A avenida corria tão longa e deserta... Tão vazia. Era madrugada, os poucos postes em seus focos de luz, iluminavam parte da suma escuridão de cada esquina. Fora isso, era um breu sem fim. Fazia frio, muito frio... Daqueles que alfineta a pele, que faz a coluna vertebral estremecer, que faz os ombros se curvarem, que faz as ventanas e boca soltarem um nítido vapor.
Por essa avenida, lá estava um rapaz de pele muito branca, pele polar, de cabelo mel, de barba mal feita, que na tentativa de despistar o frio, vestia blusas e blusas, um cachecol, um desses gorros com uma pequena esfera na ponta, luvas pretas...Caminhava a passos lentos, trocava vagarosamente os pés, os sapatos negros em verniz. Cabisbaixo, olhava para o chão, observava a calçada de tons pasteis que pela madrugada eram alaranjados graças a luz dos postes. A mesma calçada era relativamente alta, no meio fio ele se sentou.
Olhou para os lados, nada,ninguém... Podia se ouvir o canto da cigarra, por vezes algum carro vagando... Fora isso, havia apenas um ecoar chamado silêncio. Vendo-se só, sem ninguém a observá-lo, não hesitou; O jovem rapaz se pós a chorar.
A princípio, seu choro se equiparava a sonoridade da avenida, eram lágrimas que escorriam mudas em seu rosto quase congelado. Ele olhava para o nada, olhava para a calçada a frente, onde graças à falta de alguma luz, era apenas um buraco negro. Começou a estalar a boca freneticamente, fechava os olhos, bufava uma nuvem branca. Ele olhava para o céu, por vezes, olhava o triste espetáculo da natureza: as estrelas. Como podiam essas mesmas aparecer justamente nas noites mais gélidas? Ele olhava tantos pontinhos, olhava tão fixamente, parecia enxergar o universo em toda sua imensidão. Com isso, ele sentia-se menor ainda, sentia-se diminuir.
Suspirou, soluçou.Tapou sua face com suas mãos aquecidas pelas luvas, deixava apenas seu nariz visível. Ficou assim por minutos, típico ato de quem esta frustrado. O tempo podia estar abaixo de zero, mas nada se equiparava ao que por dentro sentia o rapaz. Abaixo da epiderme tudo estremecia. Por dentro sua solidão o corroia. Ele sentia falta de algo, alguém, falta de sentido, motivos, falta de esperança, auto-confiança. Podia-se dizer que até de si, sentia falta. Nada o preenchia, nada. Vácuo sem fim.
Novato na imensa cidade, ele esperava o ônibus para sua faculdade. Esta ficava no outro lado, motivo de seu despertar, assim tão cedo em pleno escuro. Esperava, esperava... Chorava. Por um instante, cessou as águas. Levantou-se, encostou sob um poste. Pensava em todos aqueles que em sua pequena cidade deixara, seus pais e seu único amigo, seu primo. Naquela nova cidade, nova realidade, ainda não conseguira se relacionar com ninguém. Era um rapaz fechado, feito uma concha, uma caixa que tinha medo de ser aberta por alguém e por dentro deparar-se com vazio. Sua vida tornava-se cada vez mais densa, mais embasada diante de seus olhos. Incidia dele, a vontade de sumir de vez, pois sua vontade de ser alguém, fazia dele o nada. Eis seu principal motivo de frustração.
Para ele, nada mais fazia sentido. Enxergava-se como apenas mais um, um ninguém, que tinha apenas como campânia a própria sombra, que aliás, essa o abandonava em meio as penumbras onde se difundia. Pelo visto, nem mesmo a própria sombra queria estar junto a ele. O coração se apertava, ele lutava contra a própria personalidade, aquela que ele não gostava, aquela que fazia dele o próprio desgosto .
Eis que na outra esquina, no virar de seu rosto, avistou um cachorro. Não era um cão atraente, não se tratava de um daqueles de pelagem macia, felpuda, de olhos brilhosos, de patinhas delicadas ou orelhas ouriçadas, não , pelo contrario. Era um cachorro de pelagem irregular , encardida, de orelhas desnudas, com cauda imóvel. Estava tão cabisbaixo quanto o rapaz, seu focinho quase tocava o chão imundo. Ele deitou e encolheu-se encostado a parede de um estabelecimento, obviamente fechado.
O rapaz observou bem o animalzinho... Sentiu algo diferente perante a ele. Por motivo incerto foi ao encontro dele. Agachou-se, estava bem perto do cachorro. A princípio apenas olhou com certa pena o animal. Ele sentiu no olhar fosco deste, a tristeza. O animal olhou para ele. Ruidosamente, o rapaz aproximou sua mão a sua cabeça. Ao contrario do que se esperava, o cachorro não o evitou nem desviou, muito pelo contrario; Aproximou-se mais ainda.
Enquanto acariciava o animal da cabeça ao dorso, o bichinho fechava os olhos e soltava ganidos, ganidos finos, ganidos profundos... Aqueles ganidos que doíam o coração, que gemiam da solidão... Descobriu então o rapaz, a dor do animal; não era frio, não era fome. Era o isolamento, era a dor de não ter com quem contar, a dor de estar só em um momento alheio e em todos os instantes. A dor de olhar os passos juntos a sua frente e se deparar ao próprio passo solitário.
Novamente, dos olhos as lágrimas precipitavam, dessa vez acompanhados de fortes soluços, altos, quem saiba acordasse alguém na casa ao lado. Juntos, cão e homem, compartilhavam da mesma sensação. Em sintonia, ambos amenizavam a melancolia do outro... No final das contas, aquele rapaz sentiu-se melhor, bem melhor, acredite. O contato com outro, mesmo não sendo de sua espécie, fizera tão bem quando o acolher de uma pessoa, isso se não fosse ainda melhor... Animais são sinceros, animais não mentem. Dão valor a que sabe que os merecem. Se achasse que aquele homem não merecesse sua Campânia, na certa o evitaria.
O ônibus chegou, correndo de volta ao ponto, o cachorro segue o rapaz. Porem,eis que ambos devem se despedir. O animalzinho, tristonho ainda ganindo, sentado, olha fixo o rapaz subindo as escadas do ônibus. O rapaz por sua vez, senta-se a janela, se espreme ao vidro observando o cachorro. O ônibus parte, e até certo ponto o bichano o persegue, sempre olhando a janela embaçado onde estava seu amigo. Assim que se depara com o fato de que não alcançaria mais o ônibus, encontra algum canto escuro para lastimar sozinho, enquanto dentro do ônibus o rapaz se lastimava solitário em meio a outras pessoas que lhe eram invisíveis. Nunca mais se encontraram, mas daquele sentimento, ambos também nunca esqueceram.
sábado, 10 de julho de 2010
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Carta Platônica (2)
Fora um abraço, um único. Fora ‘aquele’ abraço. Fora envolvente, não fora forte, mas o suficiente. Duraram quem saiba, uns cinco segundos, mas em mim, o toque dos braços ficaram por mais de cinco horas... Ah, doce lembrança! Você abriu teus braços, eu sorri, eu abri os meus, então o aperto, o encontro dos corpos. Sabia que seria um pequeno, apenas um abraço, mas para mim fora intenso e para você, apenas mais um. Seu rosto ao lado do meu, seus cabelos perto dos meus. Eu queria minha face virar, eu queria melhor em tua pele tocar. Eu queria dar-lhe um beijo em teu rosto. Confesso, sim, eu tentei. Quase meus lábios as maçãs tocaram, mas não consegui. Você soltou-me daqueles que me envolviam. Você, eu, nós dois sorrimos. Frente um ao outro, nos despedimos. Você se foi. Novamente, tudo o que desejava eram mais alguns segundos de seu calor, mas você se foi... Como queria ,mais uma vez, ao menos mais uma única vez, abraçar-te e dessa vez mais forte, mais intenso. Dessa vez, que minhas mãos em suas costas,percorresse a sua nuca, acariciasse esse teu cabelo espesso, macio, tão negro. Afagos e afagos... Dessa vez, repousaria minha cabeça em seu pescoço, sobre teu colo. Você me envolveria de tal maneira, que não abandonaria até que me recuperasse, sentisse segura. Você seria a minha segurança, minha sina, manter-me-ia em um constante silêncio, onde as meras palavras não fariam impacto, pois o importante estaria no encontro, no entrelaçar de nossos braços. Seria isso, ou mesmo algo a mais, talvez fosse tudo, o meu pequeno mundo se tornaria menor ainda...Ah! Queria que não ficasse só em minha vontade, desejo. No entanto, em meu mundo terreno, sinto frio e insegurança, sinto carência daquele abraço que nunca dei e recebi.
Voe até aqui, por favor, saibas que preciso muito de ti agora.
Voe até aqui, por favor, saibas que preciso muito de ti agora.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Sextas de serenatas
Quase seis horas, malmente me arrumara. Era sexta-feira, a minha rotineira. Desta, eu estava atrasado do meu compromisso. Insegurança, diante do espelho, o meu cabelo bagunçado não tinha mesmo jeito, sempre armado, sempre desarrumado. Mas não importava,dizia que deste ela gostava assim, desalinhado. Então, que não fosse diferente. Agora não encontrava os meus sapatos que tão bem engraxados foram por mim. Procurava, procurava. De baixo das camas, na sapateira, por entre as cadeiras da sala... Não encontrava os malditos sapatos! Estavam perfeitos, toda sexta eles estavam impecáveis,mas por algum motivo, os perdi. Tudo bem, coloquei minha velha sandália de couro, as que tenho desde os dezessete. Procurei por uma camiseta que fosse elegante. Que nada, em minha gaveta só trapos. Coloquei uma qualquer, coloquei a minha xadrez de gola descosturada. Coloquei meu Jeans. Voltei ao espelho, mas que desleixo! Em uma sexta-feira, nunca me arrumara tão mal!
Eu não tinha tempo para detalhes. Peguei meu violão, aquele que deixo no cantinho da parede do meu quarto, junto às partituras e escritos espalhados pelo chão. Mão no violão, às pressas eu sai. Correndo, desvairado, pelas ruas eu passava, pessoas a me observar, na certa pensavam: “ Aonde vai tal rapaz insano?”
E essa era a verdade, eu era um louco. Um louco, de um tolo coração. Meus pés me levavam até o caminho da casa dela. A casa sem grades, a casa de dois andares, de tijolos muito vermelhos, de janela branca. Do passeio de única árvore, árvore de outono, de folhas amarelas, folhas secas que com a brisa, suave sobre a calçada repousavam.
Sob sua janela eu estava, minha companhia , meu violão. E comecei com o tom que ela gosta, aquelas notas, a antiga canção. Seu nome eu aclamava, pedia seu ar da graça, que levantasse seu vidro para que eu pudesse ver seu lindo rosto. Ela faz graça, ela enrola. Era seu charme: devagar ela aparece, mas logo em seguida, ela desaparece. Fica no vai e vem, como quem nada quer. Finalmente, ela aparece de vez à janela... Ah, mas que moça! Aquele cabelo longo, aquele tão liso, castanho intenso, a malícia de seu doce sorriso... Seu olho, seu olhar, amendoados, tão pretos, me perdia neles como se fossem a própria escuridão.
Hoje, inseguro eu tocava, com minhas roupas simples ao contrario do que se era de costume, eu fazia sua serenata. Ela apoiava seu pequeno e delicado queixo a sua mão tão bem feita. Ela ria, olhava-me como um bobo, ela gostava. Eu lhe dava um largo sorriso, fazia de mim seu vassalo, eu a amava. Após tantas canções, tantos acordes, após tanto tempo de pé, na calçada a se mostrar involuntariamente ao público que passava, quando a verdadeira platéia estava na janela, ela desce. Ansioso, espero na porta com o violão repouso ao chão. Ela devagar abre a porta. Ficamos sem graça diante um ao outro.
Explico-lhe o porquê de minhas roupas, já que toda sexta-feira, nos mínimos detalhes apareço. “Que nada” ela diz.
Ela não liga, moça de simplicidade, ela gosta dos meus cabelos armados, ela gosta da minha música, o que sei fazer com um violão. Quem saiba ela goste de mim...Ou não. Ela nunca me convida para entrar. Ela joga um papo fora, ela passa a mão em seus cabelos, ela envolve meu olhar... Ela se encosta na porta, se joga, ela coloca a mão em sua cintura fina, tapa as risadas tímidas só para fazer manha. Mas nunca faz um convite. No final, na despedida, sempre um abraço, nunca um beijo.
Essa sexta não foi diferente das outras tantas feiras. Eu perdia cada vez mais as esperanças, mas enquanto eu pudesse as cordas dedilhar e a minha voz cantar, lá eu estaria, clamando por seu amor.
Era noite, voltava para casa. Sobre o telhado, sob o frio, sob as luzes do céu estrelado, fazia uma música, uma que cantasse ela. Era um blues, era um rock, era ela. Tudo a remetia: o céu escuro lembrava os olhos dela, as arvores de folhas finas que na ventania esvoaçavam pareciam suas madeixas, o silêncio da noite lembrava o vácuo entre nós. Oh, minha coita! Porque o amor é sempre assim? Tão certo e tão inseguro... Porque nos traz um certo conforto e ao mesmo tempo em que não nos conformamos com a carência quando ausente, ou assim como eu, por não ter a amada. Um jogo de preenchido e vazio... Sentado, agora eu me deitava, eu a imaginava ao meu lado. Compartilhando a friagem e sereno, compartilhando abraços, os calor entre dois corpos... Doce ilusão.
Agora, a próxima sexta-feira, semana seguinte. Dessa vez, tudo definido, os sapatos, a camiseta elegante... Mas os cabelos sempre armados, todo desarrumado. Novamente, eu e meu violão sob aquela janela. Eu iniciava a serenata, enquanto timidamente ela surgia, aos poucos aparecia... Mas dessa vez algo mudou. E muito .Bruscamente os vidros se abriram, de lá, eu saíra encharcado, a água fria de um balde fora jogado. Foi então, avistei alguém, vi um rapaz... O rapaz estava junto dela, estava com ela. Ele ria, ria muito. Eu vi ela. Nada fazia, se não olhar-me dissimulada, feição de quem tinha pena apenas. O cara era burguês, era um homem, na verdade quase um moleque. Era o típico o encantador, que entre seus jogos e cantadas, seduzia a qualquer moça bonita. Ele colocou suas mãos envolta sua cintura e saíram da janela, da minha visão... Mas ela ainda olhou para traz, com seus dois pontos pretos mirou-me, parecia dizer:“desculpe”.
A água era fria, mas não mais do que aquilo que por dentro sentia... Que injustiça! Ah, se ela soubesse o quanto por ela eu sofro! Por quantas vezes a desejei, quantas canções levaram seu nome, quantos acordes pensados em nela... No entanto apenas com as suas migalhas eu me contentava... Já falei o quão injusto é o amor? Ela por sua vez, aposto que para meu cabelo nem ligava, pouco a importava se usava sapatos ou sandálias. Ela nunca gostou de mim. Quem saiba gostasse daquilo que meus dedos e voz faziam, mas não era a minha pessoa que ela desejava...
Para casa, cabisbaixo, pela calçada respingava, as pessoas a me observar na certa pensavam: “ Donde voltara esse rapaz encharcado?”
Eu voltava de um lugar, de uma calçada, onde não haveria de esquecer meus sentimentos, aqueles que por mais sublimes que fossem, não compatiam a música. Sozinho fiquei, pela noite, minhas lágrimas eu cessei. Eu tinha um coração partido, mas também tinha um violão em mãos. As cordas podiam não conseguir re-costurar meu coração, mas do som eu fazia o meu ópio. Ficaram em mim as serenatas. Músicos são eternos seres apaixonados.
Eu não tinha tempo para detalhes. Peguei meu violão, aquele que deixo no cantinho da parede do meu quarto, junto às partituras e escritos espalhados pelo chão. Mão no violão, às pressas eu sai. Correndo, desvairado, pelas ruas eu passava, pessoas a me observar, na certa pensavam: “ Aonde vai tal rapaz insano?”
E essa era a verdade, eu era um louco. Um louco, de um tolo coração. Meus pés me levavam até o caminho da casa dela. A casa sem grades, a casa de dois andares, de tijolos muito vermelhos, de janela branca. Do passeio de única árvore, árvore de outono, de folhas amarelas, folhas secas que com a brisa, suave sobre a calçada repousavam.
Sob sua janela eu estava, minha companhia , meu violão. E comecei com o tom que ela gosta, aquelas notas, a antiga canção. Seu nome eu aclamava, pedia seu ar da graça, que levantasse seu vidro para que eu pudesse ver seu lindo rosto. Ela faz graça, ela enrola. Era seu charme: devagar ela aparece, mas logo em seguida, ela desaparece. Fica no vai e vem, como quem nada quer. Finalmente, ela aparece de vez à janela... Ah, mas que moça! Aquele cabelo longo, aquele tão liso, castanho intenso, a malícia de seu doce sorriso... Seu olho, seu olhar, amendoados, tão pretos, me perdia neles como se fossem a própria escuridão.
Hoje, inseguro eu tocava, com minhas roupas simples ao contrario do que se era de costume, eu fazia sua serenata. Ela apoiava seu pequeno e delicado queixo a sua mão tão bem feita. Ela ria, olhava-me como um bobo, ela gostava. Eu lhe dava um largo sorriso, fazia de mim seu vassalo, eu a amava. Após tantas canções, tantos acordes, após tanto tempo de pé, na calçada a se mostrar involuntariamente ao público que passava, quando a verdadeira platéia estava na janela, ela desce. Ansioso, espero na porta com o violão repouso ao chão. Ela devagar abre a porta. Ficamos sem graça diante um ao outro.
Explico-lhe o porquê de minhas roupas, já que toda sexta-feira, nos mínimos detalhes apareço. “Que nada” ela diz.
Ela não liga, moça de simplicidade, ela gosta dos meus cabelos armados, ela gosta da minha música, o que sei fazer com um violão. Quem saiba ela goste de mim...Ou não. Ela nunca me convida para entrar. Ela joga um papo fora, ela passa a mão em seus cabelos, ela envolve meu olhar... Ela se encosta na porta, se joga, ela coloca a mão em sua cintura fina, tapa as risadas tímidas só para fazer manha. Mas nunca faz um convite. No final, na despedida, sempre um abraço, nunca um beijo.
Essa sexta não foi diferente das outras tantas feiras. Eu perdia cada vez mais as esperanças, mas enquanto eu pudesse as cordas dedilhar e a minha voz cantar, lá eu estaria, clamando por seu amor.
Era noite, voltava para casa. Sobre o telhado, sob o frio, sob as luzes do céu estrelado, fazia uma música, uma que cantasse ela. Era um blues, era um rock, era ela. Tudo a remetia: o céu escuro lembrava os olhos dela, as arvores de folhas finas que na ventania esvoaçavam pareciam suas madeixas, o silêncio da noite lembrava o vácuo entre nós. Oh, minha coita! Porque o amor é sempre assim? Tão certo e tão inseguro... Porque nos traz um certo conforto e ao mesmo tempo em que não nos conformamos com a carência quando ausente, ou assim como eu, por não ter a amada. Um jogo de preenchido e vazio... Sentado, agora eu me deitava, eu a imaginava ao meu lado. Compartilhando a friagem e sereno, compartilhando abraços, os calor entre dois corpos... Doce ilusão.
Agora, a próxima sexta-feira, semana seguinte. Dessa vez, tudo definido, os sapatos, a camiseta elegante... Mas os cabelos sempre armados, todo desarrumado. Novamente, eu e meu violão sob aquela janela. Eu iniciava a serenata, enquanto timidamente ela surgia, aos poucos aparecia... Mas dessa vez algo mudou. E muito .Bruscamente os vidros se abriram, de lá, eu saíra encharcado, a água fria de um balde fora jogado. Foi então, avistei alguém, vi um rapaz... O rapaz estava junto dela, estava com ela. Ele ria, ria muito. Eu vi ela. Nada fazia, se não olhar-me dissimulada, feição de quem tinha pena apenas. O cara era burguês, era um homem, na verdade quase um moleque. Era o típico o encantador, que entre seus jogos e cantadas, seduzia a qualquer moça bonita. Ele colocou suas mãos envolta sua cintura e saíram da janela, da minha visão... Mas ela ainda olhou para traz, com seus dois pontos pretos mirou-me, parecia dizer:“desculpe”.
A água era fria, mas não mais do que aquilo que por dentro sentia... Que injustiça! Ah, se ela soubesse o quanto por ela eu sofro! Por quantas vezes a desejei, quantas canções levaram seu nome, quantos acordes pensados em nela... No entanto apenas com as suas migalhas eu me contentava... Já falei o quão injusto é o amor? Ela por sua vez, aposto que para meu cabelo nem ligava, pouco a importava se usava sapatos ou sandálias. Ela nunca gostou de mim. Quem saiba gostasse daquilo que meus dedos e voz faziam, mas não era a minha pessoa que ela desejava...
Para casa, cabisbaixo, pela calçada respingava, as pessoas a me observar na certa pensavam: “ Donde voltara esse rapaz encharcado?”
Eu voltava de um lugar, de uma calçada, onde não haveria de esquecer meus sentimentos, aqueles que por mais sublimes que fossem, não compatiam a música. Sozinho fiquei, pela noite, minhas lágrimas eu cessei. Eu tinha um coração partido, mas também tinha um violão em mãos. As cordas podiam não conseguir re-costurar meu coração, mas do som eu fazia o meu ópio. Ficaram em mim as serenatas. Músicos são eternos seres apaixonados.
domingo, 4 de julho de 2010
Até o ultimo suspiro
Lá fora o tempo era de sol, eram de brisas do verão. Lá fora, os pássaros se punham a voar, pousando ruidosamente sobre os fios dos postes, cantando o mundo. Lá fora o tempo era azul... Lá fora.
Mas era dentro de um hospital, dentro de um quarto em especial, onde o tempo era nublado. Um quarto de paredes beges descascadas, de piso branco, um quarto quase vazio, um quarto melancólico. Nele havia apenas aparelhagem, soro, uma maca com lençóis e travesseiros verde oliva,esta ficava horizontalmente a única grande janela. Na Maca repousava uma mulher.
Mulher de idade, mulher de suas rugas, do olhar morteiro, das olheiras profundas, dos cabelos esbranquiçados, dos braços fracos, da pele manchada. Mulher dos dedos trêmulos, da voz cansada, com visão debilitada, da respiração pesada.
Ainda lúcida, com a pulsação querendo descansar por completo, esperava ofegante a presença de alguém. Virava teu rosto, olhava o clarão vindo da grande janela. O sol não chegava a tocá-la, seus raios malmente chegavam à metade do quarto, mas estes reluziam sobre o piso, clareando o lugar opaco. Eis o ranger da porta. Entra um enfermeiro em toda sua vestimenta azulada, quase branca. Calouro em sua profissão,era jovem, vinte e poucos anos. Ele observa o estado de sua paciente, e mais que isso, vê sua agonia, aquela sua solidão... Como poderiam deixar tal senhora isolada as quatro paredes?
Com passos a ecoar sobre o chão, ele aproxima-se ao pé da maca. Ele olha toda a aparelhagem, analisa. Ela não tinha muito tempo de vida. Nada mais digno seria do que fazer companhia em seu leito de morte.
Apesar de tudo, nada estava errado do que se é natural. Aparentava ser mulher vivida, mulher de uma longa vida. Nada em que nela se via desmentiria: sua idade, na certa, era em torno dos oitenta. A hora de partida, o horário do trem, uma hora chega a todos, cada um na espera, cada qual em sua estação. O trem a aproximava-se para ela.
Ele, então, fica apenas na presença. Ele aproxima-se mais, ela o observa, seguindo-o com os olhos morteiros, de íris embaçada,castanho de pontos brancos, acompanhava seus passos. Ele evitou dizer qualquer coisa que a fizesse falar, não queria que gastasse a pouca energia que restara de seu corpo, o ar comprido, o sangue correndo lento entre as veias.
Ao invés das palavras, ele ofereceu um sorriso. Era um sorriso mentiroso, porém, verdadeiro. Era mentira, pois não sentia alegria alguma perante a situação delicada, sendo que a sua vontade era de lastimar. Era verdadeiro, pois era vindo do coração, da sincera vontade de confortar apenas por uma expressão que lhe dissesse: “tudo bem, cá estou eu, cá esta minha espera.”
E ficaram assim, silenciosos, naquele quarto de uma única entrada de luz, uma única janela... E ela olhava para essa, janela afora , tão atenuada, perecia querer levantar e adentrar, mergulhar no clarão desta. Olhava convicta, não se sabia o que ela olhava ao exato. Sabia apenas que seu olhar penetrava sereno, por vezes parecia fora de orbita.
Ela fechou os olhos, virou o rosto para o teto, as mãos que estavam rentes ao corpo, em um enorme e lento esforço, colocou-as cruzadas sobre o peito. O enfermeiro logo pensara que estava morta, mas não. Ainda estava presa ao mundo terreno. Ela abriu os olhos, com visível movimento de dilatação da caixa toráxica, ela respira profundo. Ela pega suas forças restantes, seus resíduos, o que ainda a faz plena, e inicia:
“ Ah! Juventude!” Sua voz era rouca, era fraca, mas era persistente, assim como quem inicia e quer terminar o discurso mesmo que não o escutem.” Meu jovem, usufrua de toda sua juventude. Da pele Liza, da pele quente e macia, da energia, da visão lúcida, da audição perfeita. Ah meu Jovem! Não sejas como eu,meu jovem...”
O Enfermeiro pensou em impedir o esforço de sua voz, mas achou que para ela, seria um alívio pronunciar suas ultimas palavras antes de partir, seja lá quais fossem elas. Continuou:
“...Viva, aconteça o que tiver de acontecer,mas viva. Não sejas como eu. Você, com seus olhos imaturos me vê, observa. Na certa, pensas bem a respeito da minha idade, da longa estrada percorrida, dos meus rumos traçados, dos destinos imprevistos, das alegrias e dos meus descontentamentos. Você repara minhas rugas, você as vê e pensa que eu fora uma mulher vivida. Enganou-se por demais. A verdade de tudo, de onde supostamente cheguei, fora tudo uma grande farsa, pois eu nunca tive de fato uma vida. Talvez eu tenha existido,apenas. Foram 85 anos, Desperdício, completo desperdício.” Sua voz tornava-se cada vez mais fraca e cada vez mais amargurada ao longo de seu epitáfio oral.” Só de olhar para traz, maldita agonia! Olhar para os tantos amores que não tive, os amores de Platão, olhar os amores que tanto me doei e nada recebi se não as cicatrizes, Olhar os amores passageiros, os ilusórios, os falsos, os de faz de conta ... Eu nunca amei, em 85 anos, eu não soube o que é amar, o que é se morrer por alguém, o que é ter consigo um alguém. Veja só agora, meu jovem, ninguém visitou-me. Sabe a razão? Nunca tivera filhos, nunca os quisera... Mas não é a exata razão de minha solidão. Eu nunca tive amigos verdadeiros, nunca atrai as pessoas junto de meu jeito frio e indiferente. Os poucos que tive, no final conclui que nuca os tive, eles nunca voltaram a mim. Ninguém queria ter-me como companhia, ninguém ao seu lado desejara um ser mórbido e calado feito eu. E as minhas emoções...Foram estáveis demais! Aquela estabilidade que fazia de mim um filme em branco e preto, um livro sem tema. eu nunca conheci os extremos, nunca soube o que é agonizar de dor ou morrer de prazer, o que é sorrir por um dia todo ou chorar por uma noite inteira. Era tudo morno de mais. Tudo me tornava uma apática e não via a graça ou beleza do grandioso e quem dirá do simples... Eu não saia de casa. Foi por lá, onde vi minha vida se perder, minha alma se despir de mim, antes do que era físico, ela me deixou muito, mas muito antes do que deveria. Ela me deixou sozinha por anos, por muitos longos anos. Em casa eu lia a bíblia, eu procurava algum sentido para ainda respirar. Eu ligava a antiga TV, e nada que se prezasse passava por esta. Quando eu saia de casa, a vida doía. Eu observava as pessoas, eu invejava sua vitalidade. Elas tinham amigos, elas tinham com quem contar, tinham afagos, elas tinham abraços, tinham carinho. Eu tinha carência, eu tinha apenas um velho urso de pelúcia,de orelhas rasgadas, eu tinha apenas um chumaço de algodão para acariciar. Elas tinham assuntos, eu tinha a omissão, eu tinha o vazio, um vazio que nunca se preencheu. Mas assim como você , eu tinha pele Liza e todas as outras mil dádivas de ser jovem, as dádivas que nunca soube usar...”
O Enfermeiro despediu-se de seu sorriso,pois em seu rosto uma lágrima tomara conta, uma única que escapara. Ele não imaginava que aquela senhora ainda tivesse consciência ou lucidez suficiente para contar sua lamentável historia. Ele atencioso, ouviu seus últimos versos.
“ Não importa quanto tempo você vai ficar aqui pela terra, o que importa é como vai ficar nela, e sobre tudo, vai honrar a palavra viver... Ah, essa palavra, não deixe que ela seja apenas uma palavra... Vou me embora, mas que fique claro: não morro velha, não; Pois eu ainda sou um feto, que mesmo no ápice de seus 85 anos, ainda não aprendera a nascer. Apenas lembre-se disso...E por favor, como último pedido,me coloque ao sol. Quero sentir pela ultima vez, ao menos o calor na minha fria existência...”
Existência... Essa fora sua última palavra. O enfermeiro retirou todos os fios, desconectou todos os aparelhos e colocou a maca ao sol. A luz clareava aquela tão fina pele manchada, aquela pele escurecida por seus sofrimentos e tantos anos. Visando a janela, ela morreu. Mas ela morreu de olhos abertos, bem abertos, olhando o lindo dia que se fazia lá fora.
Mas era dentro de um hospital, dentro de um quarto em especial, onde o tempo era nublado. Um quarto de paredes beges descascadas, de piso branco, um quarto quase vazio, um quarto melancólico. Nele havia apenas aparelhagem, soro, uma maca com lençóis e travesseiros verde oliva,esta ficava horizontalmente a única grande janela. Na Maca repousava uma mulher.
Mulher de idade, mulher de suas rugas, do olhar morteiro, das olheiras profundas, dos cabelos esbranquiçados, dos braços fracos, da pele manchada. Mulher dos dedos trêmulos, da voz cansada, com visão debilitada, da respiração pesada.
Ainda lúcida, com a pulsação querendo descansar por completo, esperava ofegante a presença de alguém. Virava teu rosto, olhava o clarão vindo da grande janela. O sol não chegava a tocá-la, seus raios malmente chegavam à metade do quarto, mas estes reluziam sobre o piso, clareando o lugar opaco. Eis o ranger da porta. Entra um enfermeiro em toda sua vestimenta azulada, quase branca. Calouro em sua profissão,era jovem, vinte e poucos anos. Ele observa o estado de sua paciente, e mais que isso, vê sua agonia, aquela sua solidão... Como poderiam deixar tal senhora isolada as quatro paredes?
Com passos a ecoar sobre o chão, ele aproxima-se ao pé da maca. Ele olha toda a aparelhagem, analisa. Ela não tinha muito tempo de vida. Nada mais digno seria do que fazer companhia em seu leito de morte.
Apesar de tudo, nada estava errado do que se é natural. Aparentava ser mulher vivida, mulher de uma longa vida. Nada em que nela se via desmentiria: sua idade, na certa, era em torno dos oitenta. A hora de partida, o horário do trem, uma hora chega a todos, cada um na espera, cada qual em sua estação. O trem a aproximava-se para ela.
Ele, então, fica apenas na presença. Ele aproxima-se mais, ela o observa, seguindo-o com os olhos morteiros, de íris embaçada,castanho de pontos brancos, acompanhava seus passos. Ele evitou dizer qualquer coisa que a fizesse falar, não queria que gastasse a pouca energia que restara de seu corpo, o ar comprido, o sangue correndo lento entre as veias.
Ao invés das palavras, ele ofereceu um sorriso. Era um sorriso mentiroso, porém, verdadeiro. Era mentira, pois não sentia alegria alguma perante a situação delicada, sendo que a sua vontade era de lastimar. Era verdadeiro, pois era vindo do coração, da sincera vontade de confortar apenas por uma expressão que lhe dissesse: “tudo bem, cá estou eu, cá esta minha espera.”
E ficaram assim, silenciosos, naquele quarto de uma única entrada de luz, uma única janela... E ela olhava para essa, janela afora , tão atenuada, perecia querer levantar e adentrar, mergulhar no clarão desta. Olhava convicta, não se sabia o que ela olhava ao exato. Sabia apenas que seu olhar penetrava sereno, por vezes parecia fora de orbita.
Ela fechou os olhos, virou o rosto para o teto, as mãos que estavam rentes ao corpo, em um enorme e lento esforço, colocou-as cruzadas sobre o peito. O enfermeiro logo pensara que estava morta, mas não. Ainda estava presa ao mundo terreno. Ela abriu os olhos, com visível movimento de dilatação da caixa toráxica, ela respira profundo. Ela pega suas forças restantes, seus resíduos, o que ainda a faz plena, e inicia:
“ Ah! Juventude!” Sua voz era rouca, era fraca, mas era persistente, assim como quem inicia e quer terminar o discurso mesmo que não o escutem.” Meu jovem, usufrua de toda sua juventude. Da pele Liza, da pele quente e macia, da energia, da visão lúcida, da audição perfeita. Ah meu Jovem! Não sejas como eu,meu jovem...”
O Enfermeiro pensou em impedir o esforço de sua voz, mas achou que para ela, seria um alívio pronunciar suas ultimas palavras antes de partir, seja lá quais fossem elas. Continuou:
“...Viva, aconteça o que tiver de acontecer,mas viva. Não sejas como eu. Você, com seus olhos imaturos me vê, observa. Na certa, pensas bem a respeito da minha idade, da longa estrada percorrida, dos meus rumos traçados, dos destinos imprevistos, das alegrias e dos meus descontentamentos. Você repara minhas rugas, você as vê e pensa que eu fora uma mulher vivida. Enganou-se por demais. A verdade de tudo, de onde supostamente cheguei, fora tudo uma grande farsa, pois eu nunca tive de fato uma vida. Talvez eu tenha existido,apenas. Foram 85 anos, Desperdício, completo desperdício.” Sua voz tornava-se cada vez mais fraca e cada vez mais amargurada ao longo de seu epitáfio oral.” Só de olhar para traz, maldita agonia! Olhar para os tantos amores que não tive, os amores de Platão, olhar os amores que tanto me doei e nada recebi se não as cicatrizes, Olhar os amores passageiros, os ilusórios, os falsos, os de faz de conta ... Eu nunca amei, em 85 anos, eu não soube o que é amar, o que é se morrer por alguém, o que é ter consigo um alguém. Veja só agora, meu jovem, ninguém visitou-me. Sabe a razão? Nunca tivera filhos, nunca os quisera... Mas não é a exata razão de minha solidão. Eu nunca tive amigos verdadeiros, nunca atrai as pessoas junto de meu jeito frio e indiferente. Os poucos que tive, no final conclui que nuca os tive, eles nunca voltaram a mim. Ninguém queria ter-me como companhia, ninguém ao seu lado desejara um ser mórbido e calado feito eu. E as minhas emoções...Foram estáveis demais! Aquela estabilidade que fazia de mim um filme em branco e preto, um livro sem tema. eu nunca conheci os extremos, nunca soube o que é agonizar de dor ou morrer de prazer, o que é sorrir por um dia todo ou chorar por uma noite inteira. Era tudo morno de mais. Tudo me tornava uma apática e não via a graça ou beleza do grandioso e quem dirá do simples... Eu não saia de casa. Foi por lá, onde vi minha vida se perder, minha alma se despir de mim, antes do que era físico, ela me deixou muito, mas muito antes do que deveria. Ela me deixou sozinha por anos, por muitos longos anos. Em casa eu lia a bíblia, eu procurava algum sentido para ainda respirar. Eu ligava a antiga TV, e nada que se prezasse passava por esta. Quando eu saia de casa, a vida doía. Eu observava as pessoas, eu invejava sua vitalidade. Elas tinham amigos, elas tinham com quem contar, tinham afagos, elas tinham abraços, tinham carinho. Eu tinha carência, eu tinha apenas um velho urso de pelúcia,de orelhas rasgadas, eu tinha apenas um chumaço de algodão para acariciar. Elas tinham assuntos, eu tinha a omissão, eu tinha o vazio, um vazio que nunca se preencheu. Mas assim como você , eu tinha pele Liza e todas as outras mil dádivas de ser jovem, as dádivas que nunca soube usar...”
O Enfermeiro despediu-se de seu sorriso,pois em seu rosto uma lágrima tomara conta, uma única que escapara. Ele não imaginava que aquela senhora ainda tivesse consciência ou lucidez suficiente para contar sua lamentável historia. Ele atencioso, ouviu seus últimos versos.
“ Não importa quanto tempo você vai ficar aqui pela terra, o que importa é como vai ficar nela, e sobre tudo, vai honrar a palavra viver... Ah, essa palavra, não deixe que ela seja apenas uma palavra... Vou me embora, mas que fique claro: não morro velha, não; Pois eu ainda sou um feto, que mesmo no ápice de seus 85 anos, ainda não aprendera a nascer. Apenas lembre-se disso...E por favor, como último pedido,me coloque ao sol. Quero sentir pela ultima vez, ao menos o calor na minha fria existência...”
Existência... Essa fora sua última palavra. O enfermeiro retirou todos os fios, desconectou todos os aparelhos e colocou a maca ao sol. A luz clareava aquela tão fina pele manchada, aquela pele escurecida por seus sofrimentos e tantos anos. Visando a janela, ela morreu. Mas ela morreu de olhos abertos, bem abertos, olhando o lindo dia que se fazia lá fora.
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