domingo, 27 de junho de 2010

Acordes de um violão

Antes de mais nada, gostaria de dedicar esse texto a minha metaleira favorita: Renata, esse texto é para você!


  Uma manhã de outono, céu fechado, daquelas que o sol surge frio dentre as nuvens pesadas, reluzindo feixes de luz a cada fresta encontrada. Dias nublados, melancólicos, dias em que o galo não canta e as gaivotas não voam.
  Sem pressa ela levanta da cama. O quarto estava um pouco escuro, com penumbras da cortina branca de seda que sem muito êxito tentava impedir a total entrada da claridade. O quarto estava cheio de tons tristes, tons da monotonia, morbidez. Ela abriu as portas de vidro da sacada, passou dentre as cortinas.
  Olhou para sua rua adormecida, ninguém por lá. Ela voltou para o quarto, pegou seus amigos, os mesmos então dentro de um maço de cigarros que roubara de seu pai, e uma caixa de fósforos.Voltou para a sacada.
  Encostou-se a grade, acendeu e tragou. Bufava com vontade a fumaça que pelo ar se desfazia, pareciam as nuvens daquele dia, só que mais finas, leves e frágeis. Ela espera pelo nada, como uma morta viva, procurando a graça de existir num dia tão estúpido, que talvez nem devesse ter saído da cama. Ela ficou durante quase meia hora, inválida, na Campânia de seus vícios e visão deserta.
  Após tanto refletir sob o céu cinza, teve uma idéia, talvez não uma das melhores e talvez a mais insana ao longo de seus quatorze anos. Olhou para cima, olhou para a árvore seca no final da rua. Decidiu-se. O mais rápido que pode, pegou sua mochila, alguns trocados, entulhou dentro dela um caderno e uma caneta preta, pacotes de bolacha, um casaco, uma coberta. Correndo por entre os cômodos, passando corredores, descendo a escada, ela saíra de casa as pressas. Sorte ou não, naquela casa ninguém havia despertado .
  Ela foi correndo até a estação de trem. Pessoas por lá, bagagens na mão. Ela comprou a passagem, sobrando pouco dinheiro. Sentou-se no banco de madeira a espera da viagem para não sei aonde. Chegado o trem, ela se levanta, espera por aqueles desesperados que tumultuados entravam nos vagões.
  Logo após, ela entra, encontra um acento solitário. Sentada agora rente a janela, encosta a ponta dos dedos no vidro embaçado pela friagem, e com a manga de sua blusa vermelha o deixa nítido, para que sua visão clínica possa captar cada detalhe de sua travessia. Dado a partida, o trem sai da estação. Afora, ela observa pessoas acenando, pessoas chorando, pessoas sorrindo, pessoas que vem e vão.
  Agora sem rumo, apenas com a coragem, perspicácia e alguma mera bagagem, ela vai rumo ao desconhecido. Ela espera que sua intuição trace alguma rota, um destino,lhe mostre algum caminho .
  Ela olha para seu vagão, pessoas dormindo, pessoas cansadas, cansadas do mundo, cansadas da vida, do infortúnio da rotina. A apatia morava por lá . Ela concentra-se na janela.
  O trem vai aos confins da cidade, entrando em meio às áreas verdes, aos galhos em ambos os lados, troncos retorcidos, folhas secas esvoaçando a beira do trilho. O orvalho deixava a mata mais triste, o dia parecia chorar o que nos últimos dias Havia sorrido junto ao sol.
  Distanciando-se da partida, sente o início de uma leve adrenalina, aquela sensação de liberdade, de cortar o cordão umbilical, estar por conta própria, sentir-se um nobre inconseqüente de seus atos. Era só ela e suas tralhas.
  Tirou o casaco da mochila, o tempo atenuava-se, escutavam-se espirros; Tirou o caderno e caneta da mochila, olhara no relógio e fizera anotações. O Tempo passava enquanto tudo parecia congelado para todos, menos a ela que ansiosa esperava pelo trem parar na próxima estação. Ela recusava fechar os olhos por mais longo que fosse o caminho, não queria perder os detalhes contemplados janela afora. Cada arvore vista era única, assim como morro e montanha, pedra e rochedo. Foram mais de duas horas de viagem.
  Eis que o trem para, agora podia se escutar bocejos, ver braços estendidos, faces sonolentas.As portas de abrem o clarão adentra o local. Ela é a primeira sair enquanto os outros ainda despertam.
  Sai, pisa firme no concreto, se mantém admirada diante da cidade que nunca visitara antes. Sem se mover, parecia uma estátua que tudo olha. As outras pessoas por traz dela passavam abrindo em leque, passando por ela, expandindo a todos os cantos.
  “O que fazer então?”Pensou.“ tenho pernas, toda liberdade e irresponsabilidade do mundo. O que fazer?”
   Vagando pela cidade se foi. A cidade não lhe parecia tão grande, mas tinha um agito diferente. Era mais intensa, tinha movimento que a sua. Olhando para o relógio, eram dez e pouco da matina. Explorando as ruas, respirando vários ares,subindo um morro de asfalto ela encontra uma roda de violão. Três jovens entediados. Mas como podiam estar se em mãos tinham um violão? Ela nunca fora uma típica guria extrovertida, mas como era uma desconhecida aos olhos de todos, lá foi ela, deu a cara a tapa, saudou a todos:
   - Opa! – acenou- Então, o que fazem de bom?
   As pessoas acharam tanto quanto estranho, do nada alguém assim, chegar. Simulando normalidade, um deles diz:
   - Nada, como pode ver. - arqueou os ombros.
   - Mas e esse violão na mão? – perguntou
   - Não sabemos tocar.
   Ela não compreendeu bem ao certo o porquê de ter em mãos um instrumento do qual ninguém sabia tocar. Pois bem, ela sabia tocar. Tirou das mãos do garoto o violão sem sua permissão. Ele ficara um pouco abismado com a atitude. Ela colocou uma das penas sobre o meio fio e apoiou o instrumento de cordas e o dedilhou. Pegando o tom, sintonizando-se, ela abre um sorriso e diz:
   - A minha manhã seria um erro sem música, assim como minha vida. - estava serena, calma - Bom, Devem conhecer essa canção.
   Olhou bem para as cordas. Começou, notas iniciais, notas certas, não errou uma. E logo soltou sua voz : “I read the news today, oh boy!” Sim, era Beatles, a day in the life. Sua voz podia não ser tão melodiosa, mas seus dedos eram exímios no que faziam. Ela tocava, o máximo que podia, não ficava parada, ela se remexia, expressava a música em suas feições. Arrancou aplausos dos jovens.
  - Como você consegue? – Perguntou a única garota da trupe.
  - Faço aulas há algum tempo, mas nada como uma audição sagaz, sempre gostei de desvendar melodias.
  Elogios rondavam a garota, graças à canção, conseguira aproximar-se. A música era sua ponte inicial.
Curiosos perguntavam da onde vinha e aonde iria. Ela apenas dizia que vinha de uma cidade qualquer, e que iria aonde sua intuição lhe levasse. Não sabia se chegaria em casa e que no momento isso pouco importava-lhe. A principio ficaram um pouco pasmos, mas como é de natureza de todo jovem, a loucura é mera parte da estrada.
   Conversaram, mostraram a cidade ela, rondaram pelos cantos, visitaram praças. Malmente chegara e já tinha seus cativos.
   Hora do almoço todos se despedem, ela é convidada pela menina alfa do grupo para almoçar em sua casa. A Garota morava em uma daquelas casas em que ficam sobre um comércio, daquelas que você entra em uma discreta porta e sobe as escadas. Ela é apresentada a mãe como uma amiga qualquer. Almoçaram na sala, sentadas no chão frente a TV. A casa era aconchegante, mas ambas tinham mais o que fazer. Rapidamente desceram as escadas. Deram uma volta, devagar iam trocando idéias.Passaram por ruas e ruas, chamaram os outros dois garotos e o violão.
   Foram para a maior praça da cidade. Pelo caminho ela observava, o céu da manhã mudara um pouco. Em meio aquelas nuvens tenebrosas, um buraco se abria, o sol incandescia em meio a abertura. Pressentia que aquele azul se expandiria em meio as nuvens, e as cinzas do dia seriam ofuscados pelo avermelhado do céu...
   Chegando ao destino, um lugarzinho simpático, arborizado, uma bela fonte central com cupidos exaltados em meio deste, bancos de mármore, e poucas pessoas caminhando por lá.
   Já passava das quatro horas, nada demais fizeram. Até que avistaram um mendigo com seu chapéu no chão, em frente a fonte, implorando por uns poucos trocados. Ela então, sem hesitar, pegou o violão, sentou-se na mureta da fonte. Seus companheiros ficaram apenas longe a observar, pensando o que ela faria. O óbvio: Começou a tocar. Tocava músicas aleatórias, musicas que vinham ao coração. Um ou outro alguém passava e jogavam algumas moedas no velho chapéu. Não parecia muito agradar embora tocasse com garra.
    Seus amigos resolvem unir-se e ajudar, junto a ela, cantavam as canções sentados ao seu lado. As pessoas agora começavam a se interessar. Começaram a ficar em volta, curiosos a olhar, minuciosos a escutar cada acorde. Foram juntando, juntando... Como se não bastasse agora todos cantavam em um só coro, iniciado por um chapéu, por uma única garota, por um único violão. Agora a melodia invadia a cidade e sobre tudo o céu se abria no final de tarde, as cores em fusão, o azul, o laranja, o vermelho, o amarelo. Pareciam por demais a fusão de músicas e pessoas. No final da canção, o chapéu cheio até as bordas, ela se ergue sobre a mureta, agradece a todos, acena, deixa o violão no chão, em fuga abandona a todos em meio à multidão que mirava a garota. Não se esqueceriam daquela jovem que fez o céu se abrir e o povo a se reunir.
   Chegou correndo o mais rápido que pode, o trem estava saindo, ela entrou sem ao menos permissão, mas conseguiu. O trem levava agora, ela de volta para casa.O sol que se punha, ainda um pouco ela pode ver as cores do dia, já que as nuvens não a afrontavam mais o insípido céu. Agora podia de fato apreciar o verde vivo da mata, as cores das flores silvestres, o marrom dos troncos, o amarelado das folhas de outono. Mais uma vez pegara seu caderninho e fizera anotações alheias, inspirando mais leve o ar. Aqueles que estavam no trem, aparentavam mais disposição e alegria.
   Ela estava no lugar certo, na hora certa, no momento certo. O que era para ser um dia não vivido, fora um dia onde seu coração pulsava, e ela sabia, entre as suas artérias corria não só seu sangue,como a vontade de continuar. Continuar tudo, o seu próprio mundo, mesmo que cinza, mesmo com cores.Bastasse vontade e um violão na mão, tudo daria certo.
   Era noite, uma noite de pontos reluzentes, estrelas... Ela chegou em casa, sabia o que lhe esperava: sua mãe. Mentiu, disse que fora à casa de fulana, mas de qualquer modo era castigo na certa. Levará um dos maiores sermões de sua vida, fora logo para o quarto. Mas pouco lhe importava, tudo valeu mais que a pena. No seu armário ela guardava seu violão. Ela fora agora para sacada, sob um céu estrelado, onde na escuridão podia se ver mais cores que nas manhãs acinzentadas.

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