domingo, 12 de setembro de 2010

A Precipitação

   Ela sentia o corpo inóspito balançar devagar com vento, no vai e vem da maciça cadeira de balanço. Fronte a casa belíssima de tempos coloniais, herança de família, observa cética a fazenda de muitos hectares. Um quintal imenso, que não se enxerga em único campo de visão. Um quintal com tudo quanto é bicho, tudo quanto é tipo e cor de flor. Mas é tanto arame farpado, tanto ferro encruzilhado nas estacas de madeira. Remetendo a cobiça, lembra pocessão . Por mais que os pastos sejam brandos, nada por aqui é livre.
  A cor do metal lembra o céu desse dia nublado. Pela manhã ela ainda enxergava através das nuvens, a luz que resplandecia, a luz que queria ser. Mas não fora. O tempo umedeceu de repente, tornaram-se as nuvens densas e carregadas. Será que enquanto os lagos evaporavam, a alma daquela moça também evaporava?
  Uma coisa era certa, pensava menos do que antes, sofria menos também. Mas parecia sem essência alguma, olhar de tédio, lábios sérios. Parecia até o xadrez de seu vestido desbotado. Nada mentalizava, nada como antes. Os sentidos, apenas cinco, o mais importante ela deixou se perder. O sentido que dá sentido ao ato de respirar, é quase o propriamente dito ato. Porque um ser humano não é feito só do tocar, saborear, ver, ouvir e inalar. O ser humano é feito de pensamento, o ser humano é a criação da própria essência. O ser humano se faz, se constrói, não limita que as coisas ao redor o impeçam de voar mesmo sem asas.
  Como recuperar esse sentido? Perguntou-se ela. Na certa, não encontraria em uma cadeira de balanço, nem no vento frio que vinha do sul, a sacudir o solo verde. Levantou, foi procurar sua alma que a deixou a só. Pegou a finita estrada de terra, que no horizonte se perde e se torna infinita, junto ao milharal quase sem cor pela pouca luz do dia. Caminhava ignorando o que pelos lados a envolvia e se via. Como se fosse cega, no mínimo daltônica, nada apreciava, andava como um cavalo com as viseiras impedindo que se contemple o que se vê pelos lados, com uma rédea, escrava da própria guia.
  Ultrapassando o alto milharal ela avista o estábulo, Lá esta, Anarco. Ela apoiou as mãos no arame da cerca, chamou então por seu cavalo, nenhum alazão, era mais para pangaré, mas era o seu pangaré, aquele que ela cativa e ama, que monta mesmo com tantos ossos, trança a crina apesar de não ser uma seda, cavalga com orgulho, como se fosse um puro sangue. Veio então, trotando em descompasso, ela lhe acariciou o rosto de seu animal. Perguntou: “ Minha alma, você viu?” Ele apenas ergueu seu pescoço, colocou seu rosto junto ao seu e fungou por suas enormes narinas. Ela deu-lhe um abraço em seu dorso mesmo separados pela cerca. Foi até a porteira, abriu-a para que pudesse andar pela trilha junto de Anarco.
  Pela poeira andavam, A terra seca não se molhava a mais de um mês. O seco da terra a cada passo e casco que marcavam o chão, esvoaçava poeira pelo impacto e vento. A terra levou a moça e seu pangaré até o lago da fazenda rondado pelo verde-água do gramado .
  Ela sentou-se no balanço de pneu da arvore rente ao lago, Anarco bebia água e olhava sua imagem refletida no estável espelho d’água. Ela voltou ao vai e vem do balanço, sem alegria ou tristeza, sem sorriso ou seu inverso. Tudo sem sentido,ela parecia despir-se dos seus sentimentos.
  Eis que uma gota precipita do céu, cai em seu ombro. “ Lá vem chuva e é uma das fortes”. Relampeja, com medo procura abrigo, não encontra. Seu pangaré adentra a floresta atrás do lago, e com medo de perdê-lo, correu atrás.”Anarco, volte! Volte!”. E a chuva caia, tornava-se cada vez mais branda, mudou seu nome, tornou-se tempestade. As copas que fechavam o céu não eram o suficiente para impedir que se molhasse. A terra não era mais terra, agora era lamacenta e se chamava barro.
  Seu pé afundava, em compensação o cavalo diminuía o ritmo. Quase alcançado Anarco, ela tropeçou em uma raiz exposta, torceu seu pé. Imunda, encharcada, com chumaços de cabelo engruvinhado ao rosto, sentou sobre a raiz, tirou sua sandália que deixou marca vermelha e profunda no fecho da canela. Massageava o pé esperando que passasse a dor. Ressurgiu em sua visão Anarco, ele voltava donde tinha sumido. Abaixou o pescoço, ela lhe deu carinho em rosto. Ele roçou seu focinho em seu cabelo ensopado e embaraçado. Logo em seguida ela apoiou em seu dorso, subiu no ponto mais alto da raiz e montou em seu pangaré.
  Juntos, pelos troncos e galhos úmidos , venciam o solo escorregadio até encontrarem uma caverna rasa. Anarco podia não ser de raça, mas sua compaixão e carinho por sua amiga, não dona, era a peculiaridade que nenhum alazão tinha. Ele então, vagarosamente sob o teto de pedra da caverna, dobrou as patas e sentou-se. Ela desceu e encostou-se na barriga fina e cheias de costelas de seu amigo. Deitou, já não tinha a preocupação do estado de seu vestido, já estava mesmo imundo pelo barro.
  E lá fora caiam as gotas, a luz eram os relâmpagos, as arvores frágeis dançavam com vendaval, inclinavam e declinavam. Um não tão frágil caiu em frente a caverna hospedada pro ela e Anarco. Dentro dela escureceu, apena uma fresta a se enxergar. Ela levantou-se olhou a fresta e ainda era dia de tempestade. A chuva na floresta sempre tem uma sonoridade diferente. Quando a água toca as folhas, o verde torna-se mais verde.
  O pangaré ergueu-se de costas ao tronco que fazia barragem, em cinco coices o empurrou. Ela mancando fora sentir a chuva que já não era mais tempestade porem a terra era tão barro quanto antes. Com ajuda de Anarco saíram da Floresta e foram ao lago, antes estável, agora cheio de formas circulares graças a precipitação provinda do céu.
  Demorou mais de uma hora, mas todos sabem: Não há tempestade que não se acabe, nem sol que irradie o tempo eterno. A moça mergulhada no temporal, em fim encontrou a alma, que fora furtada do vapor d’água e devolvida ao seu corpo. Agora sim, podia rir e chorar, animar ou lastimar, sentir em fim. Almas escapam, mas alguma hora voltam. E voltam sempre após um temporal.