Fora em uma primavera que ele nascera. O clima era ameno, as arvores de exuberantes pétalas contrastavam com suas tantas folhas ao chão, que outrora caíra meses e meses atrás, durante outono, e que congelaram e se quebraram durante o inverno intenso do hemisfério norte. Os pássaros em vôo galante, formando um “V” no céu nítido, azul como o calmo lago da planície, voltavam do sul. Ele nasceu em nobre montanha, de um verde gramado, pedras cinzas e maciças. Montanha donde havia grutas, pequenas cavernas, trocos ocos e todo tipo de abrigos de pequenos animais. Mais que isso, assim que nascera ,ali na montanha, ele visou o mundo que estaria por vir, o mundo que o acolheria , os passos de suas patas que deixariam marcas pelo chão.
Nasceu então, ele e mais uma prole, seus irmãos. Eram cinco ao total. Pequeninos, frágeis, tão vulneráveis, indefesos, assim como quaisquer outros filhotes de lobo. Pelagem felpuda, tão graciosos, de olhinhos amendoados, olhos curiosos, focinhos incessantes que queriam descobrir a essência de tudo, os perfumes das cores. Porem um destes destoava por demais dos outros. Não bastasse seus pelos em tom avermelhado, um tom de sangue, como se aquele sangue do ventre de sua mãe nunca houvesse absorvido, tinha também um comportamento estranho. Não era um lobo normal, definitivamente não. Passou-se então, Um ano e quatro meses, o suficiente para os filhotes tornarem-se jovens lobos.
Em noites de lua cheia ele sempre, por motivos desconhecidos, uivava mais do que qualquer outro lobo da matilha. Era o uivar mais profundo que se ouvia, um uivar que tomava conta dos ventos das noites, e pela floresta das imensas sequóias percorria o som. E Ele não sabia bem como caçar. Por isso era um estorvo a matilha, quando não conseguia ajudar, atrapalhava. Não conseguia seu prumo, era um lobo sem rumo. Decidiu então o líder da matilha, expulsar aquele lobo. Todos tiveram o seu consentimento, sendo que há tempos ele era de certa forma, excluído por eles. E sua expulsão fora no final de outono, época em que as arvores despem de suas folhas e ficam seus galhos nus, apenas com suas extremidades pontiagudas, que mais pareciam arranhar céu, furar as nuvens escuras.
Aquele dia, marcado ficou no coração do lobo dos pelos de sangue. Agora em seu coração, as artérias petrificou, seu olhar tornou-se mais sério, e de certa maneira, se fez um olhar sedento de um ódio . Desceu a montanha que antes ali visava seu futuro, uma vida inteira, e adentrou a densa floresta das sequóias. A principio sentia-se condenado, descontrolado, a passos inquietantes, rodeava as arvores que com suas copas extremamente altas fechavam o céu. Fatigado de tanto andar sem nenhum caminho para tomar, escutando o estalar do chão recoberto de folhas secas, entregou-se ao cansaço, e sobre uma pedra repousou. Uma pedra de perfeito formato para um descanso.Com sua respiração ofegante, dilatavam as costelas. Ele olhava sua volta, ninguém naquela floresta fechada, exceto as cigarras em seu canto estridente. Fora isso, apenas o barulho da brisa, as mesmas que embalavam seu uivar. Aquele dia sentira uma forte dor em seu dorso. Naquela noite ele uivou sem luar. Seu uivar nunca sofrera tanto, era um som agudo que se alastrava entre os troncos , atravessava a floresta sem que ninguém soubesse o motivo de seu sofrer. Um doer solitário. Solidão.
Durante horas e horas da noite soturna ele ficava a lamentar, enquanto dois sentimentos dentro dele se debatiam: rancor e tristeza. Se bem que dentro dele também havia uma saudade imediata da matilha. Era difícil aceitar o fato de que os outros lobos ,dentro dele fazia a falta residir, abrindo um buraco, enquanto os mesmos perante a ele eram indiferentes. Ele não sabia fazer falta, ele não fazia falta. Nisso tudo, dele surgiu o ódio que já estava seu olhar, e que se apoderava agora do jovem lobo.
Precisava então, parar de uivar para a lua que não enxergava, encontrar forças para sozinho, fazer o próprio caminho. No fundo já sabia seu destino. Ele foi à procura da lua, fugir das altas copas das arvores que tapavam sua visão. Ele foi para a planície, foi para o lago que era reflexo do céu assim que encontrou a saída daquela floresta sufocante. Agora sim, ele visava as estrelas e sobre tudo a lua... Era lua cheia. No céu reluzia aquele pequeno circulo, refletiram no olhar úmido do lobo. A lua entrou em seus olhos. E ele pode ver, agora era ele e sua sombra. Tudo dependeria apenas das próprias patas, de seus passos. Era hora de esquecer o passado, daquele lobo frágil. Era hora de tornar-se um lobo forte, nato caçador. Convicto, após encarar aquele circulo no céu, dera o ultimo uivar daquela noite. Dessa vez o som soava a valentia, a reconquista feito um nobre guerreiro. Sabia o que era agora: um lobo solitário. Voltou para Floresta e encontrou a mesma pedra donde dormiria.
Manhã seguinte, os raios de luz entre os troncos e galhos entravam em vários fios. Acordou então o lobo do pelo sangue. Sentia muita fome. Era seu primeiro e decisivo teste: caçar. Se este ele realizasse com sucesso, o resto seria mero detalhe. Andava, evitava quebrar as folhas secas ao chão. Perto de um córrego avistou um filhote de servo bebendo inocentemente água. Por entre arbustos ele observava aquele ser indefeso, tão puro. Encontrava o que fazia dele um péssimo caçador: sentia dó de filhotes. Ele reconhecia que a seleção natural o fizera um caçador, um carnívoro. Mas filhotes são filhotes. Mas a fome era intensa, não hesitou: no primeiro vacilo do bichano, ele o abocanhou pelas costas e logo em seguida, sufocou-lhe o pescoço. Por perto, a mãe, deparou-se a cena com olhos brilhantes e dilatados. O lobo sentira uma certa culpa, mas não, agora ele era frio, ele deveria ser frio. Então se aproximou da mãe que afastou-se. Ele parou e ela fez o mesmo. Ela olhava para cadáver de seu pequeno e olhava o lobo imóvel a encarando no olhar que mais dizia:“ Saia, não veja tal cena. A menos que queira vê-lá se repetir”. Ela se foi entre os arbusto, sumiu. O lobo voltou a sua refeição, sua primeira, a que caçara por conta própria.
Com o tempo, fora aprendendo a caçar todo tipo de presa, de lebres ao alces que com ele travavam batalhas, mas sobre tudo, aprendera a ter o sangue mais frio do que a neve prevista a cair em uma semana. Sim, Era inverno. Ele andava pela floresta que agora era seu lar, ele havia crescido, agora era maior, era um lobo mais corpulento pelo fato de esforçar-se mais que os lobos de matilhas, os ditos normais.
Eis que chega a outra semana, em seu focinho sente algo gelar. Era um floco de neve. Olhou então para cima e viu milhares de pontinhos brancos, finíssimos, precipitando e cobrindo o chão que logo fizera um manto branco. Lembrou de seu ultimo inverno e neve. Esse seria seu primeiro inverno intenso a só. Ele andava deixando marcas pelo tapete branco, até algum dos muitos córregos que pela floresta cortava. Ao aproximar-se para beber daquela água, espantou-se diante da temperatura desta. Mesmo assim, entrou na água tão fria.Queria sentir algo mais gélido em seu corpo, mais gélido que seu sangue. Era água corrente, batia um pouco abaixo do dorso do lobo. Mergulhou e voltou à superfície. Revigorado, saiu de lá e fora vistoriar a outra parte da floresta. Não havia ninguém por perto, viu apenas um esquilo que freneticamente passava por lá. Sem fome, sem ter o que fazer, encontrara uma arvore com as raízes que a erguiam de tal foram que por debaixo dela formara uma perfeita “casinha”. Acomodou-se, fechou os olhos e por lá fez seu repouso.
Horas após ele acorda. Deparou-se com a escuridão dentro de um local fechado com uma pequena fresta que entrava alguma claridade. Colocou o focinho para fora daquela fresta e as patas na parede. A parede se desfez , descobriu então que era neve, ele não havia saído do local. Com algum esforço saiu de lá. Das poucas horas que dormira, viu uma enorme diferença no cenário. O tempo estava fechado, cenário azul marinho, a tarde aparentava final de madrugada, a neve subira até metade de suas patas. Havia muito, muito branco onde quer que mirasse a visão. Continuou a patrulha, com difícil locomoção. Atento a todos os lados, aquele ser vermelho Então, repentinamente parou. Com um respirar profundo, com suas orelhas retraídas, escutava então um ganir. Tal som não estava muito longe. Foi então vasculhar, com sua audição a lhe guiar, passava por obstáculos típicos da floresta, como os troncos destroçados no chão, as tantas raízes expostas que quando calouro tropeçara muitas vezes . Por fim, chegara ao tal local e avistara um lobo preso a uma raiz pela pata esquerda traseira. Ele rodeava-o assíduo, por vezes o encarava. O lobo gania de frio, seus pelos cinzas estavam brancos pela nevasca que ocorrera enquanto o solitário dormia, estava prezo a um bom tempo. De tanto encarar, analisar o seu semelhante percebeu: era um lobo daquela matilha, era um de seus irmãos. O rancor falava mais alto, ele não comovia-se diante da cena, da hipotermia que seu irmão sofria, não comovia-se com o gelo queimando em seu pelo, não comovia-se com estalar de sua mandíbula ou ganidos. Deu-lhe as costas, e o abandonou lá. O lobo, sem mais forças, calor, ficou em silêncio, esperando que seu corpo sob o manto branco padecesse.
O Solitário fora aos confins da floresta, lá na planície. Logo após esta havia as montanhas e os picos, fazendo fundo de paisagem. Tudo estava calmo e sereno, em seu devido local... O lobo sentia um vazio bater a porta de seu peito. Uma falta. Talvez fosse a falta de algum sentido para tudo aquilo que acontecia. Estar a só, estar ali. Estar olhando as montanhas, o entardecer daquele dia azul marinho. Mas eis que surge, pela primeira vez diante daqueles olhos já céticos, um dos maiores espetáculos da natureza, um espetáculo que uma vez presenciado, jamais há de se esquecer, um espetáculo que se faz crer no paraíso, que faz a pupila dilatar. Lá, entre as extremidades das imensas montanhas, no céu azul já escurecido, Dançavam as cores, os tons violeta, púrpura e rubro, imensa deslocavam-se, em um vai e vem de cores, fluíam, misturavam-se, mais parecia um imenso cristal que se dissolvia pelos ares. Sim, era ela, a aurora boreal. Alucinava-se o lobo diante de tal sublimidade, algo que achou injusto, egoísta demais para se contemplar a só. Seu coração disparou. As artérias congeladas aqueceram-se com os batimentos.
Ele não tinha tempo , o mais rápido que pode adentrou a floresta em busca de seu irmão. Pelo caminho colidiu diversas vezes com as arvores, tropeçara, deparava-se ao chão, mas levantava e continuava, saltando troncos, desviando de galho inoportunos. Lá estava seu irmão. Calado, afundado na neve, apenas cabeça amostra. Começou o solitário a cavar pelas laterais, descobriu aquela camada espessa de neve sobre ele. Mas seu irmão não demonstrava movimentos. Encostou então o ouvido sobre o dorso. Ainda tinha pulso, e pelas narinas exalava vapor, não estava morto. O cutucou , lambeu sua cara. Ele abriu os olhos , então o solitário com sua mandíbula puxou a raiz, e seu irmão retirou a pata traseira de lá, porem continuava imóvel apesar de estar liberto. Começou a empurrá-lo levemente. Nada. Restou-lhe apenas uma opção: carregá-lo em suas costas. Com certa dificuldade, seu irmão foi posto sobre elas.
Carregou-lhe cansado, com esforço, mancava, desandava, mas não desistia. Conseguiu. Lá estavam os dois, a contemplar a aurora-boreal . O lobo vermelho dera um uivar igual ao dos velhos tempos, o uivar profundo. Seu irmão dera um uivar com mistura de encantamento e agonia diante da cena... O seu ultimo. Espatifou-se seco ao chão.
Dizem que animais não choram. Enganou-se todos aqueles que isso afirmaram. O lobo cor de sangue repousou sua cabeça sobre o pescoço de seu igual. Uma lágrima escorreu de seus olhos, terminou no pelo de seu irmão. A lagrima tornou-se gelo em meio ao pelo. Passou assim, a noite em luto, encostado naquele que por negligencia não salvara a vida.
Amanheceu, o céu anil surgiu junto ao sol. Os corvos rodeavam o local. O lobo rosnava, encaravam os corvos. Ficou por lá, por horas acordado. Mas não adiantava, definitivamente, aquele coração não pulsava mais. Com muito custo, abandonou o corpo de seu irmão entregue as aves de rapina.
Voltara a sua rotina, a rotina de um lobo solitário. Passou-se um mês e ele morrera. Não, não foi um urso que o matara, nem perdera batalha para um alce. Também não fora neve, o frio do inverno. O lobo solitário morrera de solidão.
Sem dúvida um dos melhores contos que já li!
ResponderExcluirQuero ilustra-lo!
Ou melhor, quero fazer uma animação em desenho deste conto!
Só que eu queria que tivesse mais coisas.