Ela se sentou sob a parreira, arrancou do chão uma margarida. E começou a fazer a antiga mandinga do bem e mal me quer. Mas o que instiga é que ela fazia isso com o coração vazio. Não pensava em um alguém, apenas fazia por fazer, arrancava por arrancar as pétalas brancas. Sob a parreira,o chão onde a mulher sentava-se era branco, era um vestido de noiva em margaridas que tapavam o marrom e verde da terra.
Terminando a primeira margarida, dera um mal-me-quer. Foi tentar outra flor. De novo , o mesmo resultado. E seguiram-se mais e mais margaridas arrancadas, tiradas a finco, debulhadas a rancor, até a mulher perceber que não havia mais flor para continuar. Levantou-se e abandonou o chão que antes vestido de noiva, agora mais parecia um cemitério de margaridas.
Pelo gramado ela um pouco passeou, até encontrar um jardim de petúnias roxas. Sobre este ela ajoelhou-se e uma flor arrancou para inspirar de doce cheiro. A principio inala-se aquele odor tão bom de não sei o que, talvez de mel, talvez de chá, talvez de manhã, talvez de dia-pós-dia. Mas logo a petúnia perdeu o cheiro e ela arranca outra. E como era de se esperar, mais outra até o jardim roxo terminar como o jardim de margarida. E aqui jaz mais um jardim.
Ela continuou a andar sob o sol inócuo, até se deparar com os dentes de leão. Ela assoprou cada um, e se foram as plumas ao vento como alegrias de dias passados. Sobraram apenas os caules ao chão. Na vez, dos girassóis, tombou um por um, e como se cada miolo fosse um rosto ela pisoteou. Na vez dos Jasmins ela arrancou cada chumaço como quem arranca a própria dor.
Destrutiva sem motivos, ela só queria acabar com os jardins. Não se sabe o que a moça guardava para sobre as inocentes pétalas atacar, sabia-se apenas que ela não esta plena de seus sentidos. Talvez tivesse raiva, ou tivesse amargurada. Ou talvez só não gostasse de flores. Mas que ser humano não gosta de flores?
Ela olhou para trás, viu o que fizera. E quando sentiu-se plena, parou de sem motivos estragar a paisagem por onde seus pés tocavam.Ela procurou o motivo de transformar jardins em cemitérios. Ela não descobriu, estava sem sentimentos superficiais, apática demais para descobrir. Coração oco, artérias lentas, pulmão murcho feito às orquídeas que arrancou. Feito os lírios murchos que não nutriam mais do solo.
Mais um sentimento começou a tomar conta ao ver todo estrago que fizera, um sentimento de culpa. “Por que, por que justo eu que amo as flores destrui a suas cores?”
Apenas uma porção delas não fora destruída, o canteiro de rosas. Então, sem dó de si, deitou-se sobre as rosas que perfuravam sua pele branca polar, escorrendo sangue tão ou até mais vermelho que as próprias rosas. Ela afundava cada vez mais no canteiro, e a mediada que afundava, mais árduo e profundos eram os furos pela pele. Mas tudo aquilo aliviava o que sentia por dentro, não valia mais a pena ver o que tanto amava morto por suas próprias mãos. As rosas faziam o que ela fez com suas similares. Ela fechou os olhos, e de lá não saíra mais.
As rosa sempre lhe representaram a vida, e fora sobre elas que aquela moça faleceu.
A rosa é a vida, os espinhos são os dissabores, as pétalas é os que nos encanta e faz continuar, o perfume é o atrativo como o amor. Mas se você cai sobre o canteiro, os espinhos lhe consumirão, e de nada mais adiantaram seu cheiro e pétalas encantadoras.