quinta-feira, 8 de julho de 2010

Sextas de serenatas

   Quase seis horas, malmente me arrumara. Era sexta-feira, a minha rotineira. Desta, eu estava atrasado do meu compromisso. Insegurança, diante do espelho, o meu cabelo bagunçado não tinha mesmo jeito, sempre armado, sempre desarrumado. Mas não importava,dizia que deste ela gostava assim, desalinhado. Então, que não fosse diferente. Agora não encontrava os meus sapatos que tão bem engraxados foram por mim. Procurava, procurava. De baixo das camas, na sapateira, por entre as cadeiras da sala... Não encontrava os malditos sapatos! Estavam perfeitos, toda sexta eles estavam impecáveis,mas por algum motivo, os perdi. Tudo bem, coloquei minha velha sandália de couro, as que tenho desde os dezessete. Procurei por uma camiseta que fosse elegante. Que nada, em minha gaveta só trapos. Coloquei uma qualquer, coloquei a minha xadrez de gola descosturada. Coloquei meu Jeans. Voltei ao espelho, mas que desleixo! Em uma sexta-feira, nunca me arrumara tão mal!
   Eu não tinha tempo para detalhes. Peguei meu violão, aquele que deixo no cantinho da parede do meu quarto, junto às partituras e escritos espalhados pelo chão. Mão no violão, às pressas eu sai. Correndo, desvairado, pelas ruas eu passava, pessoas a me observar, na certa pensavam: “ Aonde vai tal rapaz insano?”
   E essa era a verdade, eu era um louco. Um louco, de um tolo coração. Meus pés me levavam até o caminho da casa dela. A casa sem grades, a casa de dois andares, de tijolos muito vermelhos, de janela branca. Do passeio de única árvore, árvore de outono, de folhas amarelas, folhas secas que com a brisa, suave sobre a calçada repousavam.
  Sob sua janela eu estava, minha companhia , meu violão. E comecei com o tom que ela gosta, aquelas notas, a antiga canção. Seu nome eu aclamava, pedia seu ar da graça, que levantasse seu vidro para que eu pudesse ver seu lindo rosto. Ela faz graça, ela enrola. Era seu charme: devagar ela aparece, mas logo em seguida, ela desaparece. Fica no vai e vem, como quem nada quer. Finalmente, ela aparece de vez à janela... Ah, mas que moça! Aquele cabelo longo, aquele tão liso, castanho intenso, a malícia de seu doce sorriso... Seu olho, seu olhar, amendoados, tão pretos, me perdia neles como se fossem a própria escuridão.
   Hoje, inseguro eu tocava, com minhas roupas simples ao contrario do que se era de costume, eu fazia sua serenata. Ela apoiava seu pequeno e delicado queixo a sua mão tão bem feita. Ela ria, olhava-me como um bobo, ela gostava. Eu lhe dava um largo sorriso, fazia de mim seu vassalo, eu a amava. Após tantas canções, tantos acordes, após tanto tempo de pé, na calçada a se mostrar involuntariamente ao público que passava, quando a verdadeira platéia estava na janela, ela desce. Ansioso, espero na porta com o violão repouso ao chão. Ela devagar abre a porta. Ficamos sem graça diante um ao outro.
   Explico-lhe o porquê de minhas roupas, já que toda sexta-feira, nos mínimos detalhes apareço. “Que nada” ela diz.
   Ela não liga, moça de simplicidade, ela gosta dos meus cabelos armados, ela gosta da minha música, o que sei fazer com um violão. Quem saiba ela goste de mim...Ou não. Ela nunca me convida para entrar. Ela joga um papo fora, ela passa a mão em seus cabelos, ela envolve meu olhar... Ela se encosta na porta, se joga, ela coloca a mão em sua cintura fina, tapa as risadas tímidas só para fazer manha. Mas nunca faz um convite. No final, na despedida, sempre um abraço, nunca um beijo.
   Essa sexta não foi diferente das outras tantas feiras. Eu perdia cada vez mais as esperanças, mas enquanto eu pudesse as cordas dedilhar e a minha voz cantar, lá eu estaria, clamando por seu amor.
   Era noite, voltava para casa. Sobre o telhado, sob o frio, sob as luzes do céu estrelado, fazia uma música, uma que cantasse ela. Era um blues, era um rock, era ela. Tudo a remetia: o céu escuro lembrava os olhos dela, as arvores de folhas finas que na ventania esvoaçavam pareciam suas madeixas, o silêncio da noite lembrava o vácuo entre nós. Oh, minha coita! Porque o amor é sempre assim? Tão certo e tão inseguro... Porque nos traz um certo conforto e ao mesmo tempo em que não nos conformamos com a carência quando ausente, ou assim como eu, por não ter a amada. Um jogo de preenchido e vazio... Sentado, agora eu me deitava, eu a imaginava ao meu lado. Compartilhando a friagem e sereno, compartilhando abraços, os calor entre dois corpos... Doce ilusão.
   Agora, a próxima sexta-feira, semana seguinte. Dessa vez, tudo definido, os sapatos, a camiseta elegante... Mas os cabelos sempre armados, todo desarrumado. Novamente, eu e meu violão sob aquela janela. Eu iniciava a serenata, enquanto timidamente ela surgia, aos poucos aparecia... Mas dessa vez algo mudou. E muito .Bruscamente os vidros se abriram, de lá, eu saíra encharcado, a água fria de um balde fora jogado. Foi então, avistei alguém, vi um rapaz... O rapaz estava junto dela, estava com ela. Ele ria, ria muito. Eu vi ela. Nada fazia, se não olhar-me dissimulada, feição de quem tinha pena apenas. O cara era burguês, era um homem, na verdade quase um moleque. Era o típico o encantador, que entre seus jogos e cantadas, seduzia a qualquer moça bonita. Ele colocou suas mãos envolta sua cintura e saíram da janela, da minha visão... Mas ela ainda olhou para traz, com seus dois pontos pretos mirou-me, parecia dizer:“desculpe”.
    A água era fria, mas não mais do que aquilo que por dentro sentia... Que injustiça! Ah, se ela soubesse o quanto por ela eu sofro! Por quantas vezes a desejei, quantas canções levaram seu nome, quantos acordes pensados em nela... No entanto apenas com as suas migalhas eu me contentava... Já falei o quão injusto é o amor? Ela por sua vez, aposto que para meu cabelo nem ligava, pouco a importava se usava sapatos ou sandálias. Ela nunca gostou de mim. Quem saiba gostasse daquilo que meus dedos e voz faziam, mas não era a minha pessoa que ela desejava...
   Para casa, cabisbaixo, pela calçada respingava, as pessoas a me observar na certa pensavam: “ Donde voltara esse rapaz encharcado?”
   Eu voltava de um lugar, de uma calçada, onde não haveria de esquecer meus sentimentos, aqueles que por mais sublimes que fossem, não compatiam a música. Sozinho fiquei, pela noite, minhas lágrimas eu cessei. Eu tinha um coração partido, mas também tinha um violão em mãos. As cordas podiam não conseguir re-costurar meu coração, mas do som eu fazia o meu ópio. Ficaram em mim as serenatas. Músicos são eternos seres apaixonados.

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