sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Livro Lacrado

  Algumas pessoas me conhecem, mas são poucas aquelas que sabem quem de fato sou. Pois sou um livro onde escondo muito bem minha biografia, deixo apenas que os outros leiam algumas paginas. E algumas páginas nem são minhas, são apenas versos inventados para cobrir os capítulos que não permito a olhares alheios. Algumas de minhas mentiras servem para distrair a quem não queira desembaralhar minhas frases e fases mais complicadas. Mas ainda existem as raríssimas exceções onde abro meu livro por inteiro. São pessoas escolhidas a dedo, pessoas que vejo constantemente fugindo do comum para que compreendam o anormal. Sinceramente, eu gosto mesmo do incomum, de pessoas não-convencionais.
  No meu livro não encontrara relatos de festas marcantes, meninos, amigos irrelevantes, idas ao shopping ou qualquer outro clichê. Tenha certeza, você há de ler momentos de medo, amores platônicos, solidão, passeios a um mundo dentro de outro, epfanias. Detalhes a parte, eu estou lacrada a cadeado. Sim, sou um tanto complicada, difícil de abrir e ler; Mas todas essas tantas dificuldades são minhas garantias de ter um leitor que não me trate como mais um livro, onde se solicitou a ler, mas na verdade me deixou empoeirando na prateleira. Poderão achar que sou livro mal escrito; talvez eu até seja, mas minha certeza é de que você não sabe ler entrelinhas, justamente aquelas que só se vêem quem crê que as palavras estão além de sua morfologia.
  Eu sou um livro implícito

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Garças do nascer do sol

  Agora, nesses dias em que não vejo você, eu acordo mais cedo, lá pelas cinco da manhã, antes do sol dar seu aparecer.Eu sei, no inverno custamos a levantar, faz frio, meus lábios se racham porque falta os seus nos meus, os pelos da minha pele se arrepiam, de modo sensível ao frio, contrario daquele arrepiar em que a causa era seu calor. Eu pego meu violão e a escada, ainda com minha camiseta velha de malha e short fino de dormir, boto apenas um casaco, subo no telhado. Eu vejo o que ainda restou das estrelas, o céu ainda esta como seus olhos amendoados. Eu toco alguma besteira, eu sei, ainda não toco tão bem meu violão.
  Tento tirar uns acordezinhos com minha mão gelada, sinto a brisa do norte bater. Paro um pouco então, me deito sobre as telhas vermelhas que pela pouca luz, ainda são azul escuro. Eu vejo a cidade em luz alaranjada, eu moro no lugar mais alto daqui, eu moro naquela casa da montanha, que precisa subir e descer pelo caminho de pedras. Eu sei que você gostava muito daqui, que você gostava de subir aqui comigo e ver as garças voltando paras suas casas arbóreas de copas altas no pôr-do-sol. Um dia você me disse que queria ser uma garça, queria voar para chegar mais rápido aqui. Você reclamava para subir a estradinha daqui, dizia estar sempre sem fôlego. Ai nós parávamos no meio do caminho para você respirar, você se sentava em alguma pedra, eu procurava enquanto isso algum bichinho da terra, você sempre amou muito esses serzinhos. Você se encantava quando encontrava uma joaninha e a colocava em seu braço e você a observava de modo tão perspicaz e delicado girando o braço.
  E quando não tínhamos o que fazer, íamos para a sala assistir TV. E acabávamos nem assistindo, ficávamos jogando conversa fora, rindo. E quando meus pais não estavam, trocávamos caricias, deixando mudo o barulho da tela, apagando suas cores, o que importava estava em nós, no nosso abraço. E eu também descia a montanha para lhe visitar, mas você não gostava de deixar-me entrar em sua casa, seus pais não queriam saber de namorados. E quando você vinha dormir aqui, sempre planejávamos ligando a alguma amiga sua para dizer que você estava lá na casa delas. E em uma noite de verão deitamos aqui onde estou agora com meu violão, para ficar olhando o céu. Quase dormimos aqui, até que acordei com uma danada de uma dor nas costas.
  Eu não me esqueço do dia em que você disse que não queria mais me ver. Eu fui até as sua casa, bati na porta e você pediu para que seus pais me enxotassem. Voltei amargurado para casa e liguei para você, gritei e me arrependo demais por isso. Você aos prantos do outro lado, disse que estava muito mal e feia. Eu insisti em revê-la para tirar essa historia a limpo. Você com muito custo subiu a estrada de pedra com seu casaco listado encapuzada. Eu abri a porta, nem me deu tempo para dizer olá, você em lagrimas me abraçou forte. Logo se pós novamente em minha frente, olhando para baixo enquanto às gotas se precipitavam. Sem nada a dizer apenas tirou o capuz, e pude compreender o que estava acontecendo. Seus cabelos negros se foram, e a maldita voltou a lhe atormentar. Então lhe pedi perdão pela grosseria ao telefone, eu não sabia que o câncer havia voltado a atacar seu pulmão. Além do perdão, pedi para que não se fosse, que ficasse comigo. Disse que seu rosto estava lindo, com seus olhos amendoados que brilhavam a face inteira. Falei que nenhum mal lhe aconteceria, que eu estaria sempre aqui. Você havia superado uma vez essa dor, estava certo que mais uma vez a venceria como a garota delicada e ao mesmo tempo, tão forte que você era. Mas ela se dizia estar muito mal, e queria se distanciar para que eu não sofresse. Respondi-lhe então que meu sofrimento seria não lutar ao lado seu lado.
   E hoje estou aqui, tocando no telhado, esperando o sol sair. É nessa hora que vejo as garças saindo de suas casas aqui perto. Elas cantam junto aos outros pássaros, para avisar que hoje é um novo dia, um outro agora. E todo dia vejo a mesma pequena garça pousar por aqui perto, no telhado sem se espantar quando me aproximo devagar. Gosto de pensar, me enganar e dizer: você mora agora dentro dessa garça.

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