No final de uma rua sem saída, pelo subúrbio de uma cidade qualquer, havia uma modesta casa, talvez a mais encantadora de tal rua, com muro de pedras cor branco navajo, enverdecidas pelas trepadeiras e pelo chorão que emergindo de dentro da varanda, com suas folhas longínquas quase tocavam o passeio lá fora. As paredes eram creme e as janelas, todas em quadrado, eram de madeira maciça, madeira quase viva. Telhado alaranjado, impecável, sem sinal da umidade.
Tinha um bom tamanho, o suficiente para abrigar uma família de prole. Mas que nada! Quem vê a casa se engana. Por traz, ou melhor, por dentro desta morava apenas um velha rabugenta. Pelos menos essa era a visão que todos tinham da moradora.
E apesar do mau humor, todos procuravam por ela. Motivo? Ela tinha uma mão digna de costureiros de um rei. Sua especialidade era fazer vestidos de noivas, cada um mais requintado que o outro. Uns eram tomara-que-caia, outros de decote em “V”, certos tinham babados, alguns enormes caldas, eram lisos ou de camadas, de pedras e de rendas... A mulher inventava e reinventava modelos. Assim que podia, lá estava ela, junto dos fios, linhas e tecidos, sempre a costurar. Por fim, de lá seus clientes satisfeitos saiam, felizes, finalmente preparados para casar e realizar um sonho. Desse modo ela era vista: a costureira ranzinza, porém de cortes e costuras perfeitas.
Mas uma coisa ninguém via, uma coisa ninguém reparava; Ninguém sabia da dor das linhas e agulhas, das lágrimas derramadas sobre os tecidos. Cada roupa finalizada por ela, na certa era um suspiro. É a história dela: a mulher nunca fora amada no longo de seus quase 67 anos. Decepção, frustração. Parecia uma praga, algo traçado pelo destino. Seus amores sempre foram não-correspondidos.
Ela não sabia o que nela havia de errado; Desde a adolescência, uma moça quietinha, quieta até de mais. Mas era doce, era suave... Mas pobrezinha, tão opaca! Todos por ela passavam, era invisível. Os rapazes malmente notavam sua presença, e se notavam não se interessavam. E lá ficava ela, em um canto reprimida com suas meias Três quartos.
E quando a flecha do cupido acertava-lhe? Era o pior que podia lhe acontecer. Com a cabeça em outro lugar, no amado ela sempre pensava, mas já tinha em mente: na certa, não gostava dela. Para seu infortúnio, era o que sempre ocorria. Declarava-se, sua face ficava vermelha, e logo após a rejeição, eram seus olhos que ficavam durante mais de uma semana.
Quando adulta, sedenta de carência, tivera até um “casinho”. Mas que nada, não se ama no desespero, não se ama por amar. Não durou nada.
Frustrada, tornou-se o que é hoje, vista negativamente por todos, sem saber de suas razões. Fato é que todo vilão tem seus motivos de ser, não são por acaso.
Em mais um amanhecer, céu limpo, céu nítido. E lá estava ela, sentada em uma cadeira antiga no quintal, daquelas de pernas bambas e já desbotadas. Dessa vez, fazia apenas um simples crochê enquanto olhava seu gramado tão sem graça. Eis que o telefone da cozinha toca. Ela atende sem hesitar:
- Pois não? – Acostumada a não receber ligações de parentes ou algum raro amigo, ela já tinha em mente que era mais um de seus clientes.
- Veneza? É você? – Falou um homem ao telefone – Sou eu, Henrique! Há quanto tempo! – Falou em tom de nostalgia.
- Olá Henrique. Sim, muito tempo. – Ríspida.
- Ainda Fazendo suas peças? Pois preciso de uma. Você não vai acreditar! – De fato, Henrique estava exaltado ao telefone – Após anos de procura, no ápice da idade, eu me encontrei e encontrei uma pessoa maravilhosa, que o tempo todo estava ao meu lado. Lembra-te da Fran? Pois é ela! É ela! Nos casaremos e todos os ex-alunos da nossa antiga classe estão convidados, inclusive você.
- Olha, eu vivo dos meus vestido, não pense que não irei cobrá-los porque vocês um dia foram meus colegas de classe e estão me convidando para esse casório.- Falou seca.
- De modo algum... – Respondeu sem graça – Mas é claro que iremos pagar cada centavo.
Negociado os detalhes, Veneza tinha uma semana para fazer o vestido. Com todo material em mãos , iniciou o trabalho.
Em cada ponto botava sua alma, como se fosse seu próprio casamento. Para ela seu trabalho ( que para ela não era um trabalho) era seu viver. Na campainha dos pássaros sobre o fio elétrico e da solidão que rondava pela casa, ela costurava,costurava. Pronto. Menos de uma semana, um vestido perfeito que logo fora entregue...
Dia do casamento, Veneza não sabia se iria. Temia ver todos seus ex-colegas, casados e com seus frutos, felizes enquanto ela levava uma vida aborrecida. Andou para lá, andou para cá. Pensou, decidiu. Ela iria, não tinha nada a perder.
Longo, vestido tubinho azul cadete. Um delicado colar de falsas pérolas assim como o brinco em combinação. Cabelo um pouco armado , um certo charme da idade. E por fim uma sandália rasteira. Lá foi ela.
Timidamente, chegou à igreja, sentou-se nos fundos. A cerimônia fora simples, mas de muitas lágrimas satisfatórias, de união e esperança, que com tudo compensavam os bancos não muito enfeitados, com apenas alguns discretos vasinho de margaridas. Terminada a cerimônia, os convidados foram à festa.
Dissimulada, face fechada, no salão entrou ela. Observava a todos, malmente reconhecia os velhos rostos. Não se lembrara de ninguém, exceto daqueles que lhe trouxeram certo desgosto. Disso ela não se esquecia todas as vezes que olhava as cicatrizes em sua personalidade rígida. Perambulando pela pista quadriculada, preto e branco, ela tentava procurar por um sentido de estar aborrecida em uma festa, sendo que poderia estar na monotonia de sua casinha, porém sem a solidão em meio a tantas pessoas (essa sempre fora a pior das solidões).
Passos cá e acolá, eis que em um desviar de olhar, visa um alguém: óculos redondos, boina xadrez, desengonçado e magricelo. Com convicção, reparava em tal figura do sapatos engraxados até a ponta do nariz... Mas era ele! Não que tivesse sido alguém especial a ela, muito pelo contrario; Malmente jogavam uma conversa fora em tempos de colégio. Mas sem razão, lembrava seu nome: Jonhatan.
Costumava ser um típico rapaz estudioso, de poucos e sinceros amigos. Caseiro, ficava em casa lendo seu periódico e por vezes saia para a pracinha tomar uma fresca.
Veneza aproxima-se, assim como quem nada quer, puxa um assunto qualquer, e sem perceber, levaram uma boa prosa a respeito das antigas e da atual vida. Conversavam de tudo um pouco, trocavam miúdos.
A agitada música de discoteca para um instante, logo começa a tocar “And I Love her” dos Beatles. Feito dois adolescentes na flor da idade, ambos acanhados, Johnatan a convida para dançar. Veneza aceita com um tímido sorriso no rosto rosado.
Embalados pela música, o mundo dela começava a flutuar por tão pouco.Ha quanto tempo não apoiará seus frágeis braços sobre o ombro de um homem, a quanto tempo não tinha braços envoltos as suas costas. Enquanto a música tocasse nada mais importaria, ela estava em sua perfeita companhia a se soltar. Dançaram uma, duas, cinco ou até mais.
Final de festa, todos vão embora, cada um a seu rumo. Os dois juntos, passos curtos, até a esquina onde havia uma Primavera. Frente a frente, ela sorrindo de ponta a ponta do rosto, ele satisfeito por tudo.
-Então, agora eu tenho que ir- Johnatan diz.
-Espere!- apoiou uma mão sobre o próprio colo- Eu não perguntei aonde você mora agora. Quando nos veremos?
- Creio que não nos veremos mais. Moro Longe demais daqui. Com minha idade e problemas, preciso morar em uma cidade maior para tratar-me e ficar junto dos filhos que cuidam de mim. Eu sinto muito.
E aquela esperança, que dentro dela brotava havia murchado como um jasmim encharcado. Lentamente seu sorriso inclinava-se para baixo.Assim que ele percebeu a desfeita de sua expressão, tratou de estender o braço e apanhar uma flor amarela da árvore, da primavera. Ele deu-lhe a flor e um confortante longo beijo. Dentro dela novamente a esperança brotou e ele foi embora, antes que perdesse o trem. Ela ficou lá por cinco minutos, paralisada ,segurando a delicada flor. Fechou os olhos e ofegou.
Naquele dia, a costureira voltou para casa andando devagar no sereno aconchegante. Que aquela sensação de bem estar com alguém nunca acontecesse novamente, tudo bem. Ao menos agora ela sabia, alguém nela pensaria com carinho durante essa noite antes de dormir.

solidão em meio a tantas pessoas (essa sempre fora a pior das solidões). fato...
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