quinta-feira, 15 de julho de 2010

A longa espera

  Tudo se movimentava, tudo tomava formas e cores, e em pleno centro da cidade, ela esperava. O corre-corre das pessoas, tantas roupas, movimentavam os tecidos ao vento, panos e cachecóis. Passos incessantes, sapatos envernizados, tênis e salto alto, sapatilhas, pra lá e prá cá, o trocar de pés. E ela esperava. As buzinas, tanta sirenes, se perdiam em meio às falas, conversas, escândalos das pessoas que tão alto invocavam a própria voz. E ela esperava, sob uma das poucas árvores da cidade caótica, ela esperava...
   Nos lados, pela frente e atrás. Nada a condizia, apesar de tudo que ocorria em sua volta, tudo parecia congelado. Os sons em seus ouvidos entravam baixo, distorcidos, abafados. Enxergava as pessoas embaçadas, assim como os carros, ônibus e caminhões. De nítido, apenas o tronco em que seu corpo encostava, as folhas e os galhos quando olhava para cima, a árvore, a única daquela imensa rua.
   Cansada, seus pés mamente a agüentavam, por mais que fosse ela, esguia, longilínea. Estava à espera durante muito, muito tempo. Diziam alguns que ha três horas, outros há mais de sete, alguns especulavam dias, outros diziam semanas, e alguns ousavam dizer a um mês. Mas a verdade é que aquela moça longilínea esperava a mais de um ano. Obviamente, ela voltava para casa quando suas pernas padeciam, mas sempre pela manhã, voltava no mesmo  horário, todo santo dia, no mesmo lugar, sob a mesma árvore.
   Julgavam-na insana, do porque de alguém perder tanto tempo, se ela poderia estar usando de sua pele Liza, do físico jovial para desfrutar da longa vida que pela frente seu rumo tomaria. Aquilo não fazia sentido aos olhares que rondavam pela rua. Alías, no fundo, nem a ela aquela espera toda fazia sentido. Mas não importava, custasse o que fosse, por lá ficaria, todos os dias ela voltaria.
    Ela ficava imóvel, atenuada a olhar para frente,um olhar convicto. Parecia uma estátua, parecia estar empalhada, uma moça que por dentro havia algodão. Se assim ela fosse, leve feito uma pluma ela séria. Mas que nada, por dentro era densa, e o seu denso era feito de idéias e pensamentos, que dentro dela rebatiam e se debatiam. Mente em distúrbio, era ela uma caçadora de algum pensamento lúcido, algo que a puxasse para fora do fundo de seu poço, que há um ano residia.
   Às vezes passava fome, às vezes frio, certas vezes fazia calor. Mas de tão adaptada, nada sentia por fora. Por dentro o que a corroia nunca se adaptava, mesmo sendo o velho sentimento de sempre. Por fora, a apatia era mais que perceptível, poderia alguém em sua frente entrar, e ela nem ao menos dar-lhe um cumprimento, afinal, tudo ela embasado enxergava. As cores estavam difundidas umas as outras, várias focos coloridos que dançavam a todos os lados no movimentar da multidão.
   Estupidamente, para tentar despertar ali, aquela alma morta. Gritavam, a sua frente, acenavam, às vezes, bruscamente a cutucavam... Nada. Continuava sempre em seu olhar rente.
    Fora em um desses dias, um dia qualquer, uma criança que, de mãos dadas com sua mãe, caminhavam a olhar vitrines. A mãe, logo que vira um tal perfume, perdera cabeça. Soltou a mão de seu filho, menino pequenino, talvez seis anos. Ela entrou na loja, espalhafatosa, mulher supérflua de saltos agulha. O menino esquecido para fora caminhava sozinho pela calçada. Todo curioso, todo o mundo a observar. Pessoas tão altas, pessoas tão grandes, ele admirava a rua que para os gigantes há muito tempo era sem graça. Ele Em frente à moça imóvel, a moça estátua, ele passou. Parou. Olhou bem para ela, apertou o joelho de pele fina, que batia a altura de seu nariz. A moça sentiu cócegas, há muito tempo não sentira tal sensação. A princípio parecia um incômodo, mas ela riu, mesmo que de muito leve, ela riu. Isso fez com que ela enxergasse nitidamente o garotinho. Via perfeitamente seus olhinhos castanhos, seus cabelos, tão fininhos, tão dourados, quase brancos,e sobre tudo, via a explosão do vermelho de sua camiseta. Ela viu o menino andando em meio ao cenário desfocado. O menino andava em meio à rua, em meio o asfalto... Lá vinha um caminhão, Azul intenso vindo em direção. E ele ia, sem percepção, motorista desatento. Não enxergava o menino.
   Mas a moça, apesar da visão debilitada por sua mente, via o nítido menino com uma mancha azul que por traz dele vinha tornando-se maior e mais azul. Desprendeu-se da arvore, por instinto, agarrou o menino e gritou, o Mais alto que pode para que o caminhão parasse. A poucos metros de distância, por um milagre, o motorista conseguiu frear. Encostou sua extremidade no nariz da moça que estava agachada ao chão, de olhos fechados, fortemente em seus braços, acolhendo o menino. A rua parou para olhar o ato heróico. A mulher nem se dera conta do que fizera.
   Ela apenas abrira os olhos, como em mil feixes de luz adentrando em seus olhos, como enxergar pela primeira vez, ela observa sua volta. Tudo tinha de volta seu formato, tudo tinha de volta sua cor, sua linha, suas curvas, principalmente, seu movimento. E aos poucos, sua audição também voltara, escutando os comentários que pelos ares eram soltos a respeito de seu feito. Após um ano, um longo ano estava lúcida.
    A mãe, em desespero, corria em direção à moça. Corria desengonçada graças aos calçados. Ela, com sua bomba a todo vapor em suas veias, movimentando o sangue e adrenalina, não tinha palavras aos quais expressariam o quão grata estava. A moça deu um beijo na testa do menino e entregou a sua mãe e por ultimo deu lhe a sentença:
   -Por favor, mais cuidado, não deixe seu filho solto. O meu, cinco anos, morrera rente aquela árvore por um Palha vermelho há um ano.
   Depois disso voltou para casa. Agora, enxergando e ouvindo. Não viu mais motivos para voltar amanhã e esperar por aquilo que nunca voltaria, aquela vida que não retornaria. Mas de uma coisa ela percebeu. Aquele tempo todo não fora uma espera em vão. Talvez a verdade fosse, que aquela espera de um ano, fora para salvar uma vida, aquela que do próprio filho não pudera salvar.

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