domingo, 20 de junho de 2010

As Rosas da Construção

    Ela não tinha pressa. Segunda feira, Vagarosamente pela calçada rachada e disforme, observava suas sapatilhas surradas trocando os não tão longos passos. Era o caminho de volta para casa após um cansativo dia de aula do ensino público, sendo sempre a mesma rota, as mesmas casas, as mesmas árvores, o mercado de verduras, a arara de roupas rente ao humilde brechó... Oh, monotonia de cidade pequena!E sempre fora assim.

    Há dois quarteirões, lá estava ela, quase em casa. Mas eis que a pequena Mariel, ao passar pela velha e jamais finalizada construção, se depara com algo fincado na areia desta: Era uma rosa, uma singela rosa, pura, em meio aos vergões, tijolos rudes, paredes de cores opacas, cinzentas sobre solo cru. A princípio Mariel apenas observa, instigada do porque daquela rosa estar ali. Resolveu apanhá-la apesar de possuir um canteiro de rosas em casa.
    Ela retomou o caminho de casa e em menos de 5 minutos chegara. A mesma era humilde, de cômodos pequenos, portãozinho azul de madeira, com um quintal de muito verde, paredes beges claro, janelas de lata da cor do portãozinho e telhado comum.
    Mariel fora direto para seu estreito quarto com sua tão vermelha flor na mão. Sentou-se em sua cama de lençol amarelo opaco. Olhou a rosa, apalpou as pétalas e as folhas.
    Começou a indagar: “se tenho tantas rosas em meu jardim, porque trouxe esta para minha casa?” De qualquer forma, colocou-a em pé, em um vaso de vidro com água. Bom, todos sabiam que a rosa não viveria muito, mas no entanto alegraria o quarto enquanto suas pétalas estivessem macias e suas folhas verdes. Mariel deixou o vaso sobre o criado mudo de duas gavetas e fora fazer as tarefas domésticas junto de sua mãe.
   Vida simples, vida pacata, assim era o dia-dia da pequenina. Música no radio a pilha, receber parentes, jogar bola com os primos, empinar pipa, infância anos 80. Tinha muita liberdade, mas claro, até as seis da tarde, depois disso, nada de sereno.
   Aquele dia havia sido como um outro qualquer. Chega a noite e ela vai dormir. Antes de apagar a luz do quarto e deixar a luz do abajur acesa (sim, Mariel temia o tão incerto escuro) ela olha para rosa intacta. Sente o doce odor desta, acaricia a rosa como se fosse um animalzinho, uma chinchila talvez. Então, já com a fraca luz acesa, apaga a mais forte, a do quarto. Repousa sobre colchão, dorme na mais inocente paz de uma criança, sob o cobertor de crochê que sua avó fizera há dois anos.
    Manhã seguinte, a menina vai a escola, tudo como de costume, a mesma rotina, sem altos, sem baixos, de diferente, só mesmo aquela fantasia de gente pequena.Bate o sinal, para casa sozinha, Mariel faz o caminho de costume...
    Novamente a construção, novamente uma rosa fincada na areia. A pequenina observa a rosa, tão parecida como a que acolhera ontem. Resolveu levá-la para casa. Definitivamente, aquele lugar inóspito, cinzento e sem graça não era lugar para tal formosura.
   Chegando em casa, ela coloca a rosa junto a outra, no mesmo vaso de vidro. Agora eram duas alegrias naquele quarto espremido. Novamente, o resto de um dia comum e de uma noite normal.
    E assim fora o resto da semana, no voltar da escola sempre uma outra rosa, no total do vaso agora eram 7 alegrias. Até nos finais de semana ela resolveu passar por lá, só para ver se tinha uma flor fincada em meio à aridez. Mariel só não entendera duas coisa: porque seu instinto de criança a fazia acolher tais flores que resolveram do nada aparecer, e porque absolutamente nenhuma rosa havia murchado. Todas estavam macias, todas estavam vermelho tinto vivo, e sobre tudo, com o mais doce e suave perfume.
    Segunda-feira, uma semana após a primeira rosa. Na volta da escola, ela passa em frente a construção... Dessa vez, nada havia lá. Mariel de certo modo, decepcionou-se, afinal, resgatar rosas havia se tornado parte da rotina. Tudo bem, ela voltou para casa só na campainha das surradas sapatilhas.
Chegando,corre para o quarto e olha para o vaso. Todas perfeitinhas. Durante um tempo ela, em meio ao silêncio do quarto, conversava com as rosas. Coisa de gente pequena. Ela acreditava que as rosas respondiam. Mas não ficou o dia inteiro por lá, sua vida continuava por igual.
     Dia seguinte na volta, ela não encontra rosa alguma. “haveriam as rosas desaparecido? Ou será que nunca mais aparecerão?“ Mais uma vez decepcionada, volta para casa. Mas as suas estavam lá, no vaso de vidro com água. Impressionante, nenhuma fragilizada, sempre vivas.
    Mariel então levou uma “séria” conversa com as rosas; Ela perguntou por eram tão fortes, porque estavam na construção, porque não encontrava suas supostas irmãs...Com tanta assiduidade que perguntava e acreditava nas rosas, ouvira elas respondendo. As rosas agradeciam ao seu acolhimento , estavam muito gratas por não terem sido simplesmente abandonadas, por alguém não ter desistido delas e por tão bem terem sido cuidadas. E agora que estavam todas juntas, as sete pediram para que no dia seguinte fossem levadas de volta a construção. A menina não compreendeu porque queriam voltar a frieza e vazio de tal lugar, mas fez a vontade destas.
    Dia seguinte, nascer do sol. Na ida para escola pelo caminho costumeiro, deixou as sete rosas no chão terroso e morto da velha construção. Ah! Que dor sentira em seu coraçãozinho Mariel! Mas se essa era a vontade das rosas, que assim fosse. Retomou o caminho para escola, sempre olhando para trás, pensando nas “alegrias” de seu quarto.
     O tempo todo, em cada uma das aulas, a menina não parava de se preocupar com as rosas. Não via a hora do sinal bater.
     Finalmente! Saiu da escola, rapidamente, sem prestar atenção nas sapatilhas ou passos, foi até a construção. Ah, por essa não esperava. As rosas não estavam mais por lá. Chorando se foi, Mariel vagando até sua casa.
     Chegando ao quarto, na cama se jogou. Ela chorou, chorou por demais. Onde estão as alegrias? O vasinho do criado mudo? O resto do dia ela não quis saber; Nada de tarefas ou de jogar bola, não tinha humor para isso.
     Dia seguinte, um amanhecer triste, até o céu azul resolveu se esconder nas cinzas das nuvens. Mariel não passou pelo caminho da construção dessa vez. Ela deu a volta.
Na escola, ela ficou pelos cantos, pensando que fim levaram todas as flores. Bate o sinal e ela então, decide passar pela rua da construção.
     Ela não tinha muita esperança, achou que veria apenas aquela coisa velha caindo aos pedaços. Enganou-se, para sua felicidade, enganou-se demais. A coisa velha agora, rodeada por carpinteiros, estava como num toque de varinha de fadas, quase acabado, faltando apenas uma parede a ser pintada pela tinta tão branca que reluzia com a luz do sol, o qual dentre as nuvens surgia. A construção agora era uma linda casinha, de janelas de madeira, com jardim cheio de roseiras, com um quintal verde vivo.
     Os olhinhos de Mariel cintilavam, era inacreditável. Aquela construção que não fora terminada a mais cinco anos agora estava lá; Intacta como as rosas no vaso. A menina não tinha dúvidas, aquilo fora obra das suas flores!
     Voltando para casa, feliz a saltitar, espanta-se. O caminhão de mudança estava a sua porta. Homens saiam de sua casa levando os móveis para dentro do caminhão. De fato, sua humilde e pequena casa tinha muitas infiltrações. A mudança era inevitável e previsível.
     Mariel entrou no veiculo junto de sua não tão pequena família, os pais e dois irmãos.
Para a surpresa da garota, sua nova casa era justamente aquela que você esta pensando. Sim, ela se mudou para nova casa, feita por quem sabe, pelas rosas. Agora as rosas acolhidas pela pequena, acolhiam Mariel e sua família.

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