domingo, 4 de julho de 2010

Até o ultimo suspiro

  Lá fora o tempo era de sol, eram de brisas do verão. Lá fora, os pássaros se punham a voar, pousando ruidosamente sobre os fios dos postes, cantando o mundo. Lá fora o tempo era azul... Lá fora.
   Mas era dentro de um hospital, dentro de um quarto em especial, onde o tempo era nublado. Um quarto de paredes beges descascadas, de piso branco, um quarto quase vazio, um quarto melancólico. Nele havia apenas aparelhagem, soro, uma maca com lençóis e travesseiros verde oliva,esta ficava horizontalmente a única grande janela. Na Maca repousava uma mulher.
   Mulher de idade, mulher de suas rugas, do olhar morteiro, das olheiras profundas, dos cabelos esbranquiçados, dos braços fracos, da pele manchada. Mulher dos dedos trêmulos, da voz cansada, com visão debilitada, da respiração pesada.
    Ainda lúcida, com a pulsação querendo descansar por completo, esperava ofegante a presença de alguém. Virava teu rosto, olhava o clarão vindo da grande janela. O sol não chegava a tocá-la, seus raios malmente chegavam à metade do quarto, mas estes reluziam sobre o piso, clareando o lugar opaco. Eis o ranger da porta. Entra um enfermeiro em toda sua vestimenta azulada, quase branca. Calouro em sua profissão,era jovem, vinte e poucos anos. Ele observa o estado de sua paciente, e mais que isso, vê sua agonia, aquela sua solidão... Como poderiam deixar tal senhora isolada as quatro paredes?
   Com passos a ecoar sobre o chão, ele aproxima-se ao pé da maca. Ele olha toda a aparelhagem, analisa. Ela não tinha muito tempo de vida. Nada mais digno seria do que fazer companhia em seu leito de morte.
   Apesar de tudo, nada estava errado do que se é natural. Aparentava ser mulher vivida, mulher de uma longa vida. Nada em que nela se via desmentiria: sua idade, na certa, era em torno dos oitenta. A hora de partida, o horário do trem, uma hora chega a todos, cada um na espera, cada qual em sua estação. O trem a aproximava-se para ela.
  Ele, então, fica apenas na presença. Ele aproxima-se mais, ela o observa, seguindo-o com os olhos morteiros, de íris embaçada,castanho de pontos brancos, acompanhava seus passos. Ele evitou dizer qualquer coisa que a fizesse falar, não queria que gastasse a pouca energia que restara de seu corpo, o ar comprido, o sangue correndo lento entre as veias.
   Ao invés das palavras, ele ofereceu um sorriso. Era um sorriso mentiroso, porém, verdadeiro. Era mentira, pois não sentia alegria alguma perante a situação delicada, sendo que a sua vontade era de lastimar. Era verdadeiro, pois era vindo do coração, da sincera vontade de confortar apenas por uma expressão que lhe dissesse: “tudo bem, cá estou eu, cá esta minha espera.”
   E ficaram assim, silenciosos, naquele quarto de uma única entrada de luz, uma única janela... E ela olhava para essa, janela afora , tão atenuada, perecia querer levantar e adentrar, mergulhar no clarão desta. Olhava convicta, não se sabia o que ela olhava ao exato. Sabia apenas que seu olhar penetrava sereno, por vezes parecia fora de orbita.
   Ela fechou os olhos, virou o rosto para o teto, as mãos que estavam rentes ao corpo, em um enorme e lento esforço, colocou-as cruzadas sobre o peito. O enfermeiro logo pensara que estava morta, mas não. Ainda estava presa ao mundo terreno. Ela abriu os olhos, com visível movimento de dilatação da caixa toráxica, ela respira profundo. Ela pega suas forças restantes, seus resíduos, o que ainda a faz plena, e inicia:
  “ Ah! Juventude!” Sua voz era rouca, era fraca, mas era persistente, assim como quem inicia e quer terminar o discurso mesmo que não o escutem.” Meu jovem, usufrua de toda sua juventude. Da pele Liza, da pele quente e macia, da energia, da visão lúcida, da audição perfeita. Ah meu Jovem! Não sejas como eu,meu jovem...”
   O Enfermeiro pensou em impedir o esforço de sua voz, mas achou que para ela, seria um alívio pronunciar suas ultimas palavras antes de partir, seja lá quais fossem elas. Continuou:
  “...Viva, aconteça o que tiver de acontecer,mas viva. Não sejas como eu. Você, com seus olhos imaturos me vê, observa. Na certa, pensas bem a respeito da minha idade, da longa estrada percorrida, dos meus rumos traçados, dos destinos imprevistos, das alegrias e dos meus descontentamentos. Você repara minhas rugas, você as vê e pensa que eu fora uma mulher vivida. Enganou-se por demais. A verdade de tudo, de onde supostamente cheguei, fora tudo uma grande farsa, pois eu nunca tive de fato uma vida. Talvez eu tenha existido,apenas. Foram 85 anos, Desperdício, completo desperdício.” Sua voz tornava-se cada vez mais fraca e cada vez mais amargurada ao longo de seu epitáfio oral.” Só de olhar para traz, maldita agonia! Olhar para os tantos amores que não tive, os amores de Platão, olhar os amores que tanto me doei e nada recebi se não as cicatrizes, Olhar os amores passageiros, os ilusórios, os falsos, os de faz de conta ... Eu nunca amei, em 85 anos, eu não soube o que é amar, o que é se morrer por alguém, o que é ter consigo um alguém. Veja só agora, meu jovem, ninguém visitou-me. Sabe a razão? Nunca tivera filhos, nunca os quisera... Mas não é a exata razão de minha solidão. Eu nunca tive amigos verdadeiros, nunca atrai as pessoas junto de meu jeito frio e indiferente. Os poucos que tive, no final conclui que nuca os tive, eles nunca voltaram a mim. Ninguém queria ter-me como companhia, ninguém ao seu lado desejara um ser mórbido e calado feito eu. E as minhas emoções...Foram estáveis demais! Aquela estabilidade que fazia de mim um filme em branco e preto, um livro sem tema. eu nunca conheci os extremos, nunca soube o que é agonizar de dor ou morrer de prazer, o que é sorrir por um dia todo ou chorar por uma noite inteira. Era tudo morno de mais. Tudo me tornava uma apática e não via a graça ou beleza do grandioso e quem dirá do simples... Eu não saia de casa. Foi por lá, onde vi minha vida se perder, minha alma se despir de mim, antes do que era físico, ela me deixou muito, mas muito antes do que deveria. Ela me deixou sozinha por anos, por muitos longos anos. Em casa eu lia a bíblia, eu procurava algum sentido para ainda respirar. Eu ligava a antiga TV, e nada que se prezasse passava por esta. Quando eu saia de casa, a vida doía. Eu observava as pessoas, eu invejava sua vitalidade. Elas tinham amigos, elas tinham com quem contar, tinham afagos, elas tinham abraços, tinham carinho. Eu tinha carência, eu tinha apenas um velho urso de pelúcia,de orelhas rasgadas, eu tinha apenas um chumaço de algodão para acariciar. Elas tinham assuntos, eu tinha a omissão, eu tinha o vazio, um vazio que nunca se preencheu. Mas assim como você , eu tinha pele Liza e todas as outras mil dádivas de ser jovem, as dádivas que nunca soube usar...”
   O Enfermeiro despediu-se de seu sorriso,pois em seu rosto uma lágrima tomara conta, uma única que escapara. Ele não imaginava que aquela senhora ainda tivesse consciência ou lucidez suficiente para contar sua lamentável historia. Ele atencioso, ouviu seus últimos versos.
   “ Não importa quanto tempo você vai ficar aqui pela terra, o que importa é como vai ficar nela, e sobre tudo, vai honrar a palavra viver... Ah, essa palavra, não deixe que ela seja apenas uma palavra... Vou me embora, mas que fique claro: não morro velha, não; Pois eu ainda sou um feto, que mesmo no ápice de seus 85 anos, ainda não aprendera a nascer. Apenas lembre-se disso...E por favor, como último pedido,me coloque ao sol. Quero sentir pela ultima vez, ao menos o calor na minha fria existência...”
   Existência... Essa fora sua última palavra. O enfermeiro retirou todos os fios, desconectou todos os aparelhos e colocou a maca ao sol. A luz clareava aquela tão fina pele manchada, aquela pele escurecida por seus sofrimentos e tantos anos. Visando a janela, ela morreu. Mas ela morreu de olhos abertos, bem abertos, olhando o lindo dia que se fazia lá fora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário