Janela do nono andar. Visava afora uma pequena parte da imensa cidade, uma parte caótica, donde podia se ver o trânsito, a fumaça, todo cinza e todo grená . Podia se escutar sirenes, buzinas alarmantes, pareciam pedir para que logo pulasse.Ela estava de pé, em cima da cama desarrumada, de edredom emaranhado, com o travesseiro jogado no chão, junto das fotos encharcadas pela tristeza derramada de seus olhos. Inconsolável, não queria acreditar. Urrava a dor, o pedaço de seu todo. Como poderia aquilo ter acontecido?
Por coragem ou covardia, parecia disposta a se atirar, como nobre anjo sem asas, chocar-se ao chão frio.Fragilizada, mesmo vendo pontinhos, pessoinhas logo a baixo, sentia-se isolada. Seu pai, logo a sala ao lado. Mas dele ela não queria arrego. Preferia ficar assim mesmo, sozinha a sofrer.
Ela sentou à janela, com uma perna para dentro e outra para fora. Além da altura, na escuridão ninguém a enxergava além da lua e estrelas ofuscadas pelas luzes tão artificiais da capital.
Olhava para baixo, pensava alto por vezes, mas não o suficiente para que escutassem seu apelo. Agora o vento gélido passava por seu rosto quente, de olhos cansados de tanto lacrimejar. Inspira, respira, suspira.
Ainda incerta de seus atos, relembrava o arrego, o carinho, o conforto da pessoa por quem tanto chorava. Relembrava das tardes de sol, as manhãs nubladas, das viagens para o campo, dos passeios pela cidade, das lembranças compartidas. Lembrava também, quantas foram às brigas, os sermões e ainda alguns tapas. Mas que nada, isso nem tinha importância, irrelevantes eram perto do amor que essa mesma pessoa oferecia.
Agora soluçava. Agora colocava as duas pernas ao léu, mas por motivo incerto, segurava com força a borda da janela, vagarosamente, sentava cada vez mas perto do final da janela e quem sabe, seu fim.
Badalava agora demais o coração, se não perdesse sua vida no áspero solo, quem sabe a perdesse via ataque cardíaco.
Trêmula estava, mil coisas agora se passavam por sua cabeça. Eram gritantes, eram lembranças. Tudo se misturava, tudo que vivera semana passada com que vivera a um, quatro, ou até 10 anos atrás. Cabeça em distúrbio, mente sedenta em um único alvo. Ela grita.
Mas não era um grito qualquer, era um daqueles que desperta até quem assim como ela, nada mais queria. Ela soltou sua alma com seu grito mas não se soltou da janela. Em um estalar de dedos, como se saísse de um pesadelo nebuloso, ela acorda.
De repente nada mais escutava, vácuo, um vazio. Nem carros, motos, helicópteros, gente. Nada mais fazia barulho. Eis que da sala, quebra o silêncio o antigo toca discos. “Wish you were here” essa era a música. Ah! Aqueles calmos e serenos acordes iniciais, a melodia! Era a única coisa que chegavam aos ouvidos da garota. Novamente ela Inspira, respira e suspira. O coração acalma. Ela se joga. Mas se joga de costas, cambaleando, cai na macia e aconchegante cama. Suicídio não era mais opção. Ela pisando sem querer nas fotos, vai até a sala em passos arrastados.
Visando seu pai que olhava solene o toca discos, dá lhe um forte abraço, e chorando ao seu ombro diz:
-Pena que se Foi, Essa era música preferida da mamãe.

DEMAIS!
ResponderExcluirAmeeei !
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