sábado, 10 de julho de 2010

O Frio na madruaga

   A avenida corria tão longa e deserta... Tão vazia. Era madrugada, os poucos postes em seus focos de luz, iluminavam parte da suma escuridão de cada esquina. Fora isso, era um breu sem fim. Fazia frio, muito frio... Daqueles que alfineta a pele, que faz a coluna vertebral estremecer, que faz os ombros se curvarem, que faz as ventanas e boca soltarem um nítido vapor.
   Por essa avenida, lá estava um rapaz de pele muito branca, pele polar, de cabelo mel, de barba mal feita, que na tentativa de despistar o frio, vestia blusas e blusas, um cachecol, um desses gorros com uma pequena esfera na ponta, luvas pretas...Caminhava a passos lentos, trocava vagarosamente os pés, os sapatos negros em verniz. Cabisbaixo, olhava para o chão, observava a calçada de tons pasteis que pela madrugada eram alaranjados graças a luz dos postes. A mesma calçada era relativamente alta, no meio fio ele se sentou.
   Olhou para os lados, nada,ninguém... Podia se ouvir o canto da cigarra, por vezes algum carro vagando... Fora isso, havia apenas um ecoar chamado silêncio. Vendo-se só, sem ninguém a observá-lo, não hesitou; O jovem rapaz se pós a chorar.
   A princípio, seu choro se equiparava a sonoridade da avenida, eram lágrimas que escorriam mudas em seu rosto quase congelado. Ele olhava para o nada, olhava para a calçada a frente, onde graças à falta de alguma luz, era apenas um buraco negro. Começou a estalar a boca freneticamente, fechava os olhos, bufava uma nuvem branca. Ele olhava para o céu, por vezes, olhava o triste espetáculo da natureza: as estrelas. Como podiam essas mesmas aparecer justamente nas noites mais gélidas? Ele olhava tantos pontinhos, olhava tão fixamente, parecia enxergar o universo em toda sua imensidão. Com isso, ele sentia-se menor ainda, sentia-se diminuir.
   Suspirou, soluçou.Tapou sua face com suas mãos aquecidas pelas luvas, deixava apenas seu nariz visível. Ficou assim por minutos, típico ato de quem esta frustrado. O tempo podia estar abaixo de zero, mas nada se equiparava ao que por dentro sentia o rapaz. Abaixo da epiderme tudo estremecia. Por dentro sua solidão o corroia. Ele sentia falta de algo, alguém, falta de sentido, motivos, falta de esperança, auto-confiança. Podia-se dizer que até de si, sentia falta. Nada o preenchia, nada. Vácuo sem fim.
   Novato na imensa cidade, ele esperava o ônibus para sua faculdade. Esta ficava no outro lado, motivo de seu despertar, assim tão cedo em pleno escuro. Esperava, esperava... Chorava. Por um instante, cessou as águas. Levantou-se, encostou sob um poste. Pensava em todos aqueles que em sua pequena cidade deixara, seus pais e seu único amigo, seu primo. Naquela nova cidade, nova realidade, ainda não conseguira se relacionar com ninguém. Era um rapaz fechado, feito uma concha, uma caixa que tinha medo de ser aberta por alguém e por dentro deparar-se com vazio. Sua vida tornava-se cada vez mais densa, mais embasada diante de seus olhos. Incidia dele, a vontade de sumir de vez, pois sua vontade de ser alguém, fazia dele o nada. Eis seu principal motivo de frustração.
   Para ele, nada mais fazia sentido. Enxergava-se como apenas mais um, um ninguém, que tinha apenas como campânia a própria sombra, que aliás, essa o abandonava em meio as penumbras onde se difundia. Pelo visto, nem mesmo a própria sombra queria estar junto a ele. O coração se apertava, ele lutava contra a própria personalidade, aquela que ele não gostava, aquela que fazia dele o próprio desgosto .
   Eis que na outra esquina, no virar de seu rosto, avistou um cachorro. Não era um cão atraente, não se tratava de um daqueles de pelagem macia, felpuda, de olhos brilhosos, de patinhas delicadas ou orelhas ouriçadas, não , pelo contrario. Era um cachorro de pelagem irregular , encardida, de orelhas desnudas, com cauda imóvel. Estava tão cabisbaixo quanto o rapaz, seu focinho quase tocava o chão imundo. Ele deitou e encolheu-se encostado a parede de um estabelecimento, obviamente fechado.
   O rapaz observou bem o animalzinho... Sentiu algo diferente perante a ele. Por motivo incerto foi ao encontro dele. Agachou-se, estava bem perto do cachorro. A princípio apenas olhou com certa pena o animal. Ele sentiu no olhar fosco deste, a tristeza. O animal olhou para ele. Ruidosamente, o rapaz aproximou sua mão a sua cabeça. Ao contrario do que se esperava, o cachorro não o evitou nem desviou, muito pelo contrario; Aproximou-se mais ainda.
  Enquanto acariciava o animal da cabeça ao dorso, o bichinho fechava os olhos e soltava ganidos, ganidos finos, ganidos profundos... Aqueles ganidos que doíam o coração, que gemiam da solidão... Descobriu então o rapaz, a dor do animal; não era frio, não era fome. Era o isolamento, era a dor de não ter com quem contar, a dor de estar só em um momento alheio e em todos os instantes. A dor de olhar os passos juntos a sua frente e se deparar ao próprio passo solitário.
   Novamente, dos olhos as lágrimas precipitavam, dessa vez acompanhados de fortes soluços, altos, quem saiba acordasse alguém na casa ao lado. Juntos, cão e homem, compartilhavam da mesma sensação. Em sintonia, ambos amenizavam a melancolia do outro... No final das contas, aquele rapaz sentiu-se melhor, bem melhor, acredite. O contato com outro, mesmo não sendo de sua espécie, fizera tão bem quando o acolher de uma pessoa, isso se não fosse ainda melhor... Animais são sinceros, animais não mentem. Dão valor a que sabe que os merecem. Se achasse que aquele homem não merecesse sua Campânia, na certa o evitaria.
   O ônibus chegou, correndo de volta ao ponto, o cachorro segue o rapaz. Porem,eis que ambos devem se despedir. O animalzinho, tristonho ainda ganindo, sentado, olha fixo o rapaz subindo as escadas do ônibus. O rapaz por sua vez, senta-se a janela, se espreme ao vidro observando o cachorro. O ônibus parte, e até certo ponto o bichano o persegue, sempre olhando a janela embaçado onde estava seu amigo. Assim que se depara com o fato de que não alcançaria mais o ônibus, encontra algum canto escuro para lastimar sozinho, enquanto dentro do ônibus o rapaz se lastimava solitário em meio a outras pessoas que lhe eram invisíveis. Nunca mais se encontraram, mas daquele sentimento, ambos também nunca esqueceram.

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