Já tinha sete, fizera a pouco mais de um mês. Talvez fosse mocinha o suficiente para ficar a só no apartamento, enquanto seus pais fossem a um evento noturno, um concerto na cidade vizinha. Seria a primeira vez o apartamento em seu domínio. Mas seus pais ao saírem, antes de trancar a porta por fora, deixaram bem claro “Fique longe do fogão, nada de sentar-se na mureta da sacada, ou melhor, nada da sair na sacada. E lembre-se, na cama, as dez horas, mais tarde que isso, os monstros te pegam.”
Aos sete não se acredita mais em monstros, e mais que isso, aos sete se quebram regras. Aos sete a menina inicia a malicia da desobediência, começando por pequenas mentiras, afirmando que faria tudo dentro dos conformes. Se bem que... Existem pequenas mentiras? Bom, ou você mente, ou diz a verdade. Ou então, simplesmente, omite. E omissão seria a sua escolha. Afinal, quem contaria que ela fizera um brigadeiro? Esticara as pernas na sacada e dormira assim que de fato, o sono tomasse conta? Tinha tudo em mente: a vasilha ela lavaria assim que se deliciasse de seu doce, na sacada, nenhum morcego contaria a seus pais que por lá esteve, e nenhum bicho papão a denunciaria sobre sua noite prolongada.
E lá foi ela, nove meia, para o fogão. Lata de leite condensado na mão, colher na outra, a panela no fogo, o pote de achocolatado aposto sobre a pia. Não demorara muito, aquele marrom condensado, o cheiro de sacarose quente rondando a cozinha fechada. Impaciente para que esfriasse, colocou a panela dentro do congelador. Fora fazer qualquer outra coisa, de preferência, algo que não pudesse fazer na presença de seus pais.
Era tanta coisa, inúmeras estripulias que pensava em fazer. Pegou o vinil de seu pai, no velho toca disco colocou Janis Joplin para tocar. Fora até a gaveta de tranqueiras de sua mãe sua mãe, pegou uma escova e um óculos,daqueles redondos, um que sua mãe comprara na década de setenta. Correndo do quarto a sala, Fez então uma entrada pelo corredor, quase caindo ao deslizar sobre o tapete. Recuperando o equilíbrio, acertando o passo, sendo a escova o microfone, subiu sobre a mesa próxima ao som. Dublou então, brincando de Woodstock . E percorria a mesa, colocava a mão no estreitíssimo quadril, inclinava as costas para trás com o seu cabelo ondulado e despenteado encostando sobre a superfície , com o microfone sempre rente a sua boca.
Assim que cansou de cantar, pulou da mesa ao chão, fora pular então, na cama de casal, afinal, é um clássico de toda criança, desemaranhar o lençol, estalar os estrados enquanto os responsáveis estivessem ausentes. Isso fora até cansar, até pouco mais que a hora estipulada para estar em sua cama sob o cobertor.
Pegou o brigadeiro, Sentou-se então no chão da sala, ligou a TV de trinta e tantas polegadas. Poderia ver o que escondem os adultos lá pelas dez e pouco, dentro daquela tela. Tinha uns talk shows, programas tediosos que deveriam ser de comédia, no outro canal, um filme policial. Nada que preste ou a interesse, mas eis que em um clicar para baixo, na troca de canal, um grito alto e tenebroso, um rosto insano de olhos dilatados e brancos. Sim, um filme de terror, e dos bravos. Fora tão repentino, que seu coração perecia se debater no peito, tentando encontrar alguma saída, talvez pela boca. Soltou as mãos do controle, tremula colocou as mãos sobre os olhos. E o filme continuava, tirou as mãos dos olhos cerrados, espremidos, tapou seus ouvidos. Ela não desligava ou mudava o canal, pois além de recusar abrir os olhos ,seu raciocínio, por mais simples que fosse, fora invadido por aquela imagem e grito. Encolhida, escondendo-se em sua perna dobrada, esperou aquele calafrio que adentrava seu corpo abandoná-la, e assim tomar de volta o controle de suas articulações e desligar aquela imagem que tanto a atordoava. Demorou um pouco mais de um minuto,e ainda sem nada enxergar, apenas pelo tato , ela apertou o botão para desligar. Não deveria ser uma tarefa difícil, afinal, tal botão era o maior. Mas em momentos de descontrole, até a mais fácil tarefa, como um simples encontrar, pode perder-se em meio os batimentos acelerados. Pronto. Tela negra, sem nada a ameaçar.
Mas aquele grito continuou, como um gravador, uma velha fita de vídeo cassete rodando em sua memória. Tinha medo de se levantar, medo de desdobrar as pernas, medo de fazer qualquer movimento. Estava pálida, feito as plumas de um dente-de-leão. Assustada como um filhote de leão abandonado.
Bom, ela não podia ficar ali para sempre. Levantou-se vagarosa, sem movimentos bruscos, deixou a panela no chão, não tinha coragem de ir para aquela cozinha de piso frio. Ela sabia que aquilo seria um vestígio de uma das regras quebradas. Não bastasse, ela vê a porta dupla de correr da sacada aberta esvoaçando a cortina fina, tão branca... Para aquela menina, tal pano soava um fantasma ou um espírito, gritando então, deixou o segundo vestígio exposto. Ela corre até seu quarto, e lembra que deixara uma bagunça o quaro de seus pais. “Dane-se!” Ela pensou.
Quatro regras quebradas, três vestígios deixados. Bom, amanhã ao menos ela não seria castigada por dormir tarde, mas teria outros três motivos. Porém, pelo maior castigo ela passava, uma noite de pesadelo que tudo visava ser real. Debaixo do cobertor, em sua cama tão aconchegante e quente, ela fica a espera da única coisa que poderia tirá-la dessa situação: o sono. Fechar os olhos, calar o mundo, não encontrava melhor solução.
As horas se passam, já não sabia a pequenina, se estava dormindo ou se estava acordada. Era uma sensação fora do comum, o tempo pesava, os milésimos tornaram-se segundos, os segundos minutos, a hora, um dia. Era impossível distinguir o real do irreal, o que é fruto da imaginação do concreto. Sabia apenas que estava sob o cobertor e mais nada. Deveria ser mais de meia noite. Bate um, três, seis, nove, doze. Doze badaladas do sino da igreja, sim, agora sim, meia noite.
Ela toma coragem e coloca seus olhinhos para fora da coberta que funcionava como uma espécie de proteção psicológica. Nada de incomum. Fixa-se o olhar na porta aberta, na luz acesa do corredor. Ela respira aliviada. Mas não move um músculo se quer, um nervo.Repousou no Travesseiro macio, fechou os olhos, apenas os fechou.
A luz do quarto se apaga, mas continua a luz do corredor acesa. Pela película que recobre o olho ela percebeu a mudança de claridade, abre os olhos esbugalhados como os daquele ser do filme. Tensa, volta a baixo de sua proteção. Ela escuta da sacada, um fustigar das envergaduras flexíveis de uma asa. Escuta então, os passos pela casa, o arrastar de uma das cadeiras na sala. Alguma coisa se aproxima, passa pelo corredor, entra no quarto.Sua respiração era Arquejante , assim como começara a ficar a respiração da menina. Ruidosamente ela coloca seus olhos para fora. Que horror. Que coisa era aquela?
Forma humana, verde musgo,arcado , asas de penachos preto, olhos profundos fora de orbita, remendos e rachaduras, cicatrizes pela pele. Unhas longas, apodrecidas e disformes, conforme seus quebrados. Não sabia se fugia, ou permaneceria imóvel, esperando pelo pior. Em fração de segundos decidiu: Soltara um berro, um berro maior do que a do filme. O monstro macabro, em reação inesperada, dera um urro abafado, saíra do quarto, tropeçando, topando em vários moveis, chegou a debater-se a parede e assim caiu um retrato pendurado. A menina sentia-se leve, mais não uma leveza como aquela que sentimos ao fazer uma boa ação ou reparar erros; era uma leveza que tomava o corpo, e pesava na mente, o peso de seus ossos sumiram e seus movimentos tornavam-se incertos, pois não sentia mais as extremidades.
Ele poderia ter abandonado seu quarto, mas sabia, ele ainda estava por lá. Envolveu-se no cobertor, assim como fazia quando brincava de moça árabe, imitando as vestes. Fora com passos arrastados e medrosos atrás daquele monstro, junto de um bastão, aqueles de jogar bete, que guardava em um cantinho de seu quarto.
Escutando sua respiração, fora até o banheiro. Lá estava a besta. Horrível, era a visão propriamente dita do inferno, lugar donde provavelmente surgira. Fechou os olhos, deixou de lado o cobertor, ergueu o bastão, em sua direção, fora pronta para rebatê-lo. Ele estava encurralado , assim que viu o objeto de madeira, em sua direção, pronto para atacá-lo disse como uma voz sinistra:
- Ei! Porque quer me bater humana? O que lhe fiz? Diga-me!
Abismada. O mostro falava língua de gente. Cessou o bastão, o colou sobre o ombro. Mas estava aposto, qualquer que fosse uma reação de ameaça. Abriu um pouco os olhos, o suficiente para ver vultos, ela não queria olhar diretamente a sua feiúra.
- Você... Você sabe falar!
- Poupe-me pequena humana. Não me machuque, porque eu não vou te machucar.
Aquele monstro, esquisito demais... Era difícil levar a serio o que falava com aquela voz tenebrosa, prestava-se mais atenção no tom gravíssimo de da sua fala, no que falava propriamente dito. Ela gaguejava:
- Aonde você veio seu monstro? Sai daqui!
- Era de se esperar. Não, eu não te culpo, eu sei, sou de uma tamanha feiúra, que chego a ser algo invisível. Não, porque não tenho uma forma, e sim porque sou tão disforme que as visões me negam. Vou me embora, não se preocupe, não encostarei nenhuma de minhas garras em você.
Passo pela menina, e quando dado suas costas a ela, ela se virou e disse ainda com os olhos pouco
cerrados:
- Calma não se vá. Eu vou abrir meus olhos para você
Parou, atento a ela, miravam os seus olhos. Esperava o abrir por parte dela. Ela então os abriu, piscava por vezes, até acostumar-se.
- Eu sei, é difícil me olhar. Pare com isso, não quero te dar motivos para pesadelo. Estou indo.
- Espera. – Falava um tom de incerteza – Você não é feio.
- Não?
- Não.- Pausou sua fala, e com convicção disse- Você só é... Diferente.
- Não tente me enganar – Aproximou-se aos poucos – Você tem medo.
Começou a dar voltas, muito, muito próximo a ela com seu pescoço arcado em sua altura e direção. Parecia até querer ameaçá-la, rondava ela como um predador. Fungou em sua nuca, diagonal a seu ombro, com forte ar exalado pelos grades orifícios de suas narinas, fazendo seu cabelo esvoaçar. Voltou a ficar frente a frente.
-Você não tem muitos amigos, não é? – Disse em um tom de inocência, enquanto seus olhos brilhavam.
Ele omitiu, apenas olhou para baixo , e arqueou-se mais do que o normal. Ela soltou o taco ao chão,o monstro assustou-se com o barulho seco. Em sua direção, deu-lhe um abraço. Incrível, a pele do monstro, ao contrario do que se pensava, não era escamosa e fria; Era tão macia e quente quanto à de um ser humano. Na certa, além da pele, aquele ser deveria ter sentimentos iguais a de um;
-Você é diferente, mas é igual a mim. E só porque não é tão parecido com que sou por fora, talvez seja parecido como sou por dentro. E às vezes eu fico triste, e você, também. Às vezes fico alegre, e você também deve ficar. Do que você gosta?
- Não tenho do que gostar. Só tenho que vagar por ai, pela meia noite, e desaparecer pelo amanhecer. Não há nada que eu faça, que consiga alegrar-me. Alías, nem sei mais o que é isso. Da ultima vez que fiquei, foi quando levantei meu primeiro vôo.
-E você não gosta mais de voar?
-Que graça tem? Faço a mesma coisa, toda noite, lua cheia, lua minguante.
- Que graça tem? Eu queria saber voar, você deveria estar feliz por poder voar. Você só diz isso porque a rotina tomou conta. Mas não seria mais rotina se você voasse a vários lugares. Ei! E se eu voasse com você?
- Confia em mim?
- Eu abri meus olhos para você, agora quero que abra meus olhos, mostrando como é voar.
Sem delongas, montou sobre suas costas, e pela sacada levantou vôo. Voava feito uma harpia, voava mais alto do que seu prédio. Indescritível era a sensação de ter sob seu pés a cidade, ver as luzes, pontos iluminados lá em baixo, pontos iluminados pelo céu, as estrelas estavam muito próximas. O vento, o friozinho aconchegante, na pele e na barriga. O ser asqueroso tornava-se belo mediante a sua capacidade de mostrar a ela, o mundo como era, mesmo que pela noite. Ela sentia quase tocar aquela meia lua no céu.
Voltando ao apartamento, em pouso tão galante quanto a de uma garça sobre um rio, pela sacada, entrou na sala. A menina desce de suas costas maravilhada, agradecendo ao monstro, que nem era monstro, mas também, não era humano, pois era mais que isso; Ele podia ter garras, mas não as usava contra alguém, um humano com armas em mãos, as letais ou verbais, não hesitam em machucar o próximo; ele não. Mais que isso, usava suas asas para o bem, para mostrar a noite à garotinha.
Contudo, ela arrumou todos os vestígios deixados; Lavou a panela, arrumou o quarto de seus pais, fechou a porta da sacada. Fora dormir então, despedindo-se de seu amigo.
Manhã seguinte, A menina acorda de um sono pesado. Pensara então, que louco sonho tivera. “Um monstro em minha casa? Só mesmo minha imaginação.” Ficou decepcionada, ela realmente queria que tudo aquilo fosse verdade. Foi então até a cozinha para receber os sermões de sua mãe, já que até os vestígios encobertos faziam parte do sonho.
-Minha filha, você saiu na sacada ontem? Você deixou a porta dela aberta!
- É mãe...
- O que eu disse a respeito de sair na sacada? Assim você me deixa preocupadíssima! E o medo que eu tenho de você se sentar lá e cair? Bom pelo menos você não mexeu no fogão nem bagunçou os quartos. Você dormiu na hora certa.
- Sim.
Parou, então raciocinou. Se ela não encontrou a panela, nem seu quarto desarrumado, é porque parte do sonho era real. Então pensou, se a porta da sacada era o único vestígio deixado, provavelmente era o monstro que se esquecera de fechar ao sair.
Não se sabe se era alucinação, se tudo era coisa da cabeça da menina, se tivera um ataque sonâmbulo, e arrumara as pistas. Mas ela para ela, tudo aquilo era real, e que nenhuma explicação lógica interviesse.
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