Todos e tudo, têm algum dom. Diferentes, inúmeros, assim como os tons das flores de um jardim. O dom da música, o dom de encantar, o dom de sempre sorrir, talvez o dom de desenhar, o dom de melhor sentir, o dom de viver...
Quando pequenina, costumo lembrar-me da época em que eu tirava o dom das borboletas. Eu arrancava-lhe as asas por puro prazer, um prazer inocente. Andava, pisoteava sem querer as flores com meus pesinhos de sapatilhas cor-de-rosa, a caça de alguma borboleta que, quando distraída, apoiadas sobre pétalas, tomando de um doce néctar, a pegava pelas asas fechadas. Achava engraçado aquelas perninhas, tão finas quanto uma agulha, debatendo no ar, desesperadas, temendo a minha presença, a minha mão tão delicada e ao mesmo tempo tão destrutíveis contra ela. Então arrancava suas asas. Fazia um barulho semelhante ao de rasgar um papel seda, um papel bem fino. A textura era um leve áspero, tinha pelos quase microscópicos, felpudos. Mas o que mais me encantava eram as cores. Por vezes em tons marrons, às vezes brancas, com sorte encontrava as magníficas azuis, algumas amarelas, outras pretas e amarelas . E ficava observando as asinhas sobre minha palma em concha, enquanto deixava a borboleta sem sua asa ao léu, provavelmente caminhando pelo gramado entre os caules e folhas, andando sob as flores, como se fossem árvores a uma pessoa.
E sempre que disso recordo, me vejo dentro de cada borboleta que um dia as asas lhe roubei. Observo isso daqui, da minha sacada, aqui, no décimo andar. Eu vivia no campo, até meus dezoito anos, eu tinha pastos verdes sob meus pés, eu tinha o céu do mais puro ar sob minha cabeça, eu tinha árvores, rios e pedras, morros e montanhas girando ao meu redor. Daqui eu vejo, aos meus vinte anos, eu vejo concreto sob meus pés, vejo a fumaça sobre minha cabeça, tantos carros e motos, edifício que escondem o horizonte, omitindo o pôr-do-sol. Eu não vejo graça nisso... Eu não desejei nada disto.
Desde pequenina, mamãe me dizia: “Essa menina dará uma moça Formosa! Essa sim casara com moço de berço, vai para cidade conseguir seu arrego. Ouça o que lhe digo, case com o homem que lhe garanta sustento, e que você lhe dê seus rebentos, quantos ele merecer. Ah! Minha filha, o campo é pequeno demais para ti, a cidade é teu lugar, ouça o que lhe digo!” Sem muito bem entender, atenciosamente escutava o que ela dizia. Mas o que realmente chamava minha atenção era o quão a cidade parecia maravilhosa, mediante ao que ela descrevia. Meus olhos por dentro brilhavam apenas em escutar, o que lá estaria a me esperar. A mais pura ilusão.
O tempo passou então. Fora arranjado um casamento, uma farsa. Fomos morar em uma cidade grande, muito grande. E fato era; ele amava-me, e dele, dele eu gostava. Ele de tudo fazia para agradar, eu fingia-me de agradecida. Trazia-me buques de flores, mas as flores que eu queria, estavam ainda enraizadas ao chão. Ele não cansava-se de me ter, eu não agüentava o ver. Aquilo por dentro corria-me. Nada era como deveria de ser: Nem a ele, nem a mim. Ele perdia cada vez mais seu dom de amar, desperdiçava-o a quem não o merecia, comigo. Eu perdia meu dom de viver, presa ao apartamento, as rotinas da cidade.
E hoje penso que não sei ao certo o que sente uma borboleta ao ter suas asas tão finas e frágeis, arrancadas sem escrúpulos por uma mão humana. O que sei é que quando arrancadas de seu corpo, faz um barulho seco, um barulho baixinho, quase inaudível...Inaudível, ao menos para quem arranca estas. Mas, o que sente a borboleta? Será dor? Será que em suas asas há alguma ligadura ao tórax, algo que à faça urrar em meio ao silêncio? Não sei. O que sei é que de qualquer modo, perder a liberdade, perder um dom, o dom de voar, não deve ser nada fácil. Imagine a borboleta ao se deparar com suas asas decapitadas no chão, deparar-se pressa ao chão. Imagine a borboleta, sabendo que suas asas nunca se regenerarão , que nunca mais levantara vôo em céu límpido. Imagine uma borboleta sem asas. E nesse momento eu era uma.
Ah, se eu tivesse coragem! Um fim nisso tudo colocaria, com novas asas, as novas que criaria, ao meu modo eu aprenderia novamente a voar. Mas tenho medo. Estou a dois anos presa ao chão, há dois anos estou nessa farsa, neste casamento. Não sei mais como é sentir a brisa na pele, os cabelos a esvoaçar. Perdi inúmeros dons. Eu queria agora estar na minha terra, à verdadeira, a que me pertence, a ela eu pertenço. É lá onde estão as minhas asas muito finas, mas que fazem-me perder o chão e tocar as nuvens. E ele? Bom, ele precisa achar quem lhe dê as asas, e essa pessoa não sou eu, por mais que lhe doa. Eu me sinto mal por isso, mas o que posso eu fazer?
E hoje é Primavera, hoje algo acontece. Hoje um milagre acontece. Tudo, tudo gira, luzes, mais parecem holofotes que ofuscam minha visão. Estou tonta, estou pálida, respiro com força, eu fecho meus olhos. Dói, faço um esforço para que doa mais, urro, grito, meu marido segura minha mão. Ele aperta minha mão. Tanto barulho em uma única sala de hospital. De repente, tudo calou-se... Silêncio total. Ouço o mais doce choro, mais doce que o néctar das abelhas, das flores. É ele, o rebento nasceu. Um lindo menino. Emerge de mim, o instinto maternal, emerge dele o instinto paternal. Tínhamos agora um novo dom: o dom de sermos pais. O amor imediato, o amor que sentíamos pela criança era imenso, intenso, um amor que criou-nos novas asas. Nunca imaginária que prender-se ao amor de uma criança, libertar-nos-ia dos males. Olhando a criança, aprendi amar o pai, via em sua face às virtudes deste, o meu marido.
Aprendi a vida seguir, aprendi devemos apesar das circunstâncias, voar. Não importa a atmosfera, o quão longe estamos daquilo que um dia nos fizera flutuar, o que importa é que todos os dias, ao contrário da pobre borboleta, regeneramos nossas asas, cada vez mais fortes, dispostas sempre a levantar novos e longos vôos. E claro, ensinei a meu filho a não arrancar asas aqueles que não podem novas criar, como as asas das borboletas.

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