a porta, e a noite termina na cama. Oh céus! Que noite fora aquela...
   Normal seria estar feliz. Mas não, eu não sei ser fácil e me contentar com pouco. E agora, aqui, deitada nessa cama vazia e desarrumada, descubro que não sou tão desprendida como pensasse que fosse, e acho que não sou tão “nem ai”. Acho que me apaixonei, e por isso agora estou triste. Eu não precisava lembrar que uma das minhas melhores noites se foi.

Nenhum comentário:

Postar um comentário